Sobre gatilhos e conselhos óbvios e não solicitados

Annieway
Annieway
Feb 25, 2017 · 4 min read
Engatilhado e cheio de conselhos óbvios, né?

Enfrentando gatilhos e não querer falar sobre eles

É bem verdade que pra um processo terapêutico funcionar, a pessoa precisa querer falar sobre aquilo que lhe incomoda. Precisa querer ir à terapia. Precisa querer melhorar. É o primeiro passo pra melhora.

Eu costumava ser a pessoa que muitas vezes falava que as pessoas puxavam meus gatilhos facilmente, mesmo eu as avisando que aquilo era um problema pra mim. Porém me tornar uma pessoa na defensiva me impedia de não melhorar ou de lidar melhor com o problema. Claro que ter os gatilhos repetidamente tocados, poderia me deixar mais traumatizada ainda. Mas com terapia e orientação, eu poderia aprender a lidar com isso e não a ensinar os outros a não fazerem algo que eu não aprendi a lidar ainda.

Digo isso valendo pra mim, mas pode não valer pra todo mundo. Por uma pura questão de respeito e escolhas. Se alguém não quer falar sobre isso e não quer seus gatilhos puxados por qualquer motivo que seja, não puxem a porra dos gatilhos. Fazendo um favorzinho.

Obviamente que o respeito que deve ser ensinado pra todas as pessoas, não é ensinado normalmente e às vezes, falta um pouco de sensatez ao tocar em certos assuntos que as pessoas ainda não aprenderam a lidar ou que as pessoas tem muita ignorância e estigmatização a respeito.

Mais escuta, menos conselhos

Ontem eu fui conversar com uma professora finalmente depois de dias sem ir para a universidade por motivos de crise. Num dia que eu consegui levantar cedo. Num dia que eu levantei e tomei café, tomei banho, me arrumei. Num dia que eu cheguei na aula dela, me interessei pelo conteúdo, participei da aula a questionando sobre a disciplina, e ao final da aula, me aproximei para conversar sobre minhas faltas e sobre o que eu poderia fazer para compensar. Expliquei que eu tinha um transtorno que as vezes me incapacitava, mas que eu estava em tratamento, e estava buscando assumir a responsabilidade de algo que eu nem sempre tinha muito controle. Disse inclusive que eu poderia trazer um laudo do meu psiquiatra para comprovar. Ela me olhou pausadamente e quis saber o nome do meu psiquiatra, terapeuta, o que eles acham do meu prognóstico, o nome do meu transtorno, se eu deveria continuar a faculdade, se eu estava fazendo atividade física (porque é maravilhooooso e resolve tuuuuuudooooo), que eu deveria fazer um esforço maior pra estar entre os colegas (quem?)… enquanto eu só queria saber o que eu poderia fazer para continuar em sua disciplina.

Saí de lá meio que fugindo, chorando, me escondendo. É meio que isso que gente como eu tem que lidar numa frequência grande. A gente sente uma vergonha enorme, mas não tem muito o que fazer. A responsabilidade é minha e o mundo não parou pra eu me orientar, right?

Quando alguém está mal e precisa falar a respeito de algo difícil pra elas com alguém, é automático, as pessoas querem ajudar (ou duvidam também como foi o caso, mas foquemos na ajuda). É quase uma necessidade inquieta de que você quer mostrar que se importa com aquele que desabafa. Mas muitas ajudas, apesar da boa intenção, vem de forma torta, sem jeito, desnecessárias e inconvenientes.

Sabem, não há mal algum em querer ajudar o outro. Mas existem maneiras e maneiras de fazê-lo. As vezes a ajuda pode querer ser recebida maneira específica, mas ao invés de perguntarmos, supomos que sabemos de tudo.

“Pô, eu já passei por isso, acho que você pode tentar dessa forma x. Funcionou muito pra mim.”

“Eu não teria feito isso no seu lugar.”

Ou conselhos óbvios do tipo:

“Seja você mesma” (hahahaha essa é ótima)

Ou essa que eu já ouvi bastante

“Você não precisa ser magra pra se sentir bonita” (Ahh cê jura?)

A pessoa pediu seu conselho? Você procurou saber se a pessoa já não pensou nisso? Se ela já não tentou da forma maravilhosa x que você sentiu a necessidade de dizer pra ela tentar? Você sabe se a pessoa tá interessada em saber como você resolveu o seu problema?

Falta um pouco de senso crítico, compaixão pelo outro, empatia e silêncio pra escuta.

Parece óbvio, mas as pessoas esquecem que pessoas diferentes possuem vivências diferentes, e portanto, sentimentos diferentes sobre as coisas. Todo o resto são informações egoístas e desnecessárias que desmerecem o sentimento do outro.

O único padrão que sempre se repete nas pessoas que precisam falar é que elas querem ser escutadas. Outros desconfortáveis com a fala preferem a presença física (ou simbólica, ainda que distante — hello, internet) do outro.

Mas não sabe o que dizer, ou vai falar algo bobo ou negativo? Silencia. É bem melhor e mais produtivo. A presença fala muito mais do que meia dúzia de palavras óbvias e sem sentido.

Muita gente não precisa dos seus preciosos, valiosos conselhos.

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