Tóxica
Quando o hostórico de amor pela matéria convida para a festa
Despertador tocou. Já eram seis horas e o sol ainda não havia aparecido. A cidade inteira estava coberta pela escuridão e os gases tóxicos resultantes de anos de avanço tecnológico dançavam aquela matinal valsa fúnebre. Cada partícula infectava-a.
- Por que acordar? — pensou.
Levantou-se. Tentou respirar fundo, mas sentiu o ar quente corroer-lhe o interior. Calçou as sapatilhas e num impulso pôs-se de pé. O mundo girou em sua cabeça e passou a sentir cada gota de oceano correr-lhe pelas têmporas.
Luzes piscavam enquanto o baile do suicídio ocorria na ponta do seu nariz. A gravidade a chamou e num instante seus lábios já beijavam o chão seco. O amor que seus antepassados sentiram pela matéria, agora corria em suas veias mais forte do que nunca.
Num gesto de amor, traçou linhas ao seu redor e ali ficou. O dia comemorou e convidou a humanidade para a última dança. O salão estava cheio e o cheiro já se espalhava pelos arredores. A terra suspirou aliviada na última nota.
Agora poderia descansar em paz.