Espelho espatifado

Escrever é um ato solitário. Ainda mais se você escreve no Brasil, são 13 milhões de analfabetos, amigo. Mas como diz Virginia Woolf escrever é melhor do que ser lido. E quem ama escrever compreende bem essa condição. Só quem sente o potencial desse ato libertador é capaz de saber o tamanho desse sentimento.

Não é como se falássemos com a parede ou com algum ser inanimado. O que acontece, de fato, é que travamos um diálogo intenso com quem está dentro de nós e com todas as pessoas que nos rodeiam ao mesmo tempo. Como assim? Você talvez esteja se perguntando. Quando escrevemos levamos as pessoas, os sentimentos, os desejos, os medos e tudo mais para a esfera metafísica da criação. Para a esfera mais plural de nossa imaginação, reiterando o mundo que nos contamina, queiramos ou não. Nos jogamos no poço e não sabemos o que vamos encontrar no fundo dele.

Assim as pessoas são reinventadas e novos rostos são criados a partir dessas fusões. São cartas distorcidas que jamais entregamos ao destinatário, disfarçamos de ficção. Pintamos os rostos de carvão, colocamos palavras em suas bocas e voilà um novo universo está composto pelas mãos de um mortal.

Além do sucesso ou reconhecimento existe o chamado. Como melhor diz Lygia Fagundes Telles, há uma coisa que a palavra latina vocare diz melhor. Pulsante, que diz: Vá, escreva. Eu disse sim, sempre disse sim. Contudo, tive o peito constipado por muito tempo. Pulmão cheio de palavras presas nas caixas torácicas. Escrevo para tocar os outros? Não sei, minhas pretensões não chegam a tanto. Parece-me que não deverão chegar a lugar algum. Quanto mais escrevo mais desejo me perder. Sem traqueostomia. Quero continuar respirando, por favor.

Sempre pareço uma tonta que só tem livros à mão para oferecer. Terrível é a vida de quem gosta tanto de papel como eu. Angustiamo-nos com a poeira, a oxidação das páginas, as traças — deteriorando as palavras. Amontoamos livros como se construíssemos trincheiras. Os livros têm sido nossa única defesa, estratégia de fuga.

Existem escritores publicados e existem escritores resguardados, tímidos ou apenas preguiçosos — exaustos previamente. Cansados de ter que dar respostas, as perguntas é que são nosso alimento. Elas que latejam, fervilham e aquebrantam nossos corações. Embora sempre pareçam se repetir, ao longo dos dias longos, encontramos tantas respostas bonitas que decidimos escrever para dizer que encontramos mais um caco do espelho que foi quebrado refletindo nossa imagem, inclusive aquela que fica por detrás daquela outra.