Madame Bovary — Flaubert

Madame Bovary (2014), dirigido por Sophie Barthes.

Capítulo VII, segunda parte

O dia seguinte foi, para Emma, uma data fúnebre. Tudo parecia-lhe estar cercado por uma atmosfera negra que se espalhava desordenadamente para o exterior das coisas, e a tristeza penetrava na sua alma com uivos doces, como faz o vento de inverno nos castelos abandonados. Era essa divagação tal como a que se tem sobre aquilo que não voltará mais, a lassidão que toma conta após cada feito realizado, essa dor que por fim traz a interrupção de toda a animação a que se está acostumado, a cessação brusca de uma vibração prolongada.

Como no retorno de Vaubyessard, quando as quadrilhas agitavam na sua cabeça, havia nela uma melancolia tépida, um desespero entorpecido. Léon reaparecia maior, mais belo, mais suave, mais vago. Mesmo que separado dela, ele não a deixara, estava lá, e as muralhas da casa pareciam guardar sua sombra. Ela não conseguia tirar os olhos do tapete por onde ele havia andado, dos móveis vazios onde ele havia sentado. O rio continuava a correr e arrastava lentamente suas pequenas correntezas ao longo da margem escorregadia. Eles haviam passeado lá várias vezes, nesse mesmo murmúrio de ondas, sobre as pedras cobertas de lodo. Que dias agradáveis de sol eles haviam tido! Que tardes agradáveis, sozinhos, sob a sombra, no fundo do jardim! Ele lia em voz alta, cabeça descoberta, encostado num tamborete de varetas secas. O vento fresco da pradaria fazia tremer as páginas do livro e as capuchinhas do caramanchão… Ah! Ele havia partido — o único charme de sua vida —, a única esperança possível de uma felicidade. Como pôde não ter compreendido essa alegria, quando ela se mostrava? Por que não tê-lo segurado com as duas mãos, servilmente, quando ele queria fugir? E ela se odiava por não ter amado Léon. Teve sede de seus lábios. Foi tomada pela vontade de correr para encontrá-lo, de jogar-se em seus braços e dizer-lhe: “Sou eu, toda tua!”. Mas Emma preocupava-se, em vez disso, com os problemas dos negócios, e seus desejos, aumentando com lamentos, só ficavam mais fortes.

Desde então, a lembrança de Léon foi o cerne de sua infelicidade. Ele cintilava mais forte que uma fogueira de viajantes abandonada na neve, em uma estepe russa. Ela corria em sua direção, encontrava aconchego, remexia delicadamente esse fogo prestes a se apagar, buscando em tudo ao redor algo que pudesse ainda revivê-lo. E as reminiscências mais longínquas como os momentos mais imediatos, aquilo que ela experimentava com o que imaginava, seus desejos de volúpia que se dispersavam, seus projetos de felicidade que se quebravam ao vento como galhos mortos, sua virtude estéril, suas esperanças derrubadas, sua indiferença pela casa, juntava tudo, pegava tudo, e servia-se aquecendo sua tristeza.

Madame Bovary (2014), dirigido por Sophie Barthes.

No entanto, as chamas se abrandaram, quer pelo esgotamento de sua própria provisão, ou porque o amontoado de coisas tenha sido excessivo o bastante. O amor, pouco a pouco, se apagou pela abstinência, o lamento abafado pela rotina. E esse clarão ardente que arroxeava o seu pálido céu cobriu-se com mais sombras e apagou-se gradualmente. No estupor de sua consciência, ela até mesmo pegou repulsa do marido no lugar das aspirações pelo amante, queimaduras de ódio no lugar do calor da ternura. Mas, como ainda soprava a tempestade, e a paixão consumiu-se até virar cinzas, nenhum amparo veio, nenhum sol apareceu, foi noite absoluta em toda parte, e ela ficou perdida no frio intenso que a transpassava.

Então, os dias ruins de Tostes recomeçaram. Ela estimava-se agora mais infeliz, pois vivenciara o sofrimento, com a certeza de que ele não acabaria.

Uma mulher que se impusera tamanhos sacrifícios podia muito bem privar-se de fantasias. Ela comprou para si um genuflexório gótico, e gastou em um mês uns quatorze francos laranjas para limpar os ombros. Querendo ter um vestido em casimira azul, escreveu para Rouen. Escolheu de uma loja seu mais belo lenço, que usava amarrado na cintura por cima de seu robe de chambre. E, de ventanas fechadas, com um livro nas mãos, ficava estirada sobre um canapé nesse figurino.

Com frequência, ela variava seu estilo: vestia-se à moda chinesa, de cabelos encaracolados, os fios entrelaçados, fez uma linha de lado na cabeça e os enrolou para dentro, como um homem.

Ela quis aprender italiano: comprou dicionários, uma gramática, um estoque de papel branco. Tentou leituras sérias, da história e da filosofia. À noite, de vez em quando, Charles acordava-se em sobressalto, pensando que alguém viria procurá-lo para tratar de um doente.

– Já vou, balbuciou ele.

E era o barulho de um fósforo que Emma riscava para reacender a lâmpada. Mas ocorria com suas leituras o mesmo que acontecia com suas tapeçarias que, recém-começadas, atulhavam o armário. Ela começava, desistia, passava a outras.

Tinha seus caprichos, que a levaram facilmente a extravagâncias. Um dia, apostou com o marido que era capaz de beber uma grande taça de eau de vie, e como Charles caiu na besteira de desafiá-la, tomou a bebida até o fim.

Apesar de seus ares evaporados (era o termo das burguesas de Yonville), Emma, contudo, não parecia feliz e, de costume, guardava nos cantos da boca essa contração imóvel que marca a aparência das solteironas e dos ambiciosos decadentes. Ela estava totalmente pálida, branca como um lençol lavado. A pele do nariz saía pelas narinas, seus olhos observavam de uma maneira vaga. Por ter achado três cabelos brancos sobre as têmporas, falou muito sobre sua velhice.

Madame Bovary (2014), dirigido por Sophie Barthes.

Frequentemente tinha desmaios. Um dia desses, cuspiu sangue, e como Charles apressara-se, deixando transparecer sua preocupação, respondeu-lhe:

– Ah bah! O que isso importa?

Charles foi recolher-se em seu gabinete. E ele chorou, com os dois cotovelos sobre a mesa, sentado na sua cadeira de trabalho, sob a cabeça frenológica.

Então, ele escreveu à sua mãe implorando-lhe para vir, e eles tiveram entre si longas conversações a respeito de Emma.

A que se resolver? O que fazer, já que ela se recusava a qualquer tratamento?

– Sabes do que a tua mulher precisa? — prosseguia a mãe Bovary — É de uns serviços forçados, trabalhos manuais! Se ela fosse como várias outras, obrigada a ganhar seu pão, não teria esses chiliques aí, que lhe vêm de tantas idéias que enfia na cabeça e da ociosidade em que ela vive.

– No entanto, ela se ocupa, dizia Charles.

– Ah, ela se ocupa! Do que, então? Lendo romances, livros ruins, obras que são contra a religião e nas quais se zomba de padres com discursos tirados de Voltaire? Mas tudo isso vai longe, minha pobre criança, e qualquer um que não tem religião sempre acaba terminando mal!

Assim, ficou resolvido que se impediria Emma de ler romances. A tarefa não parecia nada fácil. A bondosa mulher encarregara-se: ela devia, quando passasse por Rouen, ir pessoalmente ao locador dos livros e informá-lo que Emma cessava suas assinaturas. Não se teria o direito de advertir a polícia, caso o livreiro persistisse mesmo assim no seu ofício de envenenador?

As despedidas da sogra e da nora foram secas. Durante as três semanas que tinham estado juntas, elas não haviam trocado quatro palavras, tirando os informes e os cumprimentos quando se encontravam à mesa, e à noite antes de ir para a cama.

Madame Bovary mãe partiu numa quarta-feira, que era dia de feira em Yonville.

[…]

Traduzido a partir da edição de Thierry Laget, publicada pela Gallimard, 2001.

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