Matilde, Cassia e Edith

É uma sexta-feira a tarde e estou no trabalho, sem pressa, sem aflição cronológica. Sem muitas esperas antecipadas pelo que ainda há de vir. Ligo o computador, abro o google e digito na busca Matilde Campilho em seguida, no filtro seleciono notícias. Procuro pela poeta portuguesa, mas não há muita novidade para minha tristeza.

Sigo para o youtube e lá escuto-a dizer suas próprias palavras, tão suas e tão minhas. Pronto… Alguma coisa agora existe, eu existo e saio da zona de stand by. Desligada, mas não totalmente. Tenho mesmo medo do caos gerado por essa represa emocional. O muro de contenção não suporta. Abro as compotas.

Trago um livro na bolsa, sei que não posso ler, não terei tempo durante os afazeres do trabalho. Mas trago, porque sou teimosa. Porque sou medrosa, porque me perco sempre com muita facilidade em cada esquina. A expressão do rosto do menino negro no sinal, me adentra como mil facas geladas. Daí já me perdi. Esqueci o trajeto, parti para tentar amainar a primeira guerra do dia a se instalar em mim. Apagando fogos, para que não se tornem numerosos focos de incêndio.

Preciso da poeta, cadê a poeta? Atravesso a porta, abro as páginas, deslizo o dedo pelas palavras negras sobre o papel amarelado. Acho que aportei, o espírito vai sossegar. Tiro o livro de dentro da bolsa, coloco sobre a mesa e encaro. Paixão quase platônica se não fossem pelas horas de folga — quando estico as pernas e as costas vão de encontro ao travesseiro. Bálsamo. “Menina, quando estiveres triste recorre aos poetas. Eles te dirão.”

No caminho deste mesmo dia, na plenitude do desabrochamento da manhã, toca no som do carro uma música. Uma canção bonita. Violões.Violinos. Em francês, a voz rouca da cantora brasileira arranha num francês triste aquela música da Piaf. E eu digo: “Caramba, isso é muito para uma manhã de sexta.” Ela diz que não lamenta nada, nada de nada. E que está tudo resolvido, no seu lugar. Os amores perdidos, os maus sofridos, os prazeres — todos varridos. Nesse minuto encontrei duas poetas: Cassia Eller e Edit Piaf. Pra quê mais?

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