[ ­ ­ ] Cortar a unha do pé (8 dias atrasado)

Organização nunca foi meu forte. Planejamento, muito menos. Até hoje, minha vida foi mais ou menos aquele gif que uma roda desgovernada acerta a cabeça de um cara numa reunião. Eu sou a roda: uma força rápida e sem direção que quicou de ladinho por acaso e encontrou a porta certa aberta, caindo no colo do destino de um jeito inevitavelmente desastroso.

[eu vou achar o gif pera]

A vida profissional, porém, me obrigou a dar meu jeito. Quando a responsabilidade chega e a figura daquela pessoa que te entrega uma lista de coisas a fazer desaparece, cara, ce tem que dar seu jeito. E foi mais ou menos aí que eu conheci os apps de lista.

Não vou mentir, eles me ajudam demais. Eu raramente esqueço alguma coisa. Sempre visualizo todo o meu dia em tópicos. E ainda tenho gráficos de produtividade que é pra ficar sabendo que eu rendo mais nas manhãs de segunda que nas tardes de quarta.

Mas parece que, tal qual acontece na lição de vida cinematográfica A Chegada, aprender uma nova linguagem pode reconfigurar sua percepção da realidade. Pouco a pouco, minha vida virou uma grande lista de tarefas. E viver virou um fardo.

Tô falando no passado mas essa realização me ocorreu exatamente agora. Cheguei em casa mais cedo que de costume e pensei “é hoje que eu dou check nums itens”. Fiz uma comidinha, sentei com minha mãe pra ver TV enquanto jantava. Branco. 21h39, minha mãe já tinha ido pro quarto e eu estava há vários minutos assistindo Vai que Cola e eu nem gosto desse programa, mas sequer tive forças de trocar de canal. Não tinha energia pra criar essa tarefa mental e dar check.

O mais engraçado é pensar que um dos compromissos que eu tinha em mente pra hoje era assistir uma série triste e chorar, pra aliviar do coração o peso de um pedregulho amoroso recente. Eu estou literalmente procrastinando até meu sofrimento. No último feriado eu me comprometi a descansar bastante e fazer vários nada. Esse planejamento eu cumpri com gosto, mas um pouco decepcionada por não ter aproveitado pra cortar minha unha do pé. Porque eu já não posso mais casualmente cortar a unha do pé. Até isso virou tarefa.

Esse exagero de consciência sobre tudo tirou de mim a arte do casual, do banal, do improvisado. Qual foi a última vez que eu fiz algo completamente fora dos meus planos? Passeei com o cachorro em vez de lavar a roupa? Tomei um sorvetinho em vez de pegar o busão pra casa? Entrei sozinha numa portinha qualquer em vez de comprar shampoo?

Vejo essa galera do kickoff do mindset falando sobre a necessidade de estabelecer metas para chegar em algum lugar. Deve ser ótimo conseguir ser produtivo assim. Pra mim, metas são montanhas de chumbo derretendo sobre os meus ombros, pesadas e doloridas. No fim das contas, eu nem sei onde eu quero chegar mesmo. Às vezes é numa dessas, de improviso, que eu quico de ladinho pro lugar certo.

[descobri depois que não é um gif e sim um video e eu só achei aqui, lamento pelo vacilo https://www.instagram.com/p/BTJ4fA0ji6B/?taken-by=vaidamerda]

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