CAMPO OFICIAL
Eu o entendo cada dia melhor. Gosto mais de quem ele é. Entendo porque o amo tanto. As vezes sabemos que gostamos de uma pessoa, mas não entendemos diretamente porquê. São as coisas que ficam nas entrelinhas, nas reações espontâneas, que só o tempo e a convivência intensa nos mostram o motivo.
Sempre me perguntei porque chef de cozinha? Por que essa profissão especificamente? Se ele gosta tanto de futebol e essa é sua verdadeira paixão por que não ficar por perto, mesmo não sendo jogador, porque não ser técnico, porque não estudar educação física, fisioterapia, medicina, porque não ser pesquisador por exemplo? Agora eu vejo melhor.
Ele não me parecia o tipo viciado em comida, que fica encantado com cada ingrediente, com cada cor, cada textura, sempre sua reação foi analítica e racional. Até suas preferencias, não são os mais refinados, comer no Burguer King por exemplo é ok, sem dramas que a comida é industrializada, de péssima qualidade e de gosto artificial, ele gosta mesmo é do momento, de poder ser a criança que ele nunca pode ser. Pode-se entender seu paladar quase infantil, pela sua relação com a comida como sendo algo muito nostálgico. Tudo aquilo que ele gosta de comer é o que a sua avó lhe dava, ela que era sua pessoa favorita no mundo. Vejo seus olhos brilharem por uma coxinha fria e engordurada exposta em uma vitrine de bar, e seu prazer em dizer que o salgado não chega aos pés dos da sua vozinha. Até o dia em que ela faleceu ele me disse: e agora quem vai me dar bis e passatempo quando eu chegar? Eu sei que ela guardou as coxinhas para mim, elas ainda estão no freezer, eu sei. Nesse dia meu coração parou, meus olhos derreteram. Eu sei que eu nunca poderei ser aquela pessoa para ele, mas juro que quando vou ao supermercado é com a intenção de ser. Pois então se seu paladar tem mais a ver com amor do que com paixão por que decidir cozinhar como profissão? Porque convenhamos para quem era jogador de futebol, ser chef de cozinha não me parece uma escolha óbvia.
Porém como já disse antes cada dia o amo mais e entendo a razão. No começo ele me enganou parecendo ter uma personalidade tranquila e suave demais, o que na verdade não me agradada muito pois gosto de pessoas com personalidades fortes. Entretanto de alguma maneira, por mais que ele não me parecesse assim, eu gostava a cada dia mais dele. A verdade é que ele não é nem suave e nem tranquilo e só que vive com ele a quantidade de tempo necessário nota isso. Ele é forte, rígido e estranhamente meticuloso para uma pessoa que aparenta ser tão despreocupada. Aliás acho que é isso que eu gosto nele, parecer ser uma coisa que ele é o inverso. Só a convivência do dia-a-dia me mostrou isso, eu vejo nele uma coisa que eu vejo em mim, o amor pela perfeição, não digo isso de maneira arrogante como se diz em entrevistas de trabalho quando te perguntam seu defeito, digo isso como uma qualidade nem negativa nem positiva apenas uma qualidade. O amor por ter tudo organizado, limpo, bem colocado, feito da maneira certa, não importando o tempo necessário para isso. Sinto um tipo de uma felicidade imensurável quando eu mexo alguma coisa dois milímetros e ele apoia minha atitude aprovando a melhora, o que para outra pessoa poderia ser um sinal claro de neurose. Você vê? O que sempre achei que fosse algo bizarro em mim que apenas meus companheiros arquitetos entenderiam para ele é algo natural.
Então ta, já deu pra ver que ele é perfeccionista o que tem tudo a ver com o cozinha, mas e o resto? Ele não era jogador de futebol? Pois é ele era. ERA. Não sei se dá para saber, mas eu sou apaixonada por comida, paixão que eu descobri a apenas alguns anos e quanto mais eu pesquiso sobre esse mundo entendo a relação entre futebol e Haute Cuisine. Os dois se utilizam do corpo humano como instrumento, ou seja, o corpo e a mente tem que estar preparados, treinados, afiados e funcionarem quase como uma máquina para conseguir ter uma percepção tática quase instintiva. Os dois só são possíveis se existem trabalho em equipe, que trabalha da forma mais integrada e organizada o possível, existe nos dois um sentido de honra, respeito e hierarquia que talvez (e com certeza inspirado) só o exército tenha, tudo o que é feito, é feito em conjunto com um objetivo comum, respondendo a um capitão, um líder, um chefe. Os dois só são concretizados sobre alta pressão, gritaria e xigamentos, isto é, adrenalina é necessária, você tem que estar em sua capacidade máxima de atenção e concentração para o jogo rolar.
Foi então que eu entendi algo que talvez nem ele entenda, porque ele se afastou do gramado tão próspero para colher frutos ainda verdes. Porque a cozinha? Porque para ele ser ele mesmo, ele precisa ser O MELHOR, então para isso ele teria que começar de novo, do zero em um lugar que ele não fosse ninguém, apenas um menino. E assim ele o fez, treinou seu corpo e sua mente de novo, dessa vez mais anavalhados. Em um espaço que ele poderia usar de todas asa suas melhores qualidades: ser líder, ser incisivo, ser estratégico e ser o melhor. A combinação de passos e dribles se transformou em combinações de sabores e técnicas de cocção. E assim ele conseguiu de novo, teve de novo uma carreira que evoluiu de maneira extraordinária para um cara de apenas 25 anos. Quando falo dele as pessoas me perguntam, mas quantos anos ele tem? 80? E aí está o encanto, não, ele tem apenas 25, mas o que ele quer ele consegue. Então não se engane pela sua carinha de bebe, porque como eu já disse ele só tem a carinha, dentro dele mora um tubarão, é feroz, mas só se alguém ameaça o seu caminho.