As vozes deles

Ananda Sampaio
Aug 28, 2017 · 3 min read

As pessoas andam feridas. Andamos entre elas, passamos por elas, somos elas e não percebemos a gravidade de nossas dores. Uma amiga que vem me trazer um livro bonito, porque estou cercada de pessoas que me trazem livros, me diz e chora que viver é uma barra tremenda. Eu acredito, aceno com a cabeça, o peito parece se enlanguescer, mas na verdade foi o coração que ficou pequenininho. Caroço de feijão, pulsando sofregamente, num peito vasto e vazio. Éramos dois desertos se juntando num infinito mar de areia.

Sento-me no banco da universidade com celular à mão, converso com uma amiga e com os ouvidos atentos ouço a conversa de dois jovens desconhecidos. Intrusa na dor alheia. O banco de madeira era comprido e em cada uma das pontas obliteravam mundos. Eu me encontrava com eles. Não olhei para os rostos, o olhar fixo na tela do celular disfarçava minha falsa postura de ouvinte desatenta. A voz da moça carregava tristeza, uma tristeza que de tão triste é conformada. Uma tristeza que não cabe em anúncios, nem em manchetes de jornal. A tristeza que sufoca, que entra por debaixo da porta, pelas frestas da janela, sorrateira. O comedimento da alma, do corpo, da cara e do músculo retrátil localizado no lado esquerdo do peito.

Dizemos sem dizer “que triste é a vida” e dizemos dizendo “mas há de passar”. Naquela tarde de sexta-feira o dia se descambou numa mornidão lenta e bonita. Eu sentada no mesmo banco, que horas atrás tentara consolar, sem muito sucesso, uma amiga, agora estava intrusa num diálogo alheio. Debilmente camuflada num vestido colorido e démodé. Enquanto ela suspirava sua tristeza ele aconselhava. Tinha a voz bonita, rouca e doce. Dizia a ela que deveria pensar menos. Dizia que sabia que ela pensava na receita do macarrão à carbonara e que, ao mesmo tempo, se preocupava com a postura pouco socialmente comprometida dos médicos no Brasil. E sempre encerrava suas curtas análises reiterando um convite: “- vamos lá pra casa? Tem comidinha, prometo”. Saiu para comprar um único cigarro na banquinha e voltou dizendo: “- Sabe, tenho uma tia que é geógrafa, mas que poderia ser psiquiatra. Se ela virar a bolsa de cabeça para baixo, você vai ver a quantidade de remédios que ela carrega. Uma completa vítima dessa indústria da dor.”

“- Faz assim, vai parando de tomar esses remédios devagarinho, reduzindo um pouco. Os meus nunca mais tomei, tenho preguiça de ir atrás de receita”, continuava. Quanto a mim, personagem menor dessa narrativa quotidiana, coube a prestigiosa sensação de estar vivendo, em tempo real, um conto do Caio Fernando Abreu. Aquelas duas pessoas falavam como falam as pessoas dos livros. Falavam como falam as personagens setentistas de Caio F. tentando enfurnar a dor e o desembaraço no lugar menos habitado de si mesmas. Éramos os três um retrato troncho do nosso tempo. Lembrei do poema da Wislawa Szymborska que tanto fala sobre tudo que carregamos, sem que saibamos, em nós. Somos pequenos e quase inúteis depositórios infinitas de genética não mapeada. Carregávamos eu, minha amiga e os dois jovens a sina de quem não vive de olhos fechados. E lembrei da voz bonita do moço e da voz rasgada de Elis Regina, sempre ela, cantando “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Que maldição hein, Elis!

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Ananda Sampaio

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Repositório de rascunhos de uma aspirante. @coletivoleitura

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