Anna Gabriela Malta
Aug 31, 2018 · 19 min read

LIBERDADE DE ESCOLHA, UM DIREITO DE TODOS.

A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL HOJE

Ricardo Cineviva, professor de ciências política do IESP — UERJ apresenta um quadro deprimente da educação básica no Brasil hoje, em sua coluna na Folha de S. Paulo do dia 30/10/2014.

“A quinta meta do PNE refere-se a este ponto: “Alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º ano do ensino fundamental”. Uma criança pode ser considerada alfabetizada quando domina a leitura e a escrita como instrumentos para continuar aprendendo, buscando informações e é capaz de se expressar, ler e produzir diferentes tipos de texto. Hoje, segundo levantamento do movimento “Todos pela Educação”, estima-se que apenas 44,5% das crianças matriculadas no terceiro ano do ensino fundamental apresentam aprendizagem adequada em leitura. Em escrita, esse número é ainda menor. Estima-se que apenas 30,1% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental tenham aprendizagem adequada de escrita.

A qualidade da educação brasileira, quando medida por meio do desempenho acadêmico dos nossos alunos, está abaixo de países de nível de desenvolvimento econômico semelhante ou até mais pobres do que o Brasil, como Costa Rica, Argentina, Chile ou Tailândia. Segundo os dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) 2012, 49,2% dos alunos brasileiros de 15 anos de idade (e que, portanto, deveriam já ter concluído o ensino fundamental) não foram capazes de deduzir informações básicas ao ler um texto, não conseguem estabelecer relações entre diferentes partes do texto e não são capazes compreender nuances da linguagem. Entre os alunos de 65 países avaliados, os brasileiros ficaram em 55° lugar do ranking de leitura do Pisa 2012. No ensino da Matemática, nossos resultados são ainda piores. Praticamente, dois de cada três alunos brasileiros de 15 anos não são capazes de entender percentuais, frações ou gráficos. Consequentemente, esses alunos não conseguem deduzir situações que exigem apenas interpretação direta da informação dada. O Brasil ficou em 58° lugar no ranking internacional de Matemática do Pisa 2012, entre os 65 países avaliados.”

Segundo Camila Guimarães em sua reportagem sobre os resultados do Ideb 2015 na revista Época, ela levanta a questão da estagnação do aprendizado dos alunos. As metas do Ideb algumas vezes são alcançadas, mas isso não implica que os alunos tenham o conhecimento esperado para aquela faixa etária. Um dos exemplos citados foi o estado de Goiás, que teve nota 5,5 quando sua meta era 4.9. No entanto apenas 24% dos alunos tinham os conhecimentos necessários em Português e 41% aprenderam o que deviam em Matemática. 60% dos alunos brasileiros matriculados no 5o ano são incapazes de localizar uma informação explícita em um texto. Camila termina seu artigo com a seguinte afirmação:

“Desde que a educação se tornou um direito garantido pela Constituição, há mais de 25 anos, duas grandes políticas públicas foram responsáveis pelo tímido avanço da educação brasileira: a universalização do ensino básico, que garantiu a matrícula de toda criança na escola, e o sistema de avaliação do ensino.”

Em 2017 o Brasil está longe de equacionar a defasagem no aprendizado dos alunos matriculados, principalmente na rede pública, que carece de investimento e flexibilidade de gestão para alcançar os resultados propostos. Apesar de toda boa intenção em abraçar todas as crianças e proporcionar uma educação de qualidade, economicamente esse sonho é inviável para qualquer estado.

Em um Estado de tamanho continental, inchado, burocraticamente pesado e intrinsicamente subserviente aos interesses de determinadas classes é muito difícil inverter esse quadro. Os problemas da educação pública e suas possíveis soluções são velhos conhecidos da sociedade como um todo, e não são objeto desse artigo. Para esse artigo, basta ter conhecimento dos resultados da educação pública, como exemplificado acima, o que permite dizer que o resultado é deficiente. Levando em consideração que 82,8% dos alunos estão matriculados na rede pública segundo o Censo da Educação Básica de 2013, o que esperar dessa geração quando chegar a hora deles ocuparem seus espaços na sociedade? No mercado de trabalho? Que tipo de emprego poderão esperar conquistar? Que país teremos, dominado por uma sociedade incapaz de operações um pouco mais complexas de matemática ou interpretar uma notícia de jornal? “Se a educação é um direito de todos, o direito de cada aluno que não aprende o considerado adequado vem sendo negado”, ressalta Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, organização sem fins lucrativos que atua para melhorar a qualidade da educação. A cada aluno negado o direito de aprender o mínimo esperado, é menos desenvolvimento sócio-econômico para o país como um todo em vinte anos. Se levarmos em consideração que a educação gera aumento de produtividade e maior produtividade gera aumento do PIB, de preferencia per capita, ou seja, crescimento econômico maior que o demográfico, entende-se que o fato dos alunos saírem dos bancos escolares sem capacidade plena de interpretação e conhecimentos gerais esperados para essa faixa etária favorece a estagnação do desenvolvimento do país como um todo.

Segundo Gustavo Ioschpe, pesquisador em Educação, pode-se dizer que influências da educação sobre o crescimento econômico dividem-se em quatro mecanismos:

“1.O desenvolvimento de competências gerais (literatura, aritmética, etc), indispensáveis para o funcionamento em uma sociedade moderna, e sabedorias específicas (química, física etc) importantes para determinados ramos da atividade econômica;

2. A capacidade de adotar e adaptar tecnologias, essencial para a implantação de métodos produtivos e de outras regiões e países sem que seja necessário reinventar a roda a cada passo;

3. A maior habilidade em se lidar com situações de desequilíbrio, ou seja, notar uma falha ou oportunidade e mobilizar recursos e esforços para consertar uma e aproveitar a outra; e, finalmente,

4. Geração de pesquisas que levam à criação de novas tecnologias, que impedem a obsolescência do processo produtivo, e contrapõem-se aos retornos marginais declinantes dos investimentos em capital físico para manter as economias crescendo e maneira sustentada.

Poderíamos fazer uma simplificação e dizer que as três primeiras influências da educação sobre o crescimento econômico (competências, cópia e adaptabilidade) são desenvolvidas no ensino básico, quanto a quarta (pesquisa) é do ensino superior. Enquanto as três primeiras aproximam uma economia da curva da fronteira da produtividade, a última expande a curva.

Um país que busca desenvolver-se e está distante da curva da fronteira da produtividade, como é o caso do Brasil, precisa, popularizar seu ensino básico para chegar mais perto da curva.”

Considerando esses quatros pontos como resultados de uma educação eficiente, a educação no Brasil está aquém da demanda desenvolvimentista. Sempre considerando que o desenvolvimento de um país tem por consequência a melhoria de qualidade de vida dos seus cidadãos.

Uma das grandes questões brasileira é o gap entre as classes sociais. O 1% mais rico responde por 90% ou mais dos recursos econômicos. Mais uma vez, a educação está no centro da questão. Segundo uma pesquisa da FGV, em cima dos dados do Pnad 2007, um trabalhador pode aumentar em até 15% seu salário com os anos a mais de estudos. Quanto mais anos de estudos os pais tem, maiores são as chances dos filhos completarem seus estudos. Completando seus estudos, maiores são suas chances de empregabilidade. Maior empregabilidade, mais opções de escolha, entrando para um círculo virtuoso. Seus filhos terão ainda mais chances, reproduzindo o mesmo círculo. Em contrapartida, os filhos de pais com pouca escolaridade enfrentarão maiores dificuldades e terão menos estímulos para terminarem seus estudos, restando-lhes menos oportunidades de emprego, e por sua vez reproduzindo esse círculo vicioso.

O Estado brasileiro reconhece apenas dois segmentos de ensino: público (federal, estadual e municipal) que atende a esmagadora maioria da população a quem não é permitido nenhum tipo de escolha ou avaliação do serviço prestado e, o privado, que atende a uma pequena parcela da classe média e alta, a qual é reservado o direito de escolha da metodologia pedagógica, da estrutura escolar e principalmente, o direito de avaliar o resultado do serviço prestado. Um terceiro semento escola não é levado em consideração nas políticas públicas de educação: o Terceiro Setor. Escolas sem fins lucrativas, gratuitas para as classes de baixo poder aquisitivo e que são custeadas por iniciativas privadas sejam elas pessoas físicas ou jurídicas. Nesse segmento, ainda bem incipiente no Brasil, a classe menos favorecida economicamente retoma o poder de decisão, podendo escolher que tipo de educação quer para seus filhos. A escolha é feita em cima dos resultados e benefícios apresentados pela escola, assim como faz a classe média.

LIBERDADE DE ESCOLHA, UM DIREITO DE TODOS.

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I — igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;”

A citação acima é o ARt. 205 da Constituição Federal de 1988. Segundo a constituição brasileira, educação é um direito de todos. Inclusive, “promovida e incentivada com a colaboração da sociedade’, prevendo no Art. 213 inscrições filantrópicas e/ou comuniditárias, sem fins lucrativos. No entanto, quando pensa-se em educação, principalmente para as classes menos favorecidas, justamente as com menos oportunidades para como diz a constituição obter “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, pensa-se somente na rede pública.

Como vimos mais acima o sistema público está sobrecarregado, de alunos e burocracias. A rede privada não consegue absorver esses alunos com as bolsas integrais ou parciais disponibilizadas, até mesmo porque esse público não faz parte do seu modelo de negócios. Como afirmou Ernesto Martins Faria, da Fundação Lemann, o direito do aluno que não aprende o esperado está sendo negado. Não apenas o direito de uma educação suficientemente adequada, mas também o princípio de liberdade de escolha do indivíduo.

A classe média e elites brasileiras tem a seu dispor uma ampla gama de escolas particulares que seguem cada qual uma metodologia pedagógica que melhor combina com os interesses e objetivos da família. Essa família pode escolher como quer que a educação acadêmica de seu filho seja, baseado nas características e habilidades que a escola mais investe. Um dos principais critérios de escolha de uma escola particular são os resultados que ela apresenta — aprovação no ENEM; quadro de alumni e satisfação de alunos, ex-alunos e pais.

Caso o aluno não se adapte a uma determinada escola por causa do sistema adotado, ou uma não adaptação às regras existentes, é sempre possível a troca por outra escola, com resultados parecidos mas metodologia diferente.

O aluno bem adaptado à sua escola, convivendo com uma estrutura com poucos alunos por sala; professores capacitados e atuantes; equipe de apoio completa com coordenadores, diretores, assistentes e psicopedagogos a disposição e voltados para o desenvolvimento desse aluno, tem uma chance infinitamente maior do que o aluno que está na rede pública, dentro de uma sala de aula com mais de quarenta alunos; professores ausentes, mal capacitados e desmotivados, corpo de gestão despreparado para a função e praticamente sem apoio, estímulo e mesmo aulas constantes é muito mais difícil que esse aluno termine o Ensino Médio ou o Fundamental II. E mesmo se terminar um dos dois ciclos, sairá da escola com uma bagagem aquém do necessário e claramente em desvantagem em relação ao aluno da rede particular quando enfrentarem juntos o ENEM por uma vaga na universidade.

Já as classes de baixa renda tem esse direito de escolha negado. A elas resta apenas aceitar a educação imposta pelo Estado, seja ele qual for. Não lhes cabe escolher a escola para seus filhos tendo por base o resultado de aprovação, metodologia adotada, religião ou qualquer outra característica e habilidade que acredite ser importante para o seu desenvolvimento. A esses pais espera-se que aceitem o que outrem escolheu para seu filho, mesmo que em algum momento eles não concordem com essa escolha. Ele não tem outra opção.

Ainda sobre liberdade. A constituição no seu Art. 5 afirma

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

IX — é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”

Ou seja, a constituição define como uns dos direitos fundamentais a liberdade e a igualdade. No entanto, tanto a liberdade de escolha dos pais em relação a que tipo de educação desejam para seus filhos e a igualdade de oportunidade para essas crianças está sendo negado diariamente quando essas famílias são obrigadas a aceitarem o ensino público como única opção de educação viável.

TERCEIRA VIA NA EDUCAÇÃO: ESCOLA FILANTRÓPICAS DE NICHO

O que é uma escola filantrópica de nicho? É uma escola que atende as classes de baixa renda, e no entanto, não são públicas mas também não cobram mensalidades. Suas despesas sua custeadas por benfeitores/patrocinadores.

Existem as comunitárias que vivem na sua grande maioria, quase que exclusivamente de recursos do governo, e as que buscam seus recursos financeiros na iniciativa privada, seja ela pessoas físicas ou jurídicas. São instituições reconhecidas pelas instâncias governamentais como sem fins lucrativos e caracterizadas como ONGs. Podem ser dos tipos: OSIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) ou Associações (grupo de pessoas com um objetivo comum de assistência social, onde não há dividendos para seus sócios) e Fundações (são entidade de direito privado com fins filantrópico se representatividade jurídica) .

Escolas filantrópicas, não sendo públicas, podem escolher qual público trabalhar: demograficamente; por renda familiar; por aptidões e habilidades; por religião e outros. E a partir do seu público atendido estabelecer qual melhor metodologia ou pré-requisitos necessários para apresentar um resultado satisfatório.

Por não terem garantido que os benfeitores e/ou patrocinadores continuarão a financiar a instituição independente do comportamento e resultado apresentado, são obrigadas a cuidarem de perto de sua gestão ou seja: realocação de recursos financeiros; projeto pedagógico coerente com a linha definida; transparência nas suas ações; bons relacionamentos com seus stakeholders — alunos; responsáveis; equipe e financiadores. Diferente da rede pública as escolas filantrópicas precisam atender dois públicos principais: as famílias que atende e os benfeitores que financiam a instituição.

A escolas filantrópicas apresentam algumas vantagens para os alunos: sala de aula com menos alunos; educação segmentada; maior flexibilidade para implementação de projetos e programas diferenciais e maior abertura para novidades. Um ponto de vantagem para as escolas filantrópicas e/ou comunitárias que não dependem de recursos financeiros do governo, e sim de captação de recursos na sociedade civil, sejam eles de pessoas físicas ou jurídicas, é a a maior eficiência na administração dos recursos e transparências nos processos. Para os financiadores elas são oportunidades para participarem e influenciarem uma educação que privilegia questões que acreditam serem vitais para o desenvolvimento do país. O resultado dessa combinação de públicos, coms mas respectivas agendas e objetivos, é uma ampla gama de fornecedores de serviços — escolas distintas que propiciam um ambiente mais rico e interessante para a edução como um todo.

A terceira via na educação vem ocupar uma lacuna na educação brasileira e garantir que todos — independente da renda familiar, classe social, crença ou raça — tenham o mesmo direito de escolha em relação a educação de seus filhos. A liberdade para colocar cada filho na escola que melhor se adapta as suas necessidades e habilidades.

CAPÍTULO 2: A SOCIEDADE CIVIL

O TERCEIRO SETOR

O Terceiro Setor surge no mundo como reposta as contradições de uma sociedade liquida, hedonista, egoísta e individualista. Surge como uma das soluções para preencher o vazio existencial decorrente das características de um mundo líquido. Apesar de no Brasil só ter começado a apresentar relevaria nas últimas três décadas, o Terceiro Setor emergiu como um fenômeno, como já vinha acontecendo nas sociedades capitalistas mais avançadas, justamente onde o mundo líquido mais se vazia presente.

O historiador Robert Fogel, enfatiza a necessidade emergente de se estabelecer uma agenda ético-política pós-moderna para o século vinte e um — o que ele chama de um novo “grande despertar” — no qual o desenvolvimento dos recursos espirituais teria primazia frente às questiones de ordem estritamente econômica que dominaram a agenda a partir do século desfite com o Iluminismo. Entre esses objetivos estaria a luta pela auto-realização, a educação não apenas para fazer carreira, mas para adquirir valores espirituais, e o desejo de encontrar um sentido mais profundo na vida do que a interminável acumulação de bens de consumo e a busca do prazer.

A resposta a esse desafio reside no trabalho voluntário, no comprometimento, no ato de se dar, na prazerias atividade de ajudar alguém que precisa, nesse sentimento de ser útil, de prestar um favor, transcendendo as limitações do homen autocentrado.

Essa noção permeou o pensamento de vários intelectuais, em momentos distintos da história. Keynes, em 1927, disse: “Por que não deveríamos começar a colher os frutos espirituais de nossas conquistas materiais?” Preconizava na ocasião melhor aproveitamento emocional e espiritual das conquistas materiais atingidas pelas nações dominantes no cenário internacional, antes do crash de 1929, antecipando-se ao comportamento de “manada” que caracterizava, e ainda caracteriza, o mercado financeiro mundial. Delfin Netto, em seu artigo do dia 24/09, na folha de São Paulo diz:

“As relações humanas relevantes na economia repousam justamente na ‘Fiducia’, um ingrediente invisível. Os homens aprenderam que confiando uns nos outros podiam tornar mais eficiente a sua atividade.

A confiança repousa na certeza de um comportamento apoiado por normas morais reciprocamente aceitareis.

Adam Smith em ‘Teoria dos Sentimentos Morais’ (1759), já dizia que o homem trazia no peito o “espectador imparcail’. Quando, por qualquer motivo, se destrói a “confiança” entre os participantes do mercado, desaparece instantaneamente a trama invisível de coordenação produzida por ela.

O valor relativo dos ativos de cada um (que só existe porque ele reconhece o valor relativos dos outros) desaparece. Consequentemente deixam de funcionar os mercados e estiola-se a atividade econômica.”

Enquanto nos países desenvolvidos o engajamento social é um herança tradicional religiosa ou por culpa, seja por invasores territoriais, massacres e guerras, no Brasil ele veio a reboque da ditadura militar, em forma de resistência e como criador de um espaço de liberdade e combate.

Nos anos 70, as instituições filantrópicas era iniciativas das igrejas e traziam uma roupagem de caridade, sendo administradas de forma amadora. O ajudar o outro tinha sua origem em um conceito de bem social maior, uma utopia em que todos viveriam em igual condições de bem estar. Foi capitaneado pelo movimento estudantil desejando mudar as regras e em comunhão com o movimento hippie ‘paz e amor’. Nos anos 90, os problemas sociais cresciam, as respostas do comunismo e socialismo se mostraram inócuas para lidar com esses dilemas, e acarinha neoliberal fez sucessos nas ONGs, agora com legislação pr´pria e incentivo do governo. Começou a era profissionalizando das entidades sem fins lucrativos. Elas precisavam ser bem administradas e atingir metas com objetivos claros. O conceito de ajudar o outro mudada seu foco de bem estar social para um bem estar individual. Como o indivíduo é responsável pelo mundo a sua volta, se ele for eficiente em diminuir as mazelas a sua volta, o beneficiado de suas ações, em última estancia, é ele próprio.

Cristina Brandão em seu trabalho “Terceiro Setor: resposta à crise do Estado Brasileiro?” faz as seguintes considerações:

“A designação Terceiro Setor é bastante recente. O que hoje é assim delimitado, já foi anteriormente denominado de várias formas: setor sem fins lucrativos, setor da sociedade civil, setor voluntário, setor sócio-econômico, setor ONG, setor da caridade, etc.

Lester Salamon destaca que tem havido na última decepadas uma grande efervescência dessas instituições sem fins lucrativos nos quatro quadrantes do planeta. Toda sorte de fundações, financiadas por grandes empresas do Segundo Setor, ou mesmo pequenas cantinas de distribuição de sopas, ligadas pelo fato de terem organizações voluntárias não públicas, com o objetivo de atingir o bem estar social. A este fenômeno salomon denomina “explosão associacional global”, e apresenta os aparentes motivos para que isso esteja acontecendo:

‘Reflete uma confluência inusitada de desenvolvimentos históricos ocorridos, pelo menos nas duas últimas décadas: a generalizada perda de confiança na capacidade do Estado, por si só, gerar o bem-estar social, fomentar o progresso econômico, resguardar o meio ambiente, numa palavra, melhorar a qualidade de vida. Junte-se a isso a extraordinária revolução no setor das comunicações, que abriu novas oportunidades para a auto-organização civil, e ainda o crescimento simultâneo em todo o mundo, inclusive nesta região, do número de cidadãos de classe media dotados de habilidades e motivados para aproveitar essas oportunidades com vistas a criar novos veículos de aça social.’

Salamom atribui a esse repentino fomento do Terceiro Setor a mesma importinaica histórica que foi dada ao advento do Estado-nação no final do século XIX.”

O que antes era realizado primordialmente por voluntários amadores está caminhando em direção a profissionalização do setor, seja contratando profissionais do mercado em que atuam para otimizar os recursos existentes e aumentar sua participação nas suas respectivas áreas de atuação, seja apoiando-se no trabalho voluntário, mas agora cobrado como profissional.

Comparando o Brasil com o resto do mundo verifica-se que os números ainda são pequenos. No mesmo período analisado pela universidade americana existiam no mundo 19 milhões de profissionais atuando em organizações sem fins lucrativos. Enquanto os EUA concentram 45% do total desses trabalhadores, seguidos pela Europa Ocidental com 29%, Japão com 11%, xxx

Analisando a evolução do Terceiro setor no Brasil confere-se que seu crescimento se deve principalmente ao fato de as organizações sen fins lucrativos se encontrarem em um encruzilhada. Há bilhões de dólares em todo o mundo prontos para serem investidos em ONGs, mas não em qualquer ONG. O acesso a esses financiamentos depende, cada vez mais, de competência e resultados.

Um exemplo desse crescimento pode ser visto nos EUA que em 2007 a filantropia envolveu a soma de $306.39 bilhões de dólares, de acordo com a GivingUSA Foundation, o que representou um crescimento de 3.9% em relação ao ano anterior. A maior parte (3/4) desse montante vieram de doações de pessoas físicas e o restante de fundações e corporações. Deve-se manter em mente as diferenças do mercado americano e brasileiro, mas nota-se um mercado em expansão.

Conclusão

A conclusão pode ser definida como um resumo da argumentação utilizada no trabalho. Espera-se encontrar uma voz explicativa e avaliativa que traga à tona: a resposta para o problema proposto e para cada um dos objetivos; a avaliação da hipótese e das justificativas iniciais do trabalho. Deverá sintetizar e avaliar a importância dos dados obtidos ou dos estudos feitos e a consequência deles para a ciência ou para os estudos acadêmicos, fazendo uma apreciação crítica.

Jeremy Riflikin, economista, prevê uma drástica redução mundial do nível dos empregos nos setores públicos e privados devido, principalmente, ao avanço tecnológico, e é justamente no Terceiro Setor que boa parte desses profissionais encontrarão recolocação. Reflikin em seu livro, menciona: “A ressurreição e a transformação do Terceiro Setor, em um poderoso plano independente, capaz de absorver a enchente de trabalhadores deslocados, demitidos pelo setor do mercado, é a forma de resistirmos à tempestade tecnológica que se aproxima no horizonte.”

As instituições filantrópicas crescem mais rápido que os dois outros setores, apesar de ainda se encontrarem em um condição neo-colonial pedindo e mendigando concessões ao governo. Por outro lado, os governos encolhem, cada vez mais ou assumem um papel assistencialista na sua veia social impossível de ser mantido a longo prazo, restando as fundações o papel de cuidar da sociedade civil.

Com o aumento contínuo das diferenças sociais, dos efeitos negativos da globalização e das crises financeiras, a cobertura dos serviços prestados pelo Terceiro setor terá que aumentar, uma vez que o Estado não exerce amplamente essas funções. A começar pelos serviços básicos — educação e saúde.

CAPÍTULO 3: CONCLUSÃO

Alguns estudiosos entendem que o mundo vive em ciclos, sejam eles naturais — como os esfriamento e aquecimento da Terra — ou como sociedade — cede ascensão e queda de ditaduras, sistemas de governo com maior ou menos presença do Estado regendo a vida da sociedade. em algum momento o mundo se auto regula chegando a um equilíbrio, a mão invisível que regula o mercado segundo Adam Smith.

O mundo moderno acreditou no progresso contínuo oferecido pelas novas descobertas e industrialização. Para atender esse mundo em expansão desenvolveu as escolas públicas com objetivo de preparar a mão de obra disponível. No início a educação era reservada a uma elite que podia arcar com o alto investimento e restrito a meninos. Com o aumento progressivo da demanda por mais mão de obra e duas grandes guerras a educação passou para as mãos do Estado e com o tempo aceitou as meninas em seus bancos escolares. A presença do Estado dividiu o mundo em dois — capitalista e comunista e a educação se adaptou a esses dois sistemas distintos, mas tanto em um quanto em outro teve forte presença do Estado.

O mundo pós-moderno chegou com a falência do sistema comunista e imposição do capitalismo como sistema viável para o desenvolvimento sócio-econômico. Com o avanço do capitalismo, suas ideias de consumo, oferta e demanda também invadiram as relações pessoais e profissionais. Segundo Bauman hoje o homem é produto e consumidor levando-o a uma busca incessante pela satisfação em um mundo líquido em constante mutação. O resultado desse homem líquido é um homem voltado para si, para suas necessidades e desejos tornando-o cego em relação ao outro.

A sociedade é transformada e ao mesmo tempo transforma seus cidadãos em consumidores. Dessa forma alicerça sua economia em um ciclo vicioso de produção de larga escala, que por sua vez é alimentada e fomenta um grande vazio existencial e de constante insatisfação, estimulando o indivíduo insatisfeito a voltar sempre ao mercado em busca de soluções que mais adiante via se mostrar inócuas — “the metidos satisfying every need/desire/want in such a fashion that it cannot but give birth to new needs/desire/wants. What starts as a need must end up as a compulsão or an addiction.

Em contrapartida a esse movimento da vida líquida, esvaziada e individualista analisada por Bauman, um outro movimento se faz presente — a volta ao tribalismo, do coletivismo. Segundo Maffesoli “não se trata mais, no âmbito de uma economia de salvação, de alcançar uma salvação individual …, mas, ao contrário, de partilhar, com os outros, os bens da terra.” Ainda segundo Maffesoli o “fim de um ciclo, com efeito, em que a solidariedade mecânica, um pouco racional e abstrata (solidariedade do contrato social e do Estado-providência), dá lugar a uma solidariedade orgânica, vinda de baixo e reinvestindo formas ‘arcaicas’ (primeiras, fundamentais), tribais, e repousando sobre o sentimento de pertencimento e as emoções vividas em comum… A pós-modernidade se (re)constrói sobre outras fundações. Na matéria sobre um original comunitário (tribal). Original fundando o original de hoje… Cada um, pessoa plural em sua tribo de escolha, vai ser o que é a partir das ligações que o constituem. Ligações de afetos, odores, gostos, sentimentos, sensações, tudo fazendo que cresçamos com.

Importante notar aqui o papel de relevância da sociedade civil como base e estrutura dessa construção coletiva. A sociedade civil, segundo Maffesoli retoma para si a responsabilidade de cuidar de si, apoiando uns nos outros, como as tribos ancestrais quando sistemas de governos centralizados ainda não existiam — “A substituição da verticalidade pela horizontalidade é o denominador comum de todos os fenômenos sociais contemporâneos. O providencialismo ocorre quando esperamos de uma instancia proeminente a resolução de nossos problemas, sejam eles individuais ou coletivos. Isso é verticalidade. É a . qualquer que seja a figura desse ‘pai’. O fato de pôr a ênfase no quotidiano remete a me encarregar desses problemas no seio da tribo, na qual me reconheço, ou me comprazo… O coração que bate da cotidianidade é o copertecimento. Quero dizer com isso o que, desde a origem, estabelece o homem em relação.

O Terceiro Setor representa a saída para o homem líquido de Bauman ao dar-lhe um pertencimento ao mesmo tempo que o tira o espiral consumista voltado para si mesmo; e vai de encontro ao ‘humanismo integral’ de Maffesoli — “a integralidade enfatiza, também, que o húmus faz parte integrante da humanidade, assim como os humores.Trata-se de uma revolução copernicana, de sobressaltos múltiplos e espantosos. Ela reata com instituições pré-modernas, isto é, com uma concepção holística em que a ‘correspondência’ tem sua parte e que desalojou o homem do centro do universo. Ela o mostra submisso a um tipo de dependência reciproca: a do mundo vivo e do meio terrestre e cósmico. ele está ligado ao todo natural e ao todo tribal. É o ‘mit-Welt’ (com o mundo) da fenomenologia alemã; é a ‘copresença’ que A. Gidens analisou. Troca, vínculo que, para aquém e além do individualismo, enfatiza um original primário de relação.

A terceira via na educação através de instituições sem fins lucrativos, preferencialmente financiadas pela iniciativa privada para poderem ser independentes de governos, é a materializado do que Maffesoli fala — a integração da sociedade como uma tribo, onde todos estando interligados, buscando uma melhoria em conjunto e para todos. — “O que prevalece é a pulsão comunitária que induz a fazer, a ser, a pensar como o outro, e sobretudo, em função do outro.” Essas escolas conseguem unir duas classes sociais que estão nas extremos opostos e até então não se misturavam.

Anna Gabriela Malta

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Criatividade + Educação + Engajamento … transformando sonhos em realidade … a partir das pequenas ações do dia a dia ;-)

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