Amar, mergulhar, nadar

by Natalia Drepina

O que há neste mundo terrível para amar? O que resta das cinzas desse mundo que possa reviver? Amo poucas coisas, e até amar as pessoas é uma tarefa difícil. Exige dedicação, treino, fôlego e, óbvio, amor e disponibilidade de amar. Para mim, sobraram poucas coisas, aquelas de fato materiais e encaixotadas para amar. Gosto de adornos, adereços, sapatos, fantasias, sou humana — gosto, é isso. Traz algum gosto bom. Mas, passa e voa. E sobra uma vontade da alma que não cessa. Uma vontade de alma que só se satisfaz quando o mergulho é interno e profundo. O mergulho interno, abissal, enrijecedor, sufocante do qual retorna-se sem ar, mas mais crente da imensidão da vida. Para mim, sobrou amar os livros, a literatura, as fotografias, não aquelas pousadas, bonitas e com boa composição de fotógrafo profissional, mas aquelas nas quais é perceptível a falha — o cabelo assanhado, a roupa que não está apropriada, a mão que não foi firme o bastante e deixou a foto meio tremida, sem muita nitidez, foco insuficiente — possivelmente porque o fotógrafo também foi tomado pela emoção de “congelar” quem ama em alguns cliques. Porque o fotógrafo não está do lado detrás, impassível, concentrado e bem equipado. Isso é o que o amor faz em algumas pessoas. Tirar o prumo. Não há equipamento, nem tecnologia que explique ou captura a beleza dos gestos imprecisos.

Gosto, portanto, do instante que não se ensaiou. É o que mais gosto, do instante que guardou a expressão jamais premeditada, a expressão que é marca registrada quando se está distraído, de pernas para o ar, tirando uma soneca junto com o gatinho no sofá, que é reduto do domingo. Para mim, restou a insignificância da falta de ensaio. O álbum de família e suas fotografias de mau gosto, anacrônicas, cheias de marcas do tempo, de marcas da época, de festas de aniversário pobres e, por isso, um tantinho mais felizes. Ou, ao menos, mais nosso, um momento mais nosso.

Por isso eu gosto dos livros, das letrinhas que se derramam diante de meus olhos me presenteando com a surpresa de uma vida (fictícia?) que eu não contei. Eu não aguento mais a minha voz sibilando meus ouvidos, então me delicio com a vida alheia. A voz grave do narrador que me aparece para mostrar que nem sempre é preciso mergulhar, é, para minha surpresa geral, permitido nadar. “Nade, nade” — diz. Os braços, pouco habituados ao exercício de não se deixar simplesmente levar, doem. O peso, ah o peso. Nadar, nadar. Mas, jamais morrer na praia. E se morrer é só para dar tempo de nascer revigorado em outra. Com braços intactos e pulmões gananciosos. Nem sempre sobras são restos. O que sobra as formigas carregam felizes assegurando o seu inverno e as intempéries. Indo para e para cá, numa tarefa sem fim.

Ananda Sampaio

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