Tangerina

Para o cão a prova de amor do dono não está no banho, no esfregar das patinhas, no espalhar da espuma cheirosa. Para o cão o amor está quando o dono lhe seca o pelo, o couro. É nessa hora que ele ri com a cauda e compreende, afinal o ato de amor. Nem mesmo para os cães o amor é previsível, vê?

Até eles, que já são moléculas vivas de poesia, escondem num gesto um tantinho de mistério. Uma das minhas cadelas se chama Tangerina, dei esse nome por conta das pintinhas que mapeiam seu corpo, são laranjas, abóboras ou tangerinas. Brincam no pelo branquinho formando minúsculos desenhos, minimalistas.

Tangerina gosta de urgir, de roncar, de correr e de espiar. Ela se espraia no terraço, no azulejo branquinho e sem qualquer inibição dorme que baba, como diz meu pai com olhos brilhando. “Sem dúvida, os cães são mais sábios” — penso. Vivem o momento, a chegada, a partida sempre com o sentimento sincero e jamais pré-fabricado do agora mentalmente antecipado. Creio que jamais haja dúvida quanto à naturalidade com que sorriem, que espreguiçam, que correm e se deliciam num balde de água fria.

Já disse: “- Se soubesse escrever história em quadrinhos, Tangerina seria minha protagonista e renderia boas histórias.” Mas ninguém me ouve, deliro sozinha então. Mas com ou sem revistinha ela está ali. Impávida, sem qualquer pretensão. Ou indagação que não seja acobertada pelo amor. Enquanto reflito na cadeira e toca alguma música na caixinha de som, ela dorme sobre meus pés. E eles passam a categoria de travesseiros. Eles nos reinventam quando nos tocam, quando nos amam e nos acariciam.

Ela é afoita e mal sabe receber um afago. Funga dali, funga daqui. Urge dacolá. Arrasta a patinha nos meus braços e rosto. E minha leitura é de que os meus mil carinhos disponíveis não poderão jamais saciá-la. Mais amor, mãe. Mais amor. Ela diz afogueada, o quadril quase se deslocando. Pra lá e pra cá. Como cobra na areia quente, diria minha mãe rindo.

Tangerina tem nome de fruta porque sabe que os substantivos são turistas e assim como ela não cabem nas classificações gramaticais. As unhas afiadas cravam na minha pele e quando me dou conta tenho pernas rabiscadas. Ela parece dizer: atenção, atenção vive o momento, seja como eu. E eu, com meu coração lotado de indisponibilidades, sigo o meu rumo irritada. A calça mais uma vez suja e as marcas de patas grudadas na minha transitoriedade incrédula.

Para nós, humanos, que vivemos na pretensão do eterno amar um cão é a oportunidade de sermos um tiquinho melhores. Precisamos enxergar o que eles nos dizem veementemente. Todos os dias eles insistem, filhos de Hermes. Cumprem sua missão até o último minuto. Mais uma vez ela me diz: Vem, a vida é agora. Eu sei Tangerina, eu sei.