Feminism in large bites — comentarista(s) do mundo esportivo

Dessa vez é large bites porque vai ser textão mesmo.

Hoje eu resolvi entrar no Facebook, depois de um tempo fora. A Cambridge Analytica (que trocou de nome, tá sabendo? Mais falso que MDB) também já sabe que meu perfil é de ativista, e é assim que eu quero manter.

Muito precisamente, o primeiro post a aparecer pra mim foi um vídeo de um *pam pam paaam* machista babaca.

A gente sabe que todo dia temos mais um ser novo se revelando mais retrógrado que minha avó (que aliás é maravilhosa e tava aprendendo a diferença entre trans e travestis na TV ❤). Dessa vez tivemos um tal de Peninha, participando de um programa de futebol onde tínhamos uma mulher comentadora também.

O problema dessa vez é que o cara falou tanta baboseira (o próprio meme do cebolinha) que eu tive que fazer um texto no Medium pra conseguir destrinchar cada parte.

Então bem-vindos a um tutorial de “Eu não sabia que isso era tão ruim mas MEU DEUS QUE COISA ERRADA”.


O vídeo com todas as baboseiras que esse tal de “Peninha” falou

“Tô falando contigo que entende de futebol”

O primeiro comentário, o que inicia essa série e abre-alas para a Parada dos Machistinhas™, é esse exímio exemplo de desrespeito.

Quando a Duda fala algo (aparentemente em tom de brincadeira também), mas não é o que ele concorda, ele chama o “especialista”, um homem, pra corroborar com ele.

Pontos nos quais isso é horrível:

  • Ele desrespeita toda a autoridade que ela tem (o que ela tem muito, já que chegou onde tá sendo a única mulher no meio de uns 5 caras);
  • ele invalida o conhecimento dela por ser mulher (o clássico clichê de que mulher não entende de futebol);
  • ele claramente se sente inferiorizado pelo comentário, e por isso ataca ela de volta;
  • ele conta com o companheirismo masculino pra não sair da sua posição de poder (pede pro colega homem confirmar o que ele acha);
  • ele faz isso tudo pra tentar “colocar a mulher no seu lugar”.

Esse último é um que vamos explorar novamente no próximo tópico. O contexto aqui é: quando a mulher fala algo que vai de encontro ao que ele disse, ele se sente inferiorizado pela autoridade que ela possui e ataca ela ao mesmo tempo que a remove da conversa para que ela então seja considerada como a inferior.

Clássico Homem Ameaçado™.

“Volta pra cozinha de onde tu não devia ter saído”

Aqui na verdade não ficou muito claro pra mim se ele estava falando sobre a mulher ou não. Logo depois disso ele fala “deixa ela trabalhar”, mas eu não sei se ele está considerando que aquilo ali que ela está fazendo é o trabalho dela.

Então vamos trabalhar no pressuposto de que ele mandou a Duda voltar pra cozinha, de qualquer maneira. Isso é errado porque:

… uau. Dava literalmente pra fazer um texto só em cima dessa parte. O que eu vou, e vai ficar aqui. Mas o básico é que

  • lugar de mulher também é em ambientes profissionais;
  • mulher não tem que ser escondida na esfera privada (ela também faz parte do ambiente público);
  • cozinha só é considerado um trabalho menor quando a mulher faz (vide os grandes chefs);
  • considerar trabalho doméstico como inferior é inferiorizar o que é inerentemente feminino na nossa sociedade, o que prejudica ainda mais trabalhadoras domésticas (tipicamente pobres e negras, tantos preconceitos juntos!);
  • é um outro exemplo de Homem Ameaçado™ tentando colocar a mulher “no seu lugar”. De novo. Não consegue nem ser criativo, que a Deusa abençoe.

“Passei a manhã na cozinha” e outros

Agora a gente entra na parte em que ele começa o seu pedido de desculpas. Aqui, todo mundo já falou pra ele que o que ele disse não é legal e não vai ser aceito, então ele tem que fazer alguma coisa sobre.

Porém, como a grande maioria dos Homens Ameaçados™, vamos ver que pedir desculpa mesmo ele não pediu. E não só isso, como ele leva essa oportunidade para um nível além e a usa para tentar ainda mais humilhar a comentarista, o movimento e todos os etc envolvidos.

Ele começa o tal “pedido de desculpas” falando que não teve tempo pra ir no programa porque estava na cozinha. Sim, isso mesmo. Agora ele quer tentar mostrar como ele é desconstruidão™ e super-diboas™, afinal, o que tem de mais na cozinha, não é mesmo?

De repente a cozinha simboliza algum tipo de união, ao invés de um lugar subalterno onde a mulher deveria se isolar. Isso, é claro, é só uma maneira de tentar aplicar um escudo protetor onde ele não pode ser atingido. Essencialmente, é o mesmo problema do “não posso ser racista, eu tenho um amigo negro”, que vamos falar mais em outra fala dele aqui.

Particularmente, é uma das partes mais ofensivas pra mim, porque ele não só insulta meu gênero, ele também insulta minha capacidade mais básica de discernimento. Se vocês não se sentiram ofendidos, tem que ver isso daí.

“Não por causa do teor da piada, mas porque a piada era muito ruim né?”

Aqui ele literalmente fala que não vai pedir desculpas por ser machista. Só porque ele não foi muito criativo quando tentou ofender a Duda. Concordamos que ele não foi muito criativo mesmo.

“Se você não ouviu eu repito”

… e ele repete mesmo.

Um movimento pra tentar demonstrar poder, falar que não tem medo do julgamento que as pessoas fazem sobre ele. É o mesmo que crianças fazem, quando você avisa que não devia colocar o dedo na tomada, ela coloca e leva um choque — mas admitir que tá doendo? Jamais.

Se você reparar bem, o tal Homem Ameaçado™ tem muitas coisas em comum com uma criança orgulhosa. Infelizmente a gente ainda não decidiu que é melhor restringir a quantidade de poder que ele tem, do mesmo jeito que fazemos com a criança.

“Morei 4 anos em Gramado com a minha mulher e eu deixava ela trabalhar”

Temos dois problemas nessa parte. Eu ia dividir, mas acho que posso falar rapidamente de cada um:

  1. A tal falácia do “não posso ser racista, tenho amigos negros” aqui vira “não posso ser machista, minha mulher trabalhava e eu cuidava da casa”. Nessa parte eu lembrei da sam jovana num tuíte que ela fez recentemente, lembrando a todos nós que Claudia Leitte já cantou feminismo, e que “Safado Cachorro Sem-Vergonha” prova que colocar a mulher pra trabalhar fora não significa necessariamente nenhum avanço de igualdade entre os gêneros.
  2. Ele deixava ela trabalhar fora de casa.
    Vamos de novo. Ele d e i x a v a ela trabalhar fora de casa.
    Eu não lembro de nenhum trecho que foi alterado na reforma trabalhista recentemente em que voltamos a permitir que pessoas fossem proprietárias de outras pessoas e decidissem o que elas podem fazer ou não de acordo com os anseios pessoais do respectivo dono. Se eu perdi esse pedaço, vocês me avisem por favor pra eu incluir aqui.

“Sei que a Duda não se ofendeu”

Agora ele tá só colocando palavras na boca dela.

Ele finge que é só pra amenizar, quase como se fosse pra ela se liberar da “obrigação de estar ofendida” e não ter que justificar que tá tudo bem. Exceto que não tá. Ela chora no final do vídeo (e, se você reparar, só as mulheres vem abraçar ela, mas não é porque os caras tem medo de serem colocados como assediadores se fizessem isso).

Quando ele faz isso, considerando que a mulher já está, socialmente, numa posição subalterna ao homem, ele só piora a situação. Nós fomos sim educadas pra aceitar e deixar pra lá os erros dos homens, e sabemos que quando não fazemos isso somos julgadas socialmente. Então, quando ele diz que ela já aceitou, ela tem que fazer o dobro do esforço que teria que fazer inicialmente pra conseguir falar que não concorda com ele agora. Porque, se ela fizer isso, ela vai estar “começando uma briga que não tem necessidade” — e ele usa exatamente esse argumento, daqui a pouco.

“mas sei que tem as redes, esses bafafás”

ou, pra quem já conhece, “ai meu deus esses SJWs reclamam de tudo!”

Aqui ele tanto minimiza a questão — o que ele já vinha fazendo desde que decidiu pela Duda que tava tudo bem — quanto minimiza o movimento que vai contra essas falas que ele mesmo já reconheceu como retrógradas. E novamente não dá a chance da Duda dizer se ela realmente ficou chateada ou se ela só viu a repercussão.

Afinal de contas, pra que a mulher falar? Os homens já sabem tudo que nós sentimos. Ou, ao menos, o que somos permitidas sentir.

“Por mim a questão tá encerrada, porque ela é muito tola e muito boba né?”

De novo, mesma questão de não deixar ela falar. Também invalida o movimento. Agora, bem mais explícito.

Eu também escutei um subtexto, onde o que mulher sofre é tolo e bobo. Pra me provarem, perguntem pra ele se esse texto é ou não um ataque desnecessário. O que o homem sofrer na sua honra nunca vai ser tolo e bobo.

“Se ela não se encerrar vai ser uma perca de tempo pra todo mundo”

Mesmos pontos das últimas várias vezes, com uma adição: uma ameaça. Não é à integridade física ou psicológica, mas a estrutura da frase seria a mesma se fosse.

O tom não é de ameaça, mas existe um subtexto de “lidem com as consequências se não seguirem a minha sabedoria”. Como já sabemos, ele está desde o início tentando se afirmar superior e aqui ele repete o padrão, se afirmando mais sábio ao tentar enterrar esse assunto.

“Porque eu sou límpido, luminoso e a minha obra fala por mim”

Claramente mais uma tentativa de se afirmar superior.

Nesse caso, existe um apoio social onde um homem pode continuar a ser valorizado pelo seu trabalho independente de sua vida social e/ou acidentes que não estejam diretamente relacionados com o assunto com o qual trabalha. Isso não costuma acontecer com mulheres (vide Janet Jackson).

A campanha #MeToo teve um trabalho importante em cima disso, porque os assédios dos homens em questão eram conhecidos mas não eram relevantes porque não faziam diferença no seu trabalho. Espero que de agora em diante, sempre façam.

Podemos olhar também aqui o nível de perfeição exigido da mulher na sociedade em que vivemos. Ainda que ela seja muito boa, qualquer pequeno deslize é capaz de colocar ela “em desgraça” e acabar com o que quer que seja que ela estivesse construindo. Dois pesos e duas medidas, o próprio oposto da igualdade de gêneros.

“E não tem nada que eu prefira, do que mulher no comando.”

Aqui temos uma questão que eu ainda não sei formular muito bem, então quem puder me ajudar com explicações e leituras eu seria muito grata. Vou tentar formular minhas palavras com um carinho especial e espero que vocês possam abrir o coração um pouquinho aqui e exercitar a empatia um pouco além do normal.

O que eu vejo nessa frase é uma fetichização do esteriótipo da “mulher no comando”. De alguma maneira, mesmo tendo o que convencionalmente é considerado como poder, a mulher continua sendo relegada para uma posição de objeto que serve ao olhar masculino.

Aqui é quando, ainda que a mulher tenha conseguido o que ela deveria supostamente ter pra ser respeitada, percebe-se que na verdade esse respeito não pode ser conquistado unilateralmente. Mesmo tendo sua autoridade, ela continua sendo apenas uma figura do imaginário masculino que serve ou não para atender aos desejos do homem. Até nesse momento ela ainda é um objeto, ainda não um ser humano.

“…fazer parte todo dia do programa, mas ainda não chegamos no meu preço”

Pra fechar com chave de ouro, ele se impõe não só pra sua colega comentarista, assim como pra todos no programa: ele é tão superior que o salário dele não se equipara ao dessa mera ralé. O “valor” (peso simbólico fortíssimo nessa palavra aqui) dele é, supostamente, muito maior que o dos que estão atualmente no programa.

No subtexto, eu escutei quase que um desafio. Seria talvez uma maneira de dizer que, se eles não começarem a se importar com problemas de verdade — ao invés dessas questões tolas e bobas, como ele já mencionou — ,o valor de quem está atualmente no programa nunca vai se equiparar ao valor do nosso querido Homem Ameaçado™ em questão.


Por fim, eu queria enfatizar que a Duda, ao final dessa mensagem horrível de áudio estava chorando. Provavelmente de raiva. Eu também quase estava.

Duas mulheres foram abraçar ela. Mais do que simples sororidade, eu acho que o peso de escutar isso tudo afetou todas nós de maneiras muito parecidas.

Estamos muito cansadas de existirmos como subalternas, mas é muito difícil quebrar esse paradigma em uma sociedade baseada exatamente nessa estrutura. É enfraquecedor lembrar que, apesar de toda essa luta, ainda é tão fácil que alguém possa nos mandar de volta pra esse lugar.

O abraço, se qualquer coisa, foi uma ilustração linda de que nós somos capazes de segurarmos umas às outras nesse cordão de resistência. E vamos continuar avançando juntas, do jeito que somos mais fortes.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade