O infinito dos teus olhos naquela fotografia

Naquela foto preto e branco teus braços me abraçam e teus olhos encaram a câmera, tão lindos, tão confessionais. Gosto de fotos assim. Sem perceber deixamos extravasar o momento, os sentimentos escapam pelos olhos. E parecemos dizer: “Isso, me fotografe assim. Esse sou eu agora”.

Pode ser que nada de extraordinário tenho acontecido ali. Mas o ordinário está impresso, inclusive no nosso semblante úmido de paz, a paz que só os dias mais comuns e suas surpresas minúsculas podem trazer. A coincidência de chegar à padaria e encontrar o pão quentinho, saindo do forno. O chocolate que veio junto com as verduras. Ou a visita inesperada de amigos queridos. A parcimônia da paz que se desfia nos dias que são apenas mais um dia.

Aquela fotografia me fez perceber que somos territórios descolonizados — mapas amorfos. E essa coisa que nasce de nós dois jamais terá dono. Esse sentimento que só existe porque juntos sentimos nasceu de uma energia sublime que jamais esteve ao alcance de nossas mãos. Tudo parece estar solto.

Quando olhamos para o céu e vislumbramos as estrelas nunca lembramos que ali muitas vezes resta apenas poeira cósmica. Assim como nós. Somos poeira ao vento, pessoas nomeadas, mas totalmente desprovidas de nome. Nem eles nos abarcam. Somos barco, somos vela e sempre seremos mar.

Teus olhos serenos naquela fotografia serenam mil coisas sobre mim sempre que os encaro. Embora esteja estáticos na imagem, prevejo ondas. E sei que tu és infinito.

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