Mulher, 42 anos, na cozinha

Foi como um soco no estomago. Mas não um soco sem dor. Talvez eu esteja sendo pessimista demais ou violenta demais. Foi como um empurrão, daqueles inesperados que te deixam paralisada. Você me disse que não ia voltar. Eu assenti. Eu não me movi. Apenas disse que ok, vá, é a sua vida, somos donos das nossas próprias vidas.

Você partiu e eu sorri, desejando toda felicidade do mundo, que todos os seus desejos se tornem realidade e aquela sensação de vazio tomou conta de mim. Fecho a porta, olho o relógio. 18h00, hora de preparar o jantar.

Antes, coloco à mesa, a louça azul turquesa, herança da sua avó materna, com guardanapos brancos de linho e taças coloridas, como pede o belo dia que evita se pôr no nosso jardim e invade-nos as janelas.

Dirijo-me a bancada da cozinha, junto os ingredientes, e busco a tabua de cortar. Posiciono-a de forma que posso interagir com você, enquanto cozinho e aguardo a sua chegada abrupta e esperada, reclamando do seu dia.

Miro os pratos posicionados à mesa. São dois jogos, milimetricamente colocados um a frente do outro. A faca repousa ao lado da cebola pronta para o corte. Conto vagarosamente até 10, fecho os olhos e não há volta.

Você não irá adentrar a casa e me falar sobre quão odioso foi o seu dia. Você não irá sentar à mesa e reposicionar os pratos, talheres, guardanapos e nem perguntará o que estou cozinhando. Você não me beijará, bagunçará os temperos ou dizer que odeia cebola, que eu insisto usar.

Éramos dois por tanto tempo. Durante tantos anos, apenas existimos.

Sinto as dores. A náusea. O soco no estomago. O mundo gira e ao meu redor vejo os meus sonhos abdicados, a cebola, as lágrimas, os filhos que não tivemos. Sinto o chão, a noite adentrando os salões, a angústia, a inexistência.

Você não irá voltar. Nem eu.

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