Destino

Uma curta história sobre ir a Valência e encontrar a mim mesma. No caminho.


Ilustração: Tom Haugomat para a Air France Magazine (Pinterest)

Ao longo de uma trajetória de 20 anos, alcancei meu maior patamar de autonomia na autoestrada responsável por ligar as cidades de Granada e Valência. Viajei por ela em meu ônibus. Um ônibus compartilhado com mais 40 passageiros, mas que tinha meu assento, seguia meus horários de ida e volta, e que me fazia sentir como a dona do mundo. Os murmúrios castelhanos que me rondavam apagavam meus instintos comunicativos e aumentavam minha sensação de liberdade.

Mas minha narrativa de viagem seguiu seu curso natural ao caos. A escuridão que entrava pela (minha) janela lentamente tomou conta dos (meus) pensamentos. O (meu) ônibus, nas primeiras horas sinônimo de antro de liberdade, se transformou em (minha) prisão em meio ao vasto interior espanhol. A anterior felicidade causada pela não comunicação deu as caras como ansiedade, e abriu espaço para a solidão. De dona do mundo, caí para a posição de (não) dona de mim. Passei da comemoração pelas minhas escolhas, para os questionamentos sobre onde eu estava, com quem eu estava, quem eu era.

Quanto mais os quilômetros que me afastavam de Valência aumentavam, mais eu sentia como se não me aproximasse de nada. As estradas ibéricas me levaram aos caminhos da (minha) mente que tinham como destino A Consciência. Com letra maiúscula por não ser qualquer consciência, porém A Consciência, ponto de encontro dos poetas e dos suicidas. Local onde não se compreende como é possível caber tanta gente, já que possui como única característica a insignificância.

A parada no posto de conveniência materializou meus demônios. A intensidade dos meus pensamentos enjoava o meu corpo que também tinha outra consciência, uma menor, mas que insistia em dizer que eu deveria ingerir alguma coisa que me sustentasse pelas quatro horas restantes. Mas o espaço que a insignificância ocupava em meu organismo era imenso. Sentia como se não coubesse nem um grão ou um amor próprio inteiro.

A 10 mil quilômetros do meu ciclo social e da minha rotina — compilados em minha zona de conforto — poderia ser esquecida pelo motorista do (antes meu) ônibus no vácuo espanhol. E isso não faria diferença. Só mais uma em meio a milhares. Intrigante como em São Paulo, o excesso de comunicação, a escassez de tempo, as futilidades e utilidades da vida nunca me lembraram sobre a insignificância. Mas o que poderia ser mais importante do que a minha própria insignificância?

Com dificuldade, consegui comer e voltar para o ônibus sem me deixar ser esquecida. E sem deixar a consciência de que vivia só para mim parar de me incomodar. Fechei os olhos para enxergar uma escuridão menor do que a que me engolia lá fora. Pelo menos minha insignificância dormente não me agredia.