Divagando sobre noites brancas de Dostoievski

Não me considero um sonhador apesar de passar as noites em claro refletindo sobre os pesares do mundo e tentando me colocar dentro desse contexto de forma provedora de boas ações. Perco-me nas coisas banais, como nos sons das ruas que se encaixam em uma leve harmonia. Distraio-me facilmente com as cores, principalmente o azul. Certa vez levei uma lata de tinta na cabeça e por ironia do destino tomei um banho de tinta azul, o impacto fez um corte profundo fazendo com que o vermelho que escorria da minha cabeça mesclasse naquele azul cor de céu, e por alguns minutos esqueci-me da dor e só via aquelas colorações se misturando. Assim, minha vida distingue-se em distrações, seja em meio à dor, ao amor e nas paixões avassaladoras. Às vezes sinto-me culpada, por tudo, pelo caos do mundo, pelas dores alheias e pelas minhas.
Do meu lado, nesse exato momento tem um gato que descansa em seu sono profundo, e então me pergunto, qual seria a perspectiva desse indefeso animal? Não seríamos nós assim, animais indefesos presos nas coisas banais? Nos planos desfeitos? Mas ele continua ali, sereno e no mais profundo sono e ouso dizer que tenho inveja desse animal.
Somos almas compostas de carne, perdidas em um mundo cheio de regras, somos seres mutáveis que esquecem e desaparecem em um mundo cheio de regras, somos intensos e frios, perdidos em um mundo cheio de regras, e eu estou aqui preso em todas essas distrações. Queria gritar para as pessoas na rua hoje à tarde, olhem aqueles passarinhos se esfregando prazerosamente na areia quente do sol, senti uma inveja, mas não aquela inveja de posse e sim inveja de ter prazer nas coisas simples. De sentir o sol aquecendo levemente a pela em uma tarde fria.
Seria eu uma representante mortal e estúpida desse denominado fenômeno dado por noites brancas? Seria eu o sol da noite? Estaria eu presa nessas distrações e deixando o mundo acabar-se? Não sei, mas aqui do meu lado está o gato no seu mais profundo sono.