Obrigada pela minha infância.

Depois de vários encontros com adolescentes em escolas, da reflexão sobre a minha experiência enquanto filha, de um olhar atento sobre os meus pais, de alguma observação de pais de primeira viagem, das leituras e, em especial, da cena de um seriado que assisti recentemente, concluí o óbvio: ninguém nasceu pronto para ser o conhecedor do que é correto fazer quando se trata de educar uma criança. O correto a fazer nós conhecemos pelas normas da sociedade, pelo contexto imposto, através da ética moral, pelo direito e suas leis, que tentam bloquear falhas no percurso. Mas prever como se poderia agir para deixá-las mais felizes, para garantir um futuro saudável, com o menor número de angústias e traumas, é impossível. Porque é impossível nos conhecermos suficientemente bem a ponto de se doar tão bem à pessoa amada. Educar será sempre uma tarefa quase perfeita e uma quase garantia de que se fez a coisa certa (tanto a perfeição quanto a garantia sequer conseguem existir no plano terráqueo). Quando um pai educa, ele condiciona. Veste a filha de rosa, o filho de azul. Coloca camisinha na carteira do guri, que é pra pegar todas, mas diz pra guria escolher muito bem o primeiro cara, preferencialmente aquele que for "pra sempre" (isso ainda existe? Até a minha geração, nascidos na década de 80, existiu). Educar é condicionar, ou deixaríamos o livre arbítrio por conta de uma criança de cinco, dez, quinze anos? Só depois dos dezoito que ela pode escolher. Escolher fazer tatuagem, comigo, foi assim.

De forma alguma eu posso reclamar. Se recebi uma educação mais tradicional, ela também me trouxe o valor da origem, da humildade, da própria família. Tive amor de sobra, comida de sobra, livros de sobra, roupas de sobra (assim, na ordem de prioridades para a sobrevivência). Meus pais me encheram de carinho e boas lições. E, de maneira recíproca, natural, transbordo de amor por eles. E por quem está pertinho. E por quem está longe. Sinto que transbordar de amor, que é transbordar também de felicidade, se tornou, para mim, uma certa compensação. Um dever para com uma vida completa, sem vazio de alma apertada pelo sofrimento.


É por isso que dói. Dói pensar no outro que é diferente de mim. Dói especialmente neste dia das crianças. Dia que, até a minha adolescência, comemoramos lá em casa com abraços, beijos, almoço e presente. Dia que continua feliz, porque até hoje escuto: parabéns, minhas crianças queridas (ou minhas eternas crianças ou somente "minhas crianças"), o que conforta o coração: saber que posso contar com eles sempre, que eles são mais sábios e mais responsáveis, porque se tornaram adultos antes do que eu.


E então esse menino.

Ele não é real. Quero dizer, ele é ator: uma representação da realidade. Ele representa milhares de crianças em situação de risco. Milhares de filhos de mães como essa:

Explico. Os dois são personagens do seriado Breaking Bad: ela é uma mãe viciada em droga, e, ele, o seu filho. Numa cena que beira o horror, aparece uma casa em aspecto apocalíptico onde mãe e pai (humanos em decadência) discutem até a morte do pai, prensado por um caixa eletrônico roubado pelo próprio. O garoto, e sua infância, exibem a mais triste verdade dos nossos dias: ninguém está ileso, nem mesmo um menino cuja ingenuidade ainda existe.

Visualmente, o menino ruivo é sujo como a mãe (a maquiagem quase força a barra, mas vai saber…). No entanto, enquanto a sua mãe está suja tanto por fora quanto no seu interior, fruto de suas escolhas, ele não. Está apenas sujinho no aspecto físico. Por dentro, ainda tem um terreno livre para escolher viver limpo, livre da violência e da tristeza.


É isso que me toca: o fato de existir alternativa, da criança ter opção, da sua história reservar a esperança. Mas não. Não com pais doentes (des)cuidando dela. Não não não. Pais doentes devem ser proibídos de cuidá-las. O que acontece é que, até as entidades protetoras tomarem conhecimento, muitas vezes o mundo infantil já foi destruído (e a vida madura, por consequência). Enquanto isso, o tempo a fluir, as milhares de crianças vítimas do mau-trato se tornam adultos infelizes ou repetidores das atitudes de seus pais. E, na roda-viva dos dias, a chance à felicidade, a beleza da vida, fica destinada a alguns, não a todos.


Meu eu romântico sonha com a beleza para todos. Principalmente para as crianças, que resguardam em suas mentes e corpos a natureza da infância, que é a natureza alegre, descompromissada. A natureza genuína.

Jesse, a personagem que contracena com o protagonista de Breaking Bad, brinca com o pequeno ruivo. E o ruivo, no núcleo da casa em caos, corresponde, abrindo um sorriso depois de longos minutos de silêncio.

A infância age por si só. É criança em si mesma. A infância pode salvar, se sobressairem suas alegrias em detrimento das imagens ruins. Jesse aciona a polícia e deixa que resgatem o menino. Torçamos para que ele e outros (os reais, aqui do lado, no morro, na periferia ou na esquina), também tenham tal sorte e não sejam mal-educados por seres-humanos que acabaram em outra vida, numa vida que jamais deve ser reproduzida, ou o mau prevalecerá.


Eu não acho que o mal prevalecerá. Mas, penso, o bem tampouco. Parece, se lermos a história antes da gente, que o homem bom e o homem mau coexistem em igual medida e, muitas vezes, no mesmo ser (sad).


Mas a infância existe por si mesma. E quiçá a memória da infância guarde suas coisas boas e amenize suas mazelas, suas tragédias. Que a infância seja soberana nela mesma, porque a criança é incapaz de compreender o tamanho da má sorte (ou da má fé) de seus pais.


Pai Osvaldo e mãe Maria Helena, pessoas tão boas e que sabem educar: obrigada pela minha infância.

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