sobre a bronquiolite celular crônica
essameninastaopequeninaquerserbailarina
naoconhecenemfáenemrémassabeficarnapontadopé
lia poemas da cecilia meirelles quando não consegu
ia dormir e espantava meus demônios infantis cont
ando a tabuada do oito nove e depois sete três veze
s. sempre dormi no mesmo quarto que minha irmã
e ela gostava de quando eu cantava o poema seu n
ome maria lucia tem qualquer coisa que agrada ou
algo assim. tinham os pirilampos do jardim e as fer
idas no joelho. uma época eu caia sempre que eu m
e propunha a correr. tinha amigas mais velhas e at
é hoje não sei ler se isso foi ótimo ou ruim. toda te
rça feira a minha psicóloga me olha e inicia a conv
ersa de maneira estapafúrdia e eu sinto que vomit
o nela mesmo sem querer. imagina a tadinha cobe
rta de muco, gases, líquidos, catarros, sei lá. eu já
fiz um total de oito broncoscopias e usava esse fat
o pra me gabar na segunda série. me achava incrí
vel por já conhecer o interior do meu corpo, mes
mo que desacordada. tinha amigos médicos e en
fermeiras e a amanda, a mais nova delas que tin
ha uma filha da minha idade, saía do turno mai
s cedo pra assistirmos dirty dancing na sessão d
a tarde. na fisioterapia a médica batia nas minh
as costas enquanto eu assistia as três espiãs dem
ais. eu era a clover. tossia todas as noites e minh
a mãe chorava. acordávamos as três da manhã,
ela com uma toalha e eu cuspindo. me sentia fe
liz porque parecia um momento só nosso. acho
que era. sempre quis fazer balé, mas meus fôle
go não era suficiente nem pra subir as escadas.
eu fingia ser mais do que era, porque achei qu
e isso poderia convencer os médicos, mas min
ha mãe continuava chorando. nunca entendi
o porquê. quis tocar teclado, pintar quadros,
dançar na chuva, viajar pra serra da cantarei
ra, tomar sorvete e andar descalça. eram ess
es os ideais de felicidade que eram recebido
s com tons amarelados de sorrisos. eu tinha
uma tartaruga de pelúcia chamada ashley,
a amanda tinha uma joaninha chamada nin
a e ela me ligava todas as noites pra me cont
ar sobre a escola. uma dessas ligações nunc
a terminou porque fui parar na UTI. não lem
bro de muita coisa porque a enfermeira, que
tinha o cabelo vermelho pegando fogo, me t
razia uma comadre e limpava minhas parte
s íntimas na cama enquanto eu ficava deita
da e sentia a toalha áspera me invadindo. d
oeu, mas eu fingia que não. ganhei uma bar
bie califórnia. ela era negra, tinha cabelos n
egros e biquini laranja. cheirava a coco. nun
ca mais consegui comi coco. me lembrava a
maldita barbie, os malditos cabelos vermelh
os e a maldita toalha áspera. como pode um
algodão ficar tão seco? sempre quis ser bail
arina e me enrolar em fios. faria uma peça
sobre tudo isso e falaria de todo mundo su
tilmente. minha mãe assistiria tudo com m
edo e eu me enrolaria em toalhas às três d
a manhã. era o nosso momento. quando eu
recebia alta, me davam violetas que eu bot
ava em cima da tevê do quarto. elas nunca
duraram mais de quatro semanas em casa.
eu também não.
