1 ano e 4 meses

A persistência da Memória de Salvador Dalí

Realmente o físico tem razão, o tempo é mesmo muito relativo. O que significa o período de um ano e quatro meses? Parece tão pouco né. Mas, é muito! É muito mesmo quando paro pra pensar em tanta coisa que aconteceu nesse intervalo de tempo. Foram um zilhão de sorrisos, muitos choros, um furação aí no meio, e alguns momentos de calmaria.

Durante esse um ano e quatro meses, descobrimos que o Pedro tem alguma doença. Mesmo com centenas de exames que fizemos e com dezenas de especialistas que consultamos, ainda não temos um diagnóstico.

Passamos rapidamente pela frustação de não ter um diagnóstico e focamos no que dá pra ser feito. São inúmeras sessões de fisio, fono, t.o., estimulação visual e auditiva, somadas a medicação para controle da distonia e vitaminas específicas para a possível hipótese de erro metabólico.

Uma fim de tarde gostoso com meu pequeno Sir Pedroca

Em tão pouco tempo já percebi que não dá pra ficar sofrendo pelo que não sabemos e então decidi que comemoraria cada detalhe, cada conquista, cada dia, semana, mês, ano.

E aí vem um fator que eu não contava. O Pedro evolui muito rápido. Eu sempre tive otimismo e tinha em mim a convicção de que ele melhoraria, é claro. Mas não com essa rapidez. O Pedro supera os índices alterados no sangue, supera uma alergia a proteína do leite, supera uma não fixação do olhar, supera um mínimo som que antes não era ouvido e passa a ser ouvido. Enfim, surpreende os médicos, os terapeutas, os amigos e a família.

Pescocinho super firminho! E mãozinhas articulando os objetos!!! Múltiplas vitórias :-)

E o que aconteceu comigo. Meu peito inflou com muita expectativa. Sai do realismo e praticidade que sempre procurei ter e comecei a sonhar, imaginar coisas que antes não imagina. Quando o Pedro vai sentar, engatinhar, pegar um alimento com a mão e comer, andar, falar? Ele tá evoluindo tão bem, que acho que essas coisas vão acontecer mas cedo do que eu imaginava!

Mas aí uma cabeça que estava mais controlada, descontrola um pouco. As mãos mais abertas voltam a fechar. Os alimentos nunca antes rejeitados passam a ser repelidos. Dentes rompendo que fazem verdadeiros estragos no humor e nos movimentos involuntários. Uma dor de ouvido desestabiliza o Pedro, eu e todos ao nosso redor.

O pratinho que sempre estava vazio passou a ficar cheio :-(

E mais uma vez é preciso superar. Eu vi a curva ascendente do Pedro e visualizei essa curva com uma linha lisinha, sem nervuras. E quando essas novas situações foram aparecendo confesso que senti medo, insegurança, impotência.

Por alguns dias chorei um choro doido, sentido, meio perdido. Mas graças a Deus (e claro, a minha grande rede de apoio — marido, família, amigos, terapia, espiritualidade) pude, em pouco tempo, já enxergar que apesar das nervuras da linha, a linha continua e está em ascensão sim. Os tropeços que aconteceram esses dias inevitavelmente vão continuar a acontecer e eu preciso estar preparada pra eles, sem me desestabilizar e principalmente, sem deixar de acreditar na incrível capacidade de superação do Pedro.

Li em blog que gosto muito — Nossa Vida com Alice — uma frase que diz muito desse sentimento todo que estou vivendo: “A limitação é um muro alto que nós construímos sozinhos, e é nossa obrigação derrubá-lo”.

Pedro, meu filho.

Eu vou derrubar esse muro por você, com você. Estamos juntos nessa. Você é um bebê lindo, mais que especial, é cheio de vida e de possibilidades. Parabéns pelo 1 ano e 4 meses de vida compartilhada comigo nesta existência. Desejo que você cresça e se desenvolva. Que continue enchendo as nossas vidas de alegria e amor. Desejo, acredito e vou lutar todos os dias para que você tenha uma vida igual a de todas as outras crianças. Que você faça tudo que o quiser fazer. Que ao crescer, você se torne autônomo, independente, tenha a sua família, seus amigos, seu emprego e sua vida como todos nós.

Com amor, mamãe.

Confira nossos canais