sobre os dedos longos

todo dia um eu calço os sapatos menos confortáveis e
ando três quilômetros até o trem mais distante da min
ha casa. papai nunca falou muito comigo. é que ele te
m um mundo só dele e eu pareço nunca entender. mi
nha mãe tem traços indígenas fortes. os olhos, o maxi
lar, a boca, os dentes, os peitos, as costas, a falta de p
elos e a cor. minha irmã parece minha mãe quando d
orme e eu sempre confundo a silhueta das duas. meu 
pai tem todos os traços europeus. o nariz, os olhos, o
s dentes, a boca, os braços, a cor. eu sou algo entre o
s dois e minha avó gosta disso. quando eu nasci, ela 
deu graças a deus por eu ter nascido branquinha. nu
nca tive muito contato com ela e só mais tarde fui en
tender o porquê. meu pai vive numa bolha própria c
om as mesmas rotinas. eu achava que era o sol em vi
rgem ou a mania de manter a vida estática. nunca co
nversamos muito. quando eu tinha cinco ou seis anos
meu pai me dava banho e penteava meus cabelos. eu
me sentia especial quando ele penteava o meu cabel
o igual o dele. um topete todo puxado pra trás. eu m
e sentia especial quando não me sentia tão menina q
uanto minha mãe queria que eu fosse. eu tinha cator
ze quando meu pai me olhou e falou que eu era bagu
nçada e eu fiquei feliz porque ele pareceu entender t
udo. às vezes nós íamos em fliperamas e ficávamos a
tarde toda lá recolhendo fichinhas e trocando por ou
tras coisas que nunca usávamos. voltávamos de carr
o ouvindo toda a discografia do martinho da vila. me
u pai queria ser sambista, mas minha avó não deixava
e dava graças a deus por isso. meu pai tocava atabaqu
e na umbanda, mas minha mãe fez ele parar porque t
inha medo. meu pai fumou por dez anos, mas parou p
orque tinha asma. eu tenho asma também. os olhos do
meu pai são fracos e a boca dele sempre tá aberta. par
ece que ele sempre tá prestes a chorar. todo dia um me
u pai se aproxima um pouco mais da volta completa ao
redor do sol e eu nunca quero estar aqui pra ver. encon
trar meu pai preso na sua bolha de rotinas infindáveis 
me incomoda e eu não sei se é o nariz os olhos o maxil
ar os braços a cor da pele. eu não sei se é deus ou o top
ete. o fliperama, o carro, as novelas, o martinho da vil
a ou as cordas de aço que ele botava no violão até estr
agar meus dedos. conhecer meu pai sempre foi uma t
arefa árdua porque quanto mais eu investigo suas ent
ranhas, mais eu conheço a mim mesma. e papai nunc
a falou muito comigo.