Ela já passou

Foto: Ritmo Melodia.

Observo algumas fotos antigas, às vezes de amigos, família e até as lembranças de redes sociais e me assusto. Como o tempo passou. Como tudo mudou. Como a vida passou. Depois, me deparo sentada na minha cadeira, olhando para minha parede branca, não tão branca por conta de alguns rabiscos que fiz sem querer, pensando na minha vida…

É cada vez mais difícil acreditar em tantos anos que já se passaram. Pode parecer pouco para quem é mais velho, mas é a minha vida toda. Não muito longe de completar duas décadas, me dói lembrar o tempo de criança que passou rápido como um raio quando atinge o solo ou como uma estrela cadente atravessando o céu estrelado e que desaparece antes mesmo de eu ter feito meu pedido. Mas ela foi linda durante o breve tempo em que ficou visível.

Lembro do dia em que contei para minha mãe que não queria crescer. Ela me contrariava, dizendo que sim, eu iria crescer, e muito rápido aliás. Depois de ela insistir em me dizer que sim, eu cresceria um dia, me vi aos prantos. Chorava como se eu tivesse caído e ralado o joelho. Ou como se estivesse fazendo birra para ganhar alguma coisa. Mas não, era um choro que já tinha lágrimas de saudade. E sim, era sincero. Eu era uma criança e não havia outro motivo além desse para chorar naquele momento. Eu realmente chorava pois não queria crescer. Eu não queria que a vida passasse.

Para mim era desesperador pensar que nada mais poderia ser daquele jeito. Eu achava que seria eterno brincar na rua, ainda de terra, na José Bonifácio. Pensava que seria eterno fazer minha boneca dormir, ou cozinhar bolinhos de terra enformados em potes de margarina. Dali em diante tudo passou muito mais rápido.

Hoje vivo uma vida que não imaginava. Não moro com minha família desde os 17 anos. Estou a 800km de casa. Vi surgir obrigações e responsabilidades antes inimagináveis. Cozinho comida de verdade, é eu tento. Minha antiga rua não é mais minha rua. E ela também não é mais de terra. Os vizinhos já não são mais os mesmos de infância na rua que virou meu pouso nas férias. E pisquei, já fiz um ano e meio de faculdade.

O calendário gregoriano fala que um ano tem 365 e às vezes 366 dias. Mas parece que dura só alguns meses. Contando os dias, 365 dias parece ser infinito, mas ele é tão passageiro quanto o mês de fevereiro. A vida é passageira. Enquanto escrevo isso ela está passando também. Mas infelizmente ela passa e às vezes leva algo consigo…

A vida já levou duas pessoas que eu amava e que estiveram sempre ao meu lado. A primeira delas partiu 10 anos antes. A última foi levada não há muito tempo. Partida essa que me machuca até hoje. A saudade é inevitável, mas infelizmente a partida também. Partida que chegará um dia para qualquer um.

Por isso, enquanto vivemos cada dia de 24 horas, que aproveitemos 30, mesmo se ele parecer durar 12 horas. Que fiquemos ao lado de cada um que amamos enquanto podemos. Que saibamos ver nas coisas mais simples o mais belo que elas possuem. Que façamos a vida ser linda. Que valorizemos quem está ao nosso lado. Que agarremos cada oportunidade. Que aproveitemos a vida que nos é dada. E principalmente, que vivamos a vida. Afinal, a vida sim, é um sopro. Às vezes até não a enxergamos passar e quando nos dermos conta, já passou. E depois que passou, jamais volta. Quem nos dera poder viver novamente cada momento bom de nossas vidas.


Crônica produzida para a disciplina de Redação Jornalística III do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa.