Não se ‘pode-se’ mudar.

“El tipo puede cambiar de todo: de cara, de casa, de familia, de novia, de religión… Pero hay una cosa que no puede cambiar… No puede cambiar de pasión!” — El Secreto de tus Ojos, 2009.

Desde cedo, mamãe sempre sonhou com o dia em que eu seguiria seus passos. Mamãe é formada em Administração porque não tinha dinheiro para cursar Psicologia. Mamãe não se casou com amor de sua vida porque ele já estava ligado pelo matrimônio com outra donzela. Mamãe cuidou dos pais porque mais ninguém poderia fazê-lo. Mamãe trabalhou durante anos em grandes empresas, mas nunca conquistou um cargo de destaque; a funcionária exemplar que não merecia ascender. Mamãe cria que seria mais simples e seguro se me ensinasse um caminho já trilhado. Mamãe não se emociona ao ouvir uma bela música. Mamãe nunca desistiu. Mamãe nunca teve paixões.

Eu, por outro lado, fui muito volátil. Quero dizer, sou. Quero dizer, não deveria ser. Quero dizer qualquer coisa que eu nunca disse antes para sentir o gosto de uma palavra nova tocando a ponta da língua. Quero atravessar o país de ônibus para observar os passageiros. Quero ir a Angola para falar outro português que não seja meu. Quero ler todos os livros do mundo para sentir os cheiros que exalam das páginas. Quero criar um podcast feminista e um blog vegano. Quero cursar faculdade de Sociologia. Quero jogar tudo para o alto e ganhar a vida cuidando de animais. Quero aprender a tocar acordeão, dançar tango, andar de skate e pular corda. Quero — queria — ter menos paixões.

Mamãe diz que faço escolhas muito difíceis. Mamãe tem razão, eu acho. Mamãe leva uma vida muito difícil. Mamãe não acha que eu também tenho razão.