Le Horla — Maupassant

Imagem extraída do livro ilustrativo Le Horla, publicado pela Milan, 2010, de Anna Balbusso e Elena Balbusso.

19 de agosto — Já sei… já sei… já sei tudo! Acabo de ler isto na Revue du Monde scientifique: “Uma notícia assaz curiosa nos chega do Rio de Janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa na Idade Média, atua neste momento na província de São Paulo. Os habitantes perturbados deixam suas casas, desertam suas cidades, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis, embora tangíveis, tipos de vampiros que se alimentam de suas vidas durante o seu sono, e que bebem, além disso, água e leite sem aparentar tocar a nenhum outro alimento.

“O sr. professor Don Pedro Henriquez, acompanhado por vários sábios médicos, partiu para a província de São Paulo a fim de estudar no local as origens e as manifestações dessa espantosa loucura, e propor ao Imperador medidas que lhe aparentarem mais adequadas a trazer de volta a razão dessa população em delírio.”

Ah! Ah! Recordo-me, recordo-me da bela caravela brasileira que passou sob as minhas janelas subindo o Sena, no último dia 8 de maio! Achava-a tão bonita, tão branca, tão alegre. O Ser estava nela, vindo de lá, onde sua raça nasceu! E ele saltou do navio sobre o rio. Oh! Meu Deus!

Neste momento, eu sei, prevejo. O reino do homem está arruinado.

Ele chegou, Aquele que suscitava os primeiros terrores dos povos ingênuos, Aquele que era exorcizado por padres perturbados, que os feiticeiros evocavam pelas noites sombrias, sem o ver aparecer ainda, a quem os pressentimentos de mestres passageiros do mundo emprestaram todas as formas monstruosas ou graciosas de gnomos, espíritos, gênios, fadas, duendes. Após as grosseiras concepções do terror primitivo, homens mais perspicazes o pressentiram mais claramente. Mesmer o havia previsto e os médicos, já faz dez anos, descobriram, de uma maneira precisa, a natureza de sua força antes que pudesse exercê-la ele mesmo. Brincavam com a arma do novo Senhor, a dominação de um misterioso desejo sobre a alma humana, tornada escrava. Chamaram isso de magnetismo, hipnotismo, sugestão… que sei eu? Eu os vi se divertirem como crianças imprudentes com esse horrível poder! Ai de nós! Ai do homem! Ele chegou, o… o… como nomeá-lo… o… parece que ele me grita seu nome, e não consigo entender… o… sim… ele o grita… Escuto… não estou conseguindo… repete… o… Horla… Entedi… o Horla… é ele… o Horla… chegou!

Ah! O abutre comeu a pomba; o lobo comeu o carneiro; o leão devorou o búfalo de chifres pontudos; o homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora; mas o Horla fará do homem o que nós fizemos do cavalo e do boi: sua coisa, seu servidor e seu alimento, pela única força de sua vontade. Ai de nós!

No entanto, o animal, de vez em quando, se revolta e mata aquele que o domou… também quero… poderei… mas é preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os sábios dizem que o olho do bicho difere do nosso, não distingue como o nosso… E meu olho não pode distinguir o recém-chegado que me oprime.

Por quê? Oh! Lembro-me agora das palavras do monge do monte Saint-Michel: “Vemos nós a centésima milionésima parte daquilo que existe? Olhe, eis o vento que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate os edifícios, desenraíza as árvores, levanta o mar em montanhas de água, destrói as falésias e lança às rochas os grandes navios, o vento que mata, que sopra, que geme, que muge, já o viu e será que pode vê-lo? Ele existe, todavia!”

E pensava ainda: meu olho é tão fraco, tão imperfeito, que não distingue nem mesmo os corpos sólidos, se eles são transparentes como o vidro!.. Uma parede de vidro em meu caminho, ele me joga em cima como o pássaro que choca a cabeça contra as janelas entrando num quarto. Mil coisas, além do mais, podem enganá-lo e iludi-lo. Que espanto, então, que ele não saiba perceber um corpo novo que a luz atravessa?

Um ser novo! Por que não? Ele devia vir com certeza! Por que seríamos os últimos? Não somos capazes de distingui-lo, assim como todos os outros que foram criados antes da gente? É que sua natureza é mais perfeita, seu corpo mais fino e melhor acabado que o nosso, tão fraco, tão desajeitadamente concebido, cheio de órgãos sempre cansados, sempre forçados como molas que são complexas demais, o nosso, que vive como uma planta e como um animal, alimentando-se pesadamente de ar, de verduras, de carne, uma máquina animal vítima de doenças, deformações, decomposições, devagar, mal ajustada, ingênua e estranha, engenhosamente mal feita, obra grosseira e delicada, esboço de um ser que poderia se tornar inteligente e soberbo.

Nós somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, desde a ostra até o homem. Por que não um a mais, uma vez terminado o período que separa as aparições sucessivas de todas as espécies diversas?

Por que não um a mais? Por que não também outras árvores de flores imensas, brilhantes e que perfumam regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, ar, terra e água? — Eles são quatro, nada mais que quatro, esses pais de criação dos seres! Que pena! Por que não quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho, miserável! Avaramente dado, bruscamente inventado, grosseiramente feito! Ah! O elefante, o hipopótamo, quanta graça! O camelo, quanta elegância!

A borboleta, no entanto, dirão vocês! Uma flor que voa! Imagino uma que seria grande como o universo, cujas asas não consigo nem mesmo exprimir a forma, a beleza, a cor e o movimento. Mas a vejo… Ela indo de estrela em estrela, as refrescando e as embalsamando com o sopro harmonioso e sutil de seu curso!… E os povos lá de cima a olham passar, extasiados e contentes!…

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Que tenho, então? É ele, ele, o Horla, quem me assombra, quem me faz pensar nessas loucuras! Ele está em mim, tornando-se minha alma. Irei matá-lo!

Traduzido a partir da edição de André Fermigier, publicada pela Gallimard, 1999.

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