Prefiro os curtos

Homem não gosta de mulher de cabelo curto. O teu marido deixa você cortar?” Aos sete anos disse para minha mãe que queria porque queria cortar o cabelo como o da atriz Lídia Brondi. Era um corte meio joãozinho e bem bonito. Lá fomos nós, cortei e saí do salão feliz me sentindo mais leve. Eu não sabia que acabava de cometer um ato político, que dizia que a nossa feminilidade, socialmente estabelecida e construída, permanecia mesmo quando eu cortava o cabelo como o do meu primo.

Aos 31 anos, comecei a ouvir repetidamente se meu marido não se incomodava com meu cabelo curtinho. E me conhecendo, como conhece, e me amando como eu sou por que um simples jeito de usar o cabelo poderia abalar uma relação? E se abalar, tem alguma coisa que não está bem. Colonizar o cabelo alheio de jeito nenhum.

Aos poucos percebi que há uma identidade feminina muito ligada ao comprimento do cabelo. Em algumas religiões as mulheres evitam cortar e deixam os cabelos quase arrastando ao chão, algumas budistas raspam a cabeça abrindo mão da vaidade. Uma das primeiras coisas que se faziam nas guerras medievais com as mulheres, além do estupro, era cortar os cabelos à faca. Vide Joana D’arc, que para se camuflar no exército francês cortou as madeixas e passou a vestir-se de homem. Sônia Braga é mais Sônia Braga com os cabelos batendo às costas. Mas a Elis é mais Elis com o sorriso largo e o cabelo rente à cabeça. Cada uma habita um lugar imagético próprio. Essa representatividade é necessária.

Particularmente, quando troquei o cabelo que apontava no fim das costas para um bem mais curto, senti que a beleza é mesmo diversa e que pude despedaçar algumas teorias sobre minha pessoa que habitava o imaginário alheio. Talvez, você pense, que eu esteja tentando tornar complexo o banal. Mas não, quando se trata de corpo e imagem femininos sempre há alguma porção de coisas a serem desveladas. Tentativa quase ineficaz, você pode concluir.

Moro numa cidade quente e ter um cabelinho à la garçonne é uma questão de saúde e bem-estar. É bom não precisar ter sempre um liga à mão, não se preocupar se os fios estão assanhados ou se as pontas estão secas. Quando Emma Watson resolveu radicalizar li uma entrevista e ela disse que a sensação que estava sentindo era de alívio. E talvez pese mesmo às costas esse negócio de manter fios longos, que devem estar sempre hidratados e bem alinhados. Quem tem tempo? Ao invés do salão ou da toca caseira lotada de líquidos gosmentos, prefiro deitar no sofá e ler um livro, assistir a um seriado ou ficar de bobeira.

Admiro as mulheres que parecem sempre encontrar tempo para estarem belas e com as unhas em dia. Mas, definitivamente, nunca tive essa habilidade nem dedicação. Minha sobrancelha vive em estado de crescimento, minhas unhas quase sempre descascando e minha maquiagem simples e terrível sou eu mesma que costumo fazer. E aprendi que não há pecado algum nisso. Ando longe da perfeição e acho que isso é bom. Mulheres livres são as mais bonitas.

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