Deja vu
Julia estava esperando essa festa há uma semana. Tinha organizado todo o esquema já: Calculou o custo do transporte e tinha até parcelado em algumas vezes no cartão de seu pai um vestido maravilhoso da C&A. Afinal, seu ex estava voltando de São Paulo e ela queria encontrá-lo na melhor forma possível. Um tênis preto completaria perfeitamente seu visual. O problema era que ela não tinha um tênis preto.
Julia esperou dar o primeiro intervalo para nos contar como ia vestida e que estava a procura de um tênis.
— Qual seu número?
— 37.
— Minha nossa, que pezão.
Julia calça 36. Ninguém da turma que calçava 36 tinha um tênis preto. As meninas moravam longe, os meninos calçavam de 38 pra cima. Julia já estava suando frio quando Rabello lembrou que sua irmã tinha um.
— Alô, é a irmã do Adailton?
— É sim, quem fala?
— É a Julia. Você tem um tênis preto pra me emprestar?
— Mas só serve tênis preto?
— Só. É pra combinar com um vestido.
E foi contando com a solidariedade dos outros que Julia, agora contente e satisfeita, conseguiu um tênis preto. Quando voltamos nossa atenção aos cloroplastos, um telefone começa a zumbir. Era o de Julia. “Oi, mãe. Espera, deixa eu falar… é, o tênis! Consegui… Sim. Sim. Que? Não, não, mãe… não acredito... Mãe! E agora…?”
Todo mundo estava encarando-a. Eu estava me perguntando se algum cachorro dela tinha morrido. Pedro se perguntava o que tinha acontecido com algum parente velho dela. Rabello já estava ligando para sua irmã para avisar que não ia mais precisar do tênis.
— Gente, vocês não sabem o que aconteceu… - Tinha uma lágrima tímida dando oi em seus olhos.
— Aconteceu alguma coisa séria? - Julia estava procurando alguma coisa em seu celular quando exclama. - Minha mãe queimou meu vestido!
Silêncio. Uma ínfima troca de olhares é seguida de altas risadas e gozações. Sua mãe tinha, acidentalmente, passado a roupa nova com um ferro fervendo. Julia, que agora estava quieta e xoxa, aguentava de boa os comentários quando alguém solta:
— Mas você ficou triste por isso?
— Por isso? Eu estou esperando essa festa há dias! Organizei tudo bonitinho para sair impecável e um ferro quente estragou tudo! Mas quem diabos passa roupa nova!?
— Eu passo. - Soltou um.
— Eu também. - Confirmou outro.
— Ah, você não ia querer se encontrar com ele toda amassadinha, né? - Perguntaram.
— Não, mas também não quero encontrá-lo com um rombo na barriga! - Estourou.
Julia já tinha ligado para sua cunhada para ver se tinha alguma solução. Nada. Perguntara as meninas da outra turma se tinham algum vestido que combinasse com tênis preto. Deja vu. Ela não faria desfeita do tênis, ah não, tênis combina com tudo. Ana Clara, bondosa do jeito que é, diz que poderia ir em casa buscar alguma coisa para ela vestir e só assim Julia para de choramingar. Deja vu.
— Aqui, toma! Foram as coisas que achei que dariam certo em você e que ainda combinasse com tênis.
— Ai, muito obrigada! Eu te devo isso e muito mais!
— Pega logo, acho que estacionei o carro em lugar de deficiente.
A roupa era linda e o tênis combinou perfeitamente. A única coisa é que a mãe natureza desproveu a Julia de peitos. Não possui uma planície, mas também não é o Everest. E aí a roupa ficou larga. E Rabello, que já tinha discado o número, termina a ligação.
— Oi, sabe o tênis preto que pediram pra trazer? Precisa mais não.
