Nós, mulheres, não temos o direito de envelhecer em paz

Não é fácil envelhecer.

A idade pega pra todo mundo, uma hora ou outra, de um jeito ou de outro. Mas é bem diferente quando comparamos o que acontece com os homens e com as mulheres.

Se pros caras, cabelo grisalho é sinônimo de maturidade e a cobrança social vem ligada a poder e dinheiro, pras mulheres, o buraco é mais embaixo.

Além de conquistas profissionais, existe um peso enorme sobre relações afetivas e maternidade, e uma cobrança gigantesca conectada ao corpo e à aparência física. Cabelo grisalho é desleixo. Pele flácida é horrível e tem que ser escondida.

Não é só cobrança interna. Vivemos numa sociedade que não deixa as mulheres envelhecerem em paz.

Uma visão moderna e patriarcal do envelhecimento

A psicanalista Maria Lúcia Homem disse no último domingo, em um debate sobre envelhecimento na Casa TPM, que esse ano girou em torno do tema "O que é ser mulher em 2016?" (foto acima):

Velho virou palavrão quando Deus morreu, na virada moderna. Ou seja, quando a ideia de transcendência deu espaço à racionalidade: "penso, logo existo". A partir daí, a única verdade era o aqui e o agora, não tinha mais a ideia de vida eterna. Passamos então a querer muito essa vida. Com o tempo, fomos desvalorizando a figura dos anciãos e valorando uma juventude a qualquer custo.

Essa é a visão moderna da idade, que é nociva pra todos.

Mas existe também a visão patriarcal de envelhecimento, que é bem mais injusta conosco, mulheres.

Ela nos ensina que só somos boas enquanto somos férteis e bonitas (dentro de uma cultura dominante que considera belo aquilo que é jovem e dentro de determinados padrões). Então, nessa perspectiva patriarcal e cientificista, a idade é quase um fim, um suicídio social — já que com ela perdemos a capacidade hormonal de gerar e ganhamos rugas, cabelos brancos e flacidez.

A ativista feminista Gloria Steinem fala sobre isso no documentário Miss Representation (sobre a representação das mulheres na grande mídia):

O sistema patriarcal, o sistema dominado por homens, valoriza as mulheres por serem reprodutoras e ponto. Então, o valor delas está limitado ao tempo em que elas são sexualmente ativas, férteis. Elas perdem muito valor (social) depois disso. É como se chegassem aos 39 e depois precisassem desaparecer.

Não à toa fazemos 30 e começamos a ouvir, de todos os lados, que estamos com o tempo contado.

Não temos o direito de envelhecer

Ninguém chama o cabelo grisalho do George Clooney de desleixo. Nem julga as marcas de expressão do Harrison Ford. Muitas vezes, esses sinais da idade, pra eles, é algo positivo, sinônimo de maturidade e conquistas.

O escritor Alex Castro falou sobre essa diferença do envelhecimento numa perspectiva de gênero, dia desses:

Outro dia, uma amiga me perguntou, a sério:
- Ai, Alex, qual é o segredo de beleza dos homens, pra eles envelhecerem tão bem, tão maduros e enxutos, enquanto as mulheres vão ficando umas dragas?
E fui obrigado a contar a ela o nosso grande segredo:
- Simples. Basta nascer em uma cultura machista, que vê o homem mais velho como progressivamente mais maduro e com mais valor, e a mulher mais velha como progressivamente mais inútil e com menos valor, e assim os mesmíssimos sinais de velhice no rosto de ambos serão interpretados e lidos de forma positiva no caso dos homens e negativa no caso das mulheres. Portanto, o jeito de resolver o problema não é com hidratantes, mas com educação. Ou com uma revolução. O que vier primeiro.

O contrário acontece com as mulheres. Cada marca da idade é interpretada como uma perda. Existe um radar social que nos julga, o tempo todo: cada quilo a mais, cada fio branco, cada botox e cada facelift feito numa tentativa desesperada — e genuína — de manter a juventude a todo custo. Só ver o último relato público da atriz Jennifer Aniston, sobre o assédio que sofre com relação à idade e aparência ("Não estou grávida, só estou de saco cheio"):

Fico revoltada quando tentam me fazer sentir que estou “valendo menos” porque meu corpo está mudando e/ou porque comi um hambúrguer no almoço e fui fotografada de um ângulo ruim e por isso alguém achou que eu estou grávida ou estou gorda.

Maria Lucia Homem também falou sobre o assunto na Casa TPM, num contexto sociológico de disputa de poder entre homens e mulheres:

O homem tem o poder a a potência de ter paternidade sempre. E ele pode envelhecer publicamente. As mulheres alteram a publicidade da idade: pintamos o cabelo, fazemos cirurgias, e por aí em diante. Não temos o direito de envelhecer.

A conta é simples e cruel: se somos ensinadas, desde pequenas, que ser bonita é uma das nossas missões no mundo (junto com a maternidade), e se a beleza está conectada à ideia do que é jovem, o que tem viço, o que está dentro de padrões estéticos definidos culturalmente, então, é quase como se tivéssemos que mantê-las a qualquer custo: beleza e juventude. A la Dorian Grey.

Só que isso não é possível. E mais: é fonte de sofrimento.

Uma visão mais gentil e humana do envelhecimento

A saída dessa arapuca não é tão simples, mas é possível, e está acontecendo.

Ela passa por nós, mulheres, termos consciência dessa visão patriarcal dura do envelhecimento. E por questionarmos ela, individual e publicamente, como fez a Jennifer Aniston e como fazem, todos os dias, várias outras mulheres.

Passa por tentarmos ressignificar o que é belo. Treinar os olhos pra encontrar outros referências de beleza: a diversidade de corpos, a pele enrugada, os cabelos grisalhos.

Precisamos encontrar modelos de mulheres mais velhas pra nos espelharmos. Só assim vamos conseguir ver além da visão cientificista de idade, que nos resume a um pacote de hormônios e mudanças biológicas. Somos seres muito mais complexos e interessantes que isso.

Talvez, quando fizermos todas essas coisas, as mulheres vão poder envelhecer em paz.

Texto de cobertura da mesa sobre Envelhecimento na Casa TPM 2016, com participação de Maria Lúcia Homem, Tati Bernardes e Isabel Salgado.