Parem de ter medo da palavra feminismo

Sobre a importância de dar nome e sobrenome pras coisas

Escrevo sobre gênero por aí.

Sempre procuro me associar a veículos que façam sentido pra mim. E, de vez em quando, toco um ou outro projeto legal conectado à marcas. No último que fiz, depois de entregar um artigo lindo e maravilhoso sobre a influência da cultura patriarcal no modo como a gente seduz e começa os relacionamentos afetivos, recebi uma diretriz clara: não usar, no texto, palavras como feminismo, machismo e patriarcado.

Fiquei confusa. Por que?

A resposta foi direta: elas geram repulsa e confusão.

Fiquei matutando um tempo sobre a importância de usarmos as palavras certas pra falar sobre as coisas que importam.

Dar nome é criar contorno.

Quando estamos falando de questões sociais, de opressões sistêmicas, nomear faz parte de um processo muito maior, de identificação, reconhecimento.

Do ponto de vista de algumas questões de gênero, classificar com a língua é pedaço de um ciclo importante: a gente vivencia, vê que existe, que está lá, se conecta com outras experiências além das nossas e percebe que é algo compartilhado por outras mulheres.

Nessa jornada, dar nome aos bois é quase que um modo de tirar da experiência individual e coletivizar. Dar profundidade e sentido.

Um exemplo recente são os nomes criados pra atitudes machistas conectadas à fala e ao discurso: bropriating, manterrupting, mansplaining e gaslighting, entre outros. Se apropriar de falas e ideias de uma mulher, interromper, explicar o que ela quis dizer e manipular psicológicamente — nada disso é novo. Meu pai exercitava o combo todo com minha mãe nos almoços de família:

- pera, vou explicar o que sua mãe quis dizer, na verdade, ela queria falar que...
- isso é coisa da sua cabeça, você é louca.

Era incômodo. Ela se sentia diminuída e desrespeitada, mas não sabia bem o porque. Afinal, meu pai só estava tentando ajudar, né?

Quando a gente gera nomeclatura significa que a gente consegue contextualizar, entender de onde vem a opressão e sacar que ela não é exclusiva nossa. O código ajuda a deixar aquele ato, aquela coisa, aquela sensação, em contexto macro pra todo o sempre. Dá o caminho das pedras pra outras pessoas.

A partir da categorização pela língua nós, mulheres, passamos a identificar padrões de comportamento. De um incômodo sem nome, que fazia doer a barriga, minha mãe entendeu que o que ela sofria era algo definido. Algo importante.

Aparato de linguagem dá poder. Esclarece, cria contorno e possibilita limites. Pra nós, mulheres, nos traz pra um estado de consciência coletiva, nos une, nos conecta.

E mais: nos ajuda a partir pra ação.

Algumas palavras incomodam

As palavras são uma chave de transformação enorme.

Incluir algo no nosso pacote léxico é transformar em cultura. Botar no nosso dicionário diário palavras e definições como feminismo, machismo e racismo é crucial pra chacoalhar a sociedade em que a gente vive.

As expressões vão causar todo o tipo de desconforto, confusão e rejeição. Claro. Elas evidenciam coisas difíceis e incômodas, mesmo. O processo natural da mudança passa por aí, pela cutucada, pelo tensionamento.

Tirar as palavras (e o discurso) de cena não ajuda em nada. Ao contrário: tudo tem que ser dito de novo e de novo, explicado dos mais variados jeitos. Os nomes têm que virar corriqueiros.

Perpetuamos cultura sem ver. Ela tá na língua, nos hábitos, no humor, na comida — ela é o chão que a gente pisa. Se não evidenciarmos as nossas práticas sociais (como o machismo), dando nome, sobrenome, pesos e medidas, incorporando nas falas, na vida — como é que a mudança prática vai se dar?

Deixar no campo do invisível é o melhor jeito de reproduzir silenciosamente.

E não é isso que eu quero. Não é pra isso que escrevo.

Então, vou seguir usando as palavras do melhor jeito que eu puder. Como arma, como lanças afiadas. E se incomodar, maravilha. É exatamente esse o ponto de virada.

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