sobre o dia em que me convenci que se espirrasse alto demais os vizinhos acordariam
encostar a boca no gelo até o bico dos seios ficarem dormentes se encantar com a propriedade das galáxias cheirar o instante cru em que os cozinheiros preparam rabanete ao molho tártaro se colocar na presença de um príncipe ou deus e beijar seus calcanhares esconder motivos amarelos sorrir com os dentes de fio dental comentar categoricamente sobre o assalto na rua central do seu bairro comer pelos calcanhares deixar o paladar enxuto piscar com os olhos coçar os joelhos esconder conchas sob o lábio enfiar uma garrafa térmica embaixo do braço e tentar conquistar o mundo andar por sobre os terrenos baldios com redes elétricas e quase infartar ao reconhecer o próprio reflexo grudar post its rosas pela casa geminada pular do parapeito da janela e tentar entender o sufoco da gravidade ao nos colocar pra dentro de si entender a profundidade das placas tectônicas apesar de morrer de medo de cruzar fronteiras conseguir conversar em outro idioma inventar uma ou duas palavras adormecer nas mãos de um anjo branco conseguir calçar sapatos roxos e pisar na cavidade da vida de maneira muito singular nunca encontrar nada para lhe satisfazer e gerar aborrecimento em quem assiste sua vida por parecer nunca premeditar os encontros entortar o óculos para perto afrontar as lentes para longe nunca entender o porquê de certas companhias esquisitas e tentar reciclar o máximo de plástico para que o universo não lhe jogue entre os sucos inorgânicos que você temia ao assistir desenhos animados demais quando tinha sete anos na casa dos seus avós
tentar insistentemente inventar um novo significado pras vogais de tom anasalado e explicar pra si mesmo que seus pais não entenderiam nada disso pois vieram de uma outra época tentar tocar no cano de armas mas sentir um pudor esquisito que percorre as suas veias sem saber direito de onde achar que deveria gostar de apanhar ou de bater mas ficar no crivo do caminho entre sentir demais ou conseguir pouco daquilo que te oferecem
sempre achar um refúgio entre bancos de metrô não tentar nada demais além do fluxo das escadas rolante enxergar os panfletos acima das cabeças com bonés no centro da cidade e se contentar em receber um bom dia da moça que vende brigadeiros na praça onde fumam crack
se sentir só mas tão somente só que a vida se torna qualquer reflexo risível tirar sapatos já não cansam eu nem sei onde botar as mãos estralar a pélvis tentar uma yoga ou o cumprimento ao sol se convencer de qualquer bobagem enfiar uma faca no peito sangrar no chão molhar o tapete de fios de nylon cheio de traças com uma lupa enxergar os ácaros e fungos cheio de traças ser comido pelas traças virar comida de ácaros e fungos se manchar no tapete da sala até virar mármore e mogno até virar só e tão somente só que nada mais lhe mancha ou machuca sentir pouco ou até menos tão somente só e nada
