vinde a mim os desajustados

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pequena crônica inspirada no texto fodástico da Clara Averbuck, o “ei, São Paulo”, em https://medium.com/@claraaverbuck/ei-s%C3%A3o-paulo-22af74bb8e20, de 25.01.16 ❤


eu nunca fui muito de ter parada. não que eu tenha exatamente planejado isso de não fincar bandeira em parte alguma.

até os 11 anos, eu, caiçara de Santos, peixe-de-mar até a última escama, tinha a certeza de que minhas raízes se firmariam em areia, toda vida mais fundo. tu vai pela avenida da praia que não tem como tu errar! ah, tu mora no canal 2?

a vida sempre aconteceu e desaconteceu justo quando eu achava que é bem por aí, deu pé, tô começando a gostar desse negócio de ter um lugar pra mim.

primeiro, veio um ABCdário de desencanto. até que acostumei a andar de trem lotado quase todo dia. até que não ligava muito para o fato de nunca caber, mas desconfiava que eu não haveria de me acabar no fim da Av. Goiás. ah, cidade-madrasta-má, o tanto que te odiei nos meus blogs, nas subidas de serra. ama: silverchair, música, escrever, amigos/odeia: o porteiro metido, o cachorro da vizinha, pattys e a cidade onde mora.

mas daí veio você, Sampa. primeiro de mansinho, comigo sempre tendo que correr para pegar o trem de volta, amanhã tô de volta, me espera, Largo do S. Francisco, onde, em cada canto, larguei meu coração. desse clichê eu não me canso.

primeiro como quem não quer nada: posso entrar? podia. entrei. fui me esparramando devagar mas nem tanto, igual ao pé de feijão que plantei no quintal do Nonno. endureci mais e melhor, mirei pro alto, aprendendo a imitar o teu concreto. arrumei o primeiro emprego. me formei. decidi que era hora de a gente viver juntas. faltou pouquinho pra criar raízes em um bairro. de novo, a vida não teve clemência. já estou de mudança outra vez. hoje, São Paulo. amanhã, onde a palavra onde?

sabe de uma coisa, São Paulo? até suspeito de que, antes mesmo de eu estrear nessa loucura coletiva que chamam de mundo, já sabiam que eu ia vir com um tanto assim de fome por espaço. você, muito esperta, olhou pro meu prospecto, todo rabiscado de caneta em nuvens caóticas, e disse:

— olha só, menina-peixe, depois aborrescente problemática, que depois vai crescer, achar que endireitou, que tá no caminho certinho, quadradinha que nem o fundo-de-garrafa que ela põe na cara para poder usar os olhos, mas que, no fundo, é uma livre enrustida. como é esquisita! essa foi cuspida para fora da linha de montagem com defeito, “conferido-reprovado”. ainda mais assim, metida a escritora. gostei. me dá ela. me dá ela mais esse punhado de desajustado que acha que não tem lugar no mundo. give me your weird yearning to breathe free. a gente vai se dar bem, ninguém vai se importar com quem é ela na fila do pão. mesmo porque ela prefere comprar média. ou pão-de-cará.

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