Pelo direito de se sentir uma merda

Nas minhas anotações e desabafos diários, eu escrevi a seguinte frase:

“Se você não tá bem, cara, você tem o direito de chorar!”

E essa frase simples e boba é bem óbvia. E pode parecer burrice não ver isso antes mas acho que é por ser cabeça dura mesmo. Existem momentos que parece que nos cegamos pro óbvio até acontecer aquele momento chave que redefine tudo. Como uma epifania. Eu acho que minha mente tava receptiva nesse momento quando eu terminei de escrever essa frase e pensei no mesmo segundo:

“Porra, eu posso?”

Eu nunca me permiti de verdade. Tantas e tantas vezes eu disse coisas pra mim mesma pra mente absorver, como um mantra, e continuava sentindo a culpa. Sempre faço as coisas com culpa. Até chorar é com culpa. Principalmente por ninguém me levar a sério quando isso acontece.

E hoje pela primeira vez, eu identifiquei que ‘eu posso’ e senti compaixão por mim mesma graças aos meus textos. Quando eu tô meio sem chão, eu costumo usar de mantras e expressões que eu aprendi, já tão encravadas de tanto que eu pratico todos os dias, pra ver se um dia elas deslancham e finalmente, se tornem minhas. E hoje a compaixão por mim mesma deslanchou só por conta disso.

Vi que se tem o que tem. As coisas são o que são. E precisa-se aprender a trabalhar com isso.

Você, leitor, pode ter lido alguns textos e achado que eu tenho muita compaixão por mim mesma, mas essa só sou eu, profissionalmente, fingindo. Porque é assim que funciona até quando deixa de se tornar fingimento, se torna meu. E hoje ela foi minha.

E por mais que eu sempre tenha praticado essa compaixão, eu nunca de verdade, a senti pelo meu ser. Eu agia de acordo, mas não sentia. Sei que é confuso, mas agir é diferente de sentir, pra mim. Quando eu sinto, o agir é natural. Quando eu ajo, eu pratico, pratico e até chego a uma perfeição, mas nunca será tão perfeito quanto se eu sentisse, de verdade, visceral, meu.

É assim que me desconstruo todos os dias. É assim que desconstruo os meus preconceitos, minhas crenças enraizadas desde muito menina, e ressignifico os meus defeitos.

Podem me chamar de hipócrita, mas todos nós somos. Num certo nível, todos nós fazemos isso ou algo parecido.

E isso é fantástico.

Sou dessas que comemora as minhas menores conquistas, principalmente essas que envolvem a minha batalha interna.

Eu nunca me permiti me vangloriar. Nunca me permiti aceitar que eu sou capaz. E nem é falsa modéstia, é que eu sempre achei que somos o alimento dos vermes do caixão, iguais, podres, depois que morremos.

Já diria Barão de Itararé, “A gente leva da vida a vida que a gente leva.”

E “só”.

E, quem sabe, eu que falo, se, ao escrever estas palavras numa vaga impressão de que poderão durar, não acho também que a memória de as ter escrito é o que eu «levo desta vida». E, como o inútil cadáver do vulgar à terra comum, baixa ao esquecimento comum o cadáver igualmente inútil da minha prosa feita a atender. (Fernando Pessoa)