você acredita em destino?
um texto feito em uma sentada premeditada

ela sempre teve curiosidade sobre o incontrolável. quando tinha 5, 6, 7, 8 anos, gostava de sentar na cama da casa da avó. apreciava o sentimento quente da luz amarela que gastava mais energia do que era classificado como necessário. da lâmpada que morria antes do esperado.
gostava de sentar na cama da avó, mas não porque lhe era algo familiar. talvez o braço, sempre próximo, facilitasse a viagem. pois, ainda que pequena, sabia que corria o perigo de uma queda, ainda que pequena.
gostava de sentar na cama familiar e de luz amarelada da avó. ansiava pela gaveta do criado mudo de madeira escura demais para o móvel da TV – era raque, que se chamava? –, e pelos cadernos meio-escritos ali guardados.
(deviam ter percebido, desde então, que se encantava muito facilmente pelas pequenas coisas para seguir caminhos tradicionais. se tivessem, teriam poupado decepções)
mas, como dizia, gostava de sentar na cama da avó com 5, 6, 7, 8 anos, debaixo da lâmpada quente e amarela, para ter o sentimento familiar despertado pela abertura da gaveta do móvel de madeira escura demais para o ambiente. dentro, encontrava cadernos com páginas meio-escritas, que ela gostava de chamar de refúgio. de refúgio de liberdade.
(bom, na época não tinham esse significado. mas, hoje, sentada sob a luz amarelada e desnecessariamente energética do próprio lustre preto fosco, é assim que ela os chama.)
com 5, 6, 7, 8 anos, eram apenas desenhos. talvez, não “apenas.” desenhos que desafiavam o controlável. o auto-controlável.
[hoje, não se sabe se, na cama da avó, já havia ouvido falar em destino. (você acredita em destino?) mas já sabia que queria por essa palavra à prova.]
pegava os cadernos meio-escritos, se agarrava no braço invisível da casa da avó e, seguramente livre, fechava os olhos. com canetas coloridas, que também contrastavam com a madeira escura demais da gaveta onde estavam guardadas, normalmente, com três por vez, desenhava pelas páginas. já meio-escritas.
o método visava descobrir o caminho do próprio destino. onde ele a levaria? brigava com os pensamentos premeditados enquanto rabiscava com três canetas por vez, de olhos fechados, pelas páginas do meio-caderno escrito.
com um sentimento de frustração e reconforto, antes do final, já sabia o resultado que poderia ser encontrado no emaranhado de linhas. desenjoadas para disfarçar a ordem.
adorava, de seu lugar familiarmente desconhecido, ter a sensação de que era retirada do caos por uma força exterior – ainda que estivesse consciente de cada linha que escrevia.
brincava para encontrar o que estava além das quatro paredes daquele quarto-cidade que a oferecia uma quantidade limitada de fantasias, restrita ao tamanho de uma gaveta, que era mais escura do que o permitido. do que o esperado.
se vestia de inconsciente para encontrar a vida que lhe havia sido traçada, apesar de olhar para o papel e reconhecer cada traço desenhado… como o próprio.
