Limitada

Oi Annie, e aí?

Sei que teu silêncio aqui é bem justificado pelo teu estado de espírito: apático, sem vida, sem movimento.

É difícil tentar explicar pro mundo algo que você tá habituada a viver há tanto tempo que você já considera “normal”. Por mais que seja um distúrbio mental, uma doença como qualquer outra, eu sei que explicar pras pessoas que pedem pra você encontrar conforto na palavra de Deus que o seu problema é como se fosse Diabetes e você precisa de “insulina” (no caso, antidepressivos e afins) pra viver, não entra na cabeça de todo mundo.

Eu sei que é difícil.

É difícil explicar que você passou dias e dias trancada no quarto, levantando apenas pra ir ao banheiro fazer xixi e voltando pra mesma cama que você passou dias e dias deitada, dormindo, olhando pro teto, olhando pro celular ou buscando forças pra levantar pra colocar algo no seu estômago que doía de fome depois de horas sem sair do quarto nem pra fazer algo pra você comer.

É difícil notar que em 5 medicações trocadas, nenhuma delas te fez melhorar. Nem a terapia também. Nas duas primeiras trocas, eu sei que você até se sentia esperançosa, mas a partir da terceira eu vi que você se sentiu um caso perdido. Bateu o desespero, a vergonha do próprio psiquiatra pensar que você não tinha jeito, deu vontade de desistir de tudo até seu psiquiatra te dar um tapa de realidade você percebe que se desistir agora, nada vai mudar.

É melhor um mínimo avanço que seja. Mas que seja ao menos um avanço.

Eu sei que você sente a sua vida desmoronando. Disciplinas sendo reprovadas, reputação sendo queimada e a vida passando por entre seus olhos. Planos e planos maravilhosos que você fez orgulhosa, que você já nem se lembra mais.

Mas eu estive do seu lado quando você percebeu afinal que o problema consistia na aceitação de que afinal, existe um problema e que ele não tem solução, apenas adaptação. Você por muito tempo andou em busca de cura pra algo que não tem cura, e sim aceitação.

Aceitar que você é imperfeita é o maior desafio que existe.

Aceitar que tudo bem se você não ser igual aquela moça que pega 8 disciplinas super difíceis na faculdade e tirar 10 em todas elas, é FODA PRA CARALHO!
Aceitar que você jamais vai ser aquela moça que é bem sucedida, casada, magra, inteligente, linda, e posta altas fotos no instagram com a hashtag #blindada é difícil? PRA CARALHO.

Sim, é foda quando a gente vive arrodeado de pessoas perfeitas e de vidas de comercial de margarina. Mas é libertador, porque só você sabe as lutas que tem que lutar e sim, certos desafios serão muito mais difíceis pra você. As suas batalhas pra sair da cama só você sabe como são.

Mas tá tudo bem, Annie. Viva uma vida possível. Viva uma vida real.

Você não é obrigada a parecer um super humano. Muito menos a ser rotulado e abraçar o rótulo de um diagnóstico. Você mal lida com a sua vida relacional.

Você acha que precisa ser importante pra ser alguém? Você não precisa ser importante porra nenhuma, você só precisa olhar pro espelho, reconhecer as suas próprias limitações e perceber que você ainda assim, continua sendo uma pessoa, um ser humano. E que possui tantas outras qualidades que se esquece de propósito.

Porque limitação é um palavrão tão horrível?

Porque você faz ele ser.

Atenciosamente,

Annie de 30/10/2016

(Humana, Limitada, e lúcida por alguns minutos)

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