A parede azul

A parede era azul. O quarto pequeno, mas a parede frente a cama era azul. Lena tinha insistido e foi uma de suas únicas exigências após a mudança. Uma parede azul celeste, que juntasse em concreto céu e mar.

Assim Lena disfarçava seu incômodo com o mundo lá fora. Enfeitava o quarto porque não podia sair por aí enfeitando os canteiros alheios com flores. Para isso tinha sua parede azul… Para se perder e se encontrar.

Sair de casa era uma tarefa quase sempre dolorosa. A garganta parecia fechar e o coração imaginava ter esquecido dentro de uma panela de pressão. Morava com Eduardo, ou melhor Duda, com quem já mantinha um relacionamento há anos. Ela sabia que ele também sentia — embora nunca dissesse. Nunca oralizaram essa questão, no entanto conseguiam senti-la no jeito contrariado que mexiam as mãos ou na maneira que caminhavam, quase sempre olhando para baixo.

A diferença era que Lena chorava quando tinha vontade. Os peito embrulhado de ondas e os olhos cheios de água. Tudo parecia um torrente vociferante de sentimentos e desencontros. O corpo não encontrava a alma e os pés desconheciam o caminho.

— Tadinho do Duda, ele quase nunca chora. Coitados dos homens, quase sempre usurpam deles a capacidade de chorar. Arte que nós mulheres aprendemos desde cedo, cultivam nossa sensibilidade a machadadas. E aqui estamos nós, chorando com o primeiro passo do filho, com o beijo démodé da novelas das oito. E lá estão eles… mantendo a face imóvel e tão disfarçados da sua humanidade. Deus tenha pena do mundo. Porque em mim já não cabe tanta culpa.

Lena volta pra casa. No metrô de olhos fechados, mentalizava a parede azul.