Denúncia

Perco muito tempo tentando desvendar o destino das coisas. Que rumo tomou fulano, que dia que parei de sentir isso ou aquilo, quando foi que eu passei a não ter mais medo de ir para o fundo da piscina… Como se saber exatamente o momento que o gatilho foi acionado fizesse alguma diferença. Essas investigações me acompanham quando estou no elevador com pessoas estranhas, porém educadas, mas também atarefadas e também caçadoras de alguma coisa qualquer.
Caminho devagar e mais uma vez me surgem esses pensamentos. Nunca trago um bloco de notas à mão, confio na memória e traço deduções para perdê-las prematuras já na próxima esquina. E assim nesse jogo de sombra e luz, vou encontrando e perdendo o tempo das coisas.
Não adianta, nem deveria perder tempo escarafunchando o tempo. Há quem diga que ele nem sequer existe. Teorias da conspiração que nos servem de alento, dizem: presta atenção, o mundo não é nada óbvio. E, insistente que sou, vou traçando a lápis o percurso e o momento dos disparos sentimentais. Alguns se inscrevem em minha carne. E fazem do meu corpo caderno de desenho. Esquivam-se por meus olhos, transparecem em minhas mãos movendo-se ligeiras e esquizofrênicas. Sou toda denúncia.
Investigo porque sem encantamento não dá para viver. Vou metendo a mão na memória, rodando as engrenagens do peito, atravesso o mar das emoções — que sacodem sem medo os barcos das incertezas. Sem notar, tornei-me detetive como meu bisavô. Contudo, ao contrário dele, o único criminoso que investigo sou eu mesma. Que aprontei as inúmeras armadilhas e que abri também os cadeados da cadeia e que também fui escrivã de minhas declarações criminosas e irresolutas.
Perco mais tempo constatando que todos os trabalhos infrutíferos são os mais louváveis. Coisa de quem dá ao mundo, sem nada pedir. Coisa de quem não tem mesmo o que fazer, ou tem afazeres demais. E que tem uma cabeça que gira numa rotação enviesada e que usa a sua racionalidade para pintar o rosto com o pó da asa da borboleta. Já me disseram uma vez que cega, o pó cega. Acho que já não vejo mais nada. Apenas sinto nas mãos o contorno do vento que nunca consigo encarcerar entre meus dedos e sinto também por dentro de minhas veias a agitação do amor e dos genes e da persistência que é permanecer. Quando foi que me perpetuei, se ainda nem tive filhos? Quando foi que essas palavras nasceram de mim e agora deságuam no papel? Quando foi que me incriminei tão tacitamente que nem percebi? Quando foi que…
