O homem que vestiu silêncio

Sentado na sua cama, o homem acabava de retornar ao mundo mais uma vez. Acordado, o peso do mundo lhe pesava às costas. Sentia-se tão velho a cada dia que a impressão é que não acumulava décadas, como faz a maioria dos seres humanos, mas centenas. Os anos se enrodilharam uns aos outros de forma que não se sabe mais onde tudo começou nem onde tudo há de findar.

Na cabeceira, a fotografia em preto e branco da esposa. Talvez as duas cores tenham tornado seu olhar ainda mais gentil, pensa. Há anos perdera a esposa para o câncer. Não tiveram filhos, acumularam pouco e não tinham no histórico nenhum feito extraordinário. Viveram e isso tinha bastado.

Sempre fora um homem calado. De poucos amigos, quanto os teve à época da faculdade, conversavam sobre astronomia ou sobre como o sorvete de creme daquela lanchonete próxima à faculdade era delicioso e refrescante. Conversas que jamais comprometeriam que jamais entrariam na esfera gordurosa do privado.

Quando Carlos conheceu Vera sabia que devido a sua inabilidade vocal aquela seria a sua única chance de encontrar alguém. Vera se incomodava e demorou a entender que o silêncio de Carlos não era indiferença, mas falta de domínio sobre as palavras e a sua infinita representatividade. Vera amou Carlos ainda mais. Ela representaria o mundo para ele e através de gestos, olhares e afagos reduziria as distâncias. Construiria a ponte.

Os filhos não vieram, Carlos nunca pediu e Vera nunca sonhou. Junto a isso o tempo passou e na correnteza minuciosa dos dias quando se aperceberam estavam velhos demais para cogitar a ideia. Num piscar de olhos, entre os afazeres domésticos, os finais de semanas sempre insuficientes e o trabalho a vida já se definira e se engessara. As linhas se enrodilharam a ponto de não ser mais possível desfazer os nós.

Carlos ficou só. E em resposta ao mundo que quase nada lhe dera e tudo lhe tirara inspirou-se e resolver permanecer de luto. A maneira mais áspera que ele encontrou de recusar o mundo foi lhe enchendo com seu silêncio. Fez o pacto após a morte da esposa, que já no preâmbulo da morte apenas pegou a mão do marido e colocou sobre o lado esquerdo do peito. Com os mesmos olhos piedosos despediu-se com uma tremenda culpa e um sentimento de covardia por deixá-lo mais uma vez responsável pela própria existência. A ponte foi quebrada.

Voltando ao pacto, Carlos só diria agora o básico: bom dia, boa noite, dois pães franceses, por favor. Quem sabe um dia a voz lhe sumiria e, como sempre, continuaria falando apenas para dentro. Retornando ao casulo esquecendo-se de vez que foi borboleta e que embora belas, são frágeis. Há até mesmo quem as cace e prenda com alfinetes numa coleção assombrosa, num aniquilamento inútil e desqualificado da beleza.

Contudo, ele levantou. Ergueu-se e sentiu-se mais concreto do que carne, mais bicho do que gente, mais peso do que leveza. Vestiu-se com a roupa mais bonita do seu guardarroupa. Vestiu-se de silêncio.