Somos mais do mesmo
Mania essa de querermos ser diferentes. E eu falo por mim mesma. Da sapatilha garimpada numa lojinha escondida na Zona Sul do Rio (está bem, nem tão escondida assim, afinal, é Zona Sul) até a prática de rituais budistas. Sempre busquei coisas ou experiências que só eu poderia conseguir – santa ingenuidade. E vejo todo mundo fazendo/procurando o mesmo. Existe uma tentativa (talvez milenar e anterior ao meu pequeno pensamento) de ser único. Esse comportamento é tão real que a propaganda se utiliza dele o tempo todo, crente de se fazer entender e criar identificação. Sim, sou publicitária, diz até ali no meu perfil. Mas tenho total repugno por títulos assim: ÚNICO COMO VOCÊ. Para mim, tal chamariz é o ápice não apenas do clichê e da breguice, mas da subvalorização do ser-humano, nosso semelhante. Ou será que ainda se acredita em alma gêmea? Que, além de nós mesmos, existe algo ou alguém tão igual quanto só o nosso próprio eu pode ser?
Impossível ser único em totalidade, mas tão mais impossível é ser cópia, repetição. Ser único é impossível porque, quando achamos que só nós tivemos determinado insight, que apenas a gente criou uma superhistória, que ninguém mais pisou naquele inóspito canto da Tailândia, que qualquer outro ser nunca amou tão intensamente… Sim, alguém já o fez e há bastante tempo. Já o pensou e passou por isso. Somos tão pequenos quanto são as pessoas vistas à bordo das aeronaves ou, nem tão longe assim, do topo de uma montanha 300 metros acima do mar. Essa pequenez criada pela distância prova o quanto somos iguais. Nem subir precisamos: basta constatar que, surpreendentemente, o ex-colega do Ensino Médio se parece muito, da sobrancelha ao jeito de gesticular, com o novo colega de Mestrado. Que a sua conclusão sobre um livro, um tanto inédita ao seu ver, foi a mesma da sua mãe, trinta e dois anos mais velha e conservadora como você sempre evitou ser. E, subitamente, desagradavelmente, a originalidade, ela mesma, se perde no plano físico e mental.
Mas, respiremos: não é tão desesperador assim. Sobrou a cadeia genética, esta sim, cientificamente exclusiva, inxerocável. Agora, todo o resto é (em partes) reproduzido: a cultura, o contexto, a ação, a reação. E, falo para mim mesma antes de para qualquer outro, a fim de entender e me perdoar e aceitar: não fosse os pontos comuns entre nós, habitantes terrestres, nos sentiríamos muito mais sozinhos. Claro que frustra chegar aos 30 anos consciente de ser um produto repetido (vale lembrar, em partes). Mas, por outro lado, essa verdade também me faz menos exigente em ser única, em parecer única, em me postar sendo única nas redes sociais. O contrário: me faz mais livre para perseguir o que importa. Dane-se as tantas lojinhas de quinquilharias esquisitas mundo afora. Antes de tudo, a busca que interessa é sobre resolver (e enaltecer, quando relevantes) as esquesitices aqui de dentro.