The Darkness Before the Right

A escuridão antes da Direita: por Park McDougald em https://theawl.com/the-darkness-before-the-right-84e97225ac19#.4hbkql63y

É difícil falar de maneira séria algo com um nome tão bobo, e neo-reação não é uma exceção. À primeira vista, não parece nada mais que uma febre do pântano de misóginos feudais, programadores racistas, e “adolescentes mestres de D&D fascistas”, se encontrando em subreddits para esperar o colapso da civilização Ocidental. Neorreação — a.k.a. NRx ou Iluminismo das Trevas — combina todas as coisas horríveis que você sempre suspeitou sobre libertarianismo com inícios e fins da cultura de Pick-up artists, Darwinismo social victoriano, e um pequeno apego semi-irônico ao absolutismo. Até o momento os neoreacionários tem um projeto político, que é dissolver os EUA em pequenos feudos autoritários que compitam entre si no modelo de Singapura; eles são nazistas fracassados com carteiras de Bitcoin, e eles estão praticamente implorando por serem trancafiados dentro de um armário.

Enquanto não é errado, o quanto é possível, a tendência sarcástica de transformar neorreação em cyber-fascismo ou ressentimento nerd faz com que seja mais difícil entender o que realmente está acontecendo ali. É um pouco mais estranho do que tudo isso.

À medida que o século XXI fica mais obscuro, a política cada vez se aproxima mais de seguir esse caminho, e por toda sua estranheza aparente, neorreação pode ser um sistema de alarme prévio para o que um futuro antidemocrático de direitista parece. Então o que é neorreação, então, exatamente? Por todo o papo de neofeudalismo e geeks pela monarquia, é menos que uma ideologia única e sim uma constelação difusa de pensamentos de extrema-direita, presos a três pilares: tradicionalismo religioso, nacionalismo branco e tecnocomercialismo (os nomes são autoexplicativos). Isso significa pesadas colheradas de “realismo racial”, misoginia e uma nostalgia por hierarquias passadas, conjugada com transhumanismo e “The Moon is a Harsh Mistress”. Sem surpresas, eles nem sempre se dão bem; se você deseja preservar a pureza racial branca, futuristas tentando nos hackear biologicamente transformando-nos em uma espécie separada não são seus aliados de longo prazo. Ainda assim, similaridades abundam. Todos os neorreacionários rejeitam o “progressivismo,” pelo qual eles entendem democracia, igualitarismo, e uma crença em um progresso histórico mais ou menos linear — e mesmo os não supremacistas brancos tendem a um determinismo hereditário que sangra diretamente em um racismo descarado.

A maior parte dos relatos antigos da neorreação se focaram em Mencius Moldbug (o “blogônimo” de Curtis Yarvin), e com uma boa razão: Moldbug é a coisa mais próxima de um fundador da neorreação. Seu texto “Open Letter to Open-minded Progressives” é a peça central do cânone Nrx, e ele inventou boa parte dos termos chaves e conceitos do movimento. Ele também é um programador de rabo de cavalo, cujas argumentações de blog evocam Thomas Carlyle, J.R.R. Tolkien e Ludwig von Mises em medidas iguais. Você não poderia achar uma metonímia melhor para a estranha mistura de influências culturais do neorreacionarismo, e as piadas se escrevem por si só. Mas o foco nele só tendeu a obscurecer o outro, e em muitas maneiras mais interessante, polo da neorreação: o filósofo britânico Nick Land.

Land é um tipo de figura estranha, meio esquecida que poderia aparecer em um documentário de Adam Curtis daqui a 10 anos. Como um filósofo acadêmico na Universidade de Warwick de 1987 a 1998, ele se transformou em algo como uma lenda urbana por sua mistura de intelectualismo de outro mundo e comportamento pessoal incomum. Simon Reynolds criou a ideia do mito no entorno de Land em um texto de 1999: Que ele era o centro de “possíveis estórias apócrifas e incomuns,” inclusive falando em números e intimando possessões demoníacas; que ele apresentou um texto em conferência como um acontecimento multimídia, completo com uma trilha sonora de selva; e que ele ainda assumira, no louco prefácio de seu livro sobre Georges Bataille, ter voltado do mundo dos mortos, uma característica que ele “compartilhara relutantemente com o Nazareno.”

Um das particularidades recorrentes das histórias de Land durante os anos em Warwick é essa admiração pela “integridade inconsequente”; não-ortodoxo, e até possivelmente um pouco insano, as ideias de Land não eram apenas uma etiqueta cínica mas uma função de como ele levava a sério sua forma radical de filosofia. Ainda que isto o alienara da academia oficial, antigos colegas são efusivos com elogios por sua brilhantez, e um, o escritor e artista Kodwo Eshun, o denominou (de acordo com Mark Fisher) como “o mais importante filósofo Britânico dos últimos 20 anos.”

Filosoficamente, a iteração de Land nos anos noventa foi um dos mais significantes descendentes da tradição cética e niilista na filosofia Ocidental. Como seus heróis, Nietzsche e Bataille, ele era claramente hostil a uma filosofia Iluminista liberal de Immanuel Kant, que ele vira como uma tentativa falha de substituir Deus pela razão sacralizada após o colapso da religião enquanto fonte da certeza filosófica. Uma vez livre desta gaiola religiosa, no entanto, pensamento passaria a demolir a razão assim como qualquer outra evocação da verdade; para Land, noções iluministas como racionalidade, livre-arbítrio e auto-pertencimento eram esforços infantis de salvar a consciência humana (o que ele chamara de “Sistema de Segurança Humana”) de ser ser destruída pelo insensível e desumano caos do universo — o “lado de fora assombrado pela escuridão” de Lovecraft — cuja verdade era acessível apenas pela comunhão da arte, morte, ritual e intoxicação (das quais Land participara entusiasticamente).

O grande legado de Land foi a filosofia hoje conhecida como “Aceleracionismo,” um coquetel de niilismo, Marxismo cibernético, teoria da complexidade, numerologia, música jungle, e o sci-fi distópico de William Gibson e Blade Runner. Land identificou a crítica que progressivamente dissolvera toda ideia de verdade enquanto correlata filosófica de um sistema econômico capitalista preso em constante expansão revolucionária, movendo-se para cima e para fora na trajetória de uma tecnológica e científica geração-inteligentsia que iria, no limite, fazer o salto de seus corpos humanos biológicos para o grande além. Para Land, assim como para Nietzsche, a morte de Deus resulta em última instância no desejo de ser destruído, com capitalismo sendo o agente desta destruição: Como Alex Williams escreve em e-flux

Nesta visão do capital, mesmo o humano em si pode eventualmente ser descartado como mera parte para uma inteligência planetária abstrata rapidamente construindo-se dos fragmentos de civilizações passadas. Como Land pensa, através da aceleração do capitalismo global o humano será dissolvido em uma apoteose tecnológica, efetivamente experimentando um suicídio em termos de espécie como último estimulante intelectual.

Se você procura por uma comparação da cultura pop, Rust Cohle encontra Ray Kurzweil pode ser apropriado.

O trabalho de Land não era nem sistemático nem posicionado para o sucesso acadêmico; era estiloso, agressivo, e polêmico, e apesar de algum trabalho anterior formalmente convencional, em meados da década de noventa, textos Landianos como “Machinic Desire” e “Meltdown” pareciam mais um sci-fi com uma filosofia densa do que algo que você provavelmente encontraria em Jstor. Ainda que uma geração recente de filósofos como Ray Brassier, Alex Williams e Reza Negarestani começaram a se influenciar pelo trabalho de Land, isto não era filosofia para uma sala de conferências. Em 1998, ele resignara de sua posição em Warwick para fazer um trabalho mais radical com um grupo de leais estudantes de graduação, antes de deixar a Inglaterra rumo a Shanghai.

Land sempre teve uma relação complicada com a política de esquerda da academia; ainda que um “Marxista” de algum tipo, ele era um ávido apoiador do capitalismo, e costumava tratar o que ele via como uma desesperançosa e nostálgica esquerda com brincadeiras e derisão. Não até sua mudança para a China, no entanto, Land surgira como um grande pensador da extrema-direita. O mais compreensivo relato desta transformação é seu ensaio de mais de 27000 palavras, “O Iluminismo de Trevas,” onde Land deixa, além de outras coisas, uma longa crítica da democracia. É desfocada, mas é uma das peças mais lidas de textos neorreacionários na internet, e Land enquadra convincentemente a neorreação como um descendente direto de pensamentos antigos conservadores, libertários e liberais clássicos. Ele também provê citações que saltam aos olhos, como a seguinte, útil para jornalistas que tentam sumarizar:

Para os neorreacionários hardcores, democracia não está apenas arruinada, ela é a ruína em si. Fugir dela leva a um imperativo último… Pré-disposto, em qualquer caso, a perceber o acordar político das massas como uma turba irracional a gritar, [a neorreação] concebe a dinâmica da democratização como fundamentalmente degenerativa: sistematicamente consolidando e exacerbando vícios privados, ressentimentos, e deficiências até que ela encontre o nível de criminalidade coletiva e compreensiva corrupção social.
For the hardcore neo-reactionaries, democracy is not merely doomed, it is doom itself. Fleeing it approaches an ultimate imperative… Predisposed, in any case, to perceive the politically awakened masses as a howling irrational mob, [neoreaction] conceives the dynamics of

A ideia de Land sobre a disfunção democrática é informada de maneira simples. A Democracia é estruturalmente incapaz de uma liderança racioanl por causa de perversas estruturas de incentivo. Ela está presa no curto-prazo pelo ciclo eleitoral, decisões duras viraram suicídio político, e catástrofe social é aceita enquanto ela pode ser usada para culpar o adversário. Além disto, a competição entre partidos para “comprar votos” leva a um efeito de aumento de intervenção estatal na economia — e mesmo se isto é periodicamente revertido, no longo prazo ele só se move em uma direção. Nos EUA, a pobreza racializada faz esta dinâmica ainda pior. Porque as soluções de “small government” sempre terá um impacto díspar em minorias, eles serão interpretados e estigmatizados como racistas. Laissez-faire, neste ponto de vista, é danado a falhar assim que o voto possa revertê-lo. Ao invés de aceitar um assustador socialismo democrático (que leva a um “apocalipse zumbi”), Land preferiria simplesmente abolir a democracia e eleger um CEO nacional. Este Leviatã Capitalista seria, no mínimo, capaz de planejar racionalmente no longo prazo e alinhar incentivo a estruturas individuais com bem estar social (CEO como Tiger-Mom). Indivíduos não teriam a palavra no governo, mas geralmente seriam deixados em paz, livres para deixar. O direito a “sair” é, para Land, o único direito importante, e é oposto à “voz” democrática, onde todos podem falar, mas é preso às decisões da maioria — o medo sendo aquele de que a maioria deseje se auto-imolar.

Sentimento antidemocrático é incomum no Ocidente, então as conclusões de Land soam chocantes, provocações deliberadas, que em parte elas são. Mas ainda que suas prescrições para uma “ditadura corporativa” — adotada de Moldbug — são obviamente radicais, a crítica da democracia não o é. Land apimenta seu ensaio com citações de Thomas Jefferson, John Addams e o herói cultural ressurgente Alexander Hamilton para levar até em casa o ponto de que nossa Constituição é construída em um similar medo das pessoas (um ponto costumeiramente mencionado pela esquerda), e suas análises devem muito a cientistas políticos do mainsteram como Mancur Olson e Jim Buchanan, que passaram adiante relatos cínicos de como governos “democráticos” existem especificamente para servir grupos de interesses entrincheirados e burocratas egoístas. Estes homens sentiram que a liberdade (negativa, econômica) só poderia surgir através de uma moldura política e particular legal — e não uma a qual a população como um todo poderia aceder.” Neorreação simplesmente leva isto ao seu próximo passo lógico, de acabar com a necessidade de processo eleitorais. Apontando para Singapura, Hong Kong e Shanghai, ele argumenta que governos economicamente e socialmente eficientes legitimizam a si próprios, sem necessidade de eleições. E esta visão não é limitada à direita da internet. O professor de Harvard, Graham Allison, atualmente mostrou opiniões similares em The Atlantic e HuffPo. O fato que este sentimento está sendo demosntrado é menos uma aberração do que um retorno à norma.

Esta forma de capitalismo autoritário tem um quê de fascista, mas é na verdade mais próximo de uma tecnocracia capitalista rigidamente formalizada. Não há mobilização de massas, reorganização social totalitária ou culto à violência aqui; governar será feita pelos governadores, e soberania popular substituída pelo mercado Mandado do Céu. Existe um estranho tipo de conservadorismo cultural desiludido aqui também, ainda que seja absolutamente liberado de moralismo. De fato, o que é genuinamente aterrorizante sobre isto é sua falta de ligação emocional quasi-sociopata; é um tipo de funcionalismo baseado puramente em incentivos, como se saísse da perspectiva de um computador ou alien. Se a pessoa não produz valor quantificável, elas são, objetivamente, sem valor. Qualquer coisa além é sentimentalismo.

Como relato da democracia, “O Iluminismo das Trevas” é, como eles dizem, problemático. Deixando de lado os problemas éticos gritantes (incluindo uma longa porção do ensaio devotado a falar sobre os aspectos do racismo NRx), existem algumas preocupações factuais. Uma delas, é que governos autoritários não parecem ser mais estáveis que democracias, e a America pós-Citizens, completa com assustadores aparatos de drones assassinos pelo mundo e um estado obscuro ctônico e sem leis, não é exatamente um paraíso democrático. E enquanto você pode argumentar que a esquerda domina nos departamentos de humanidades na Ivy League ou a mídia de prestígio, isto não significa que tenham uma influência direta na política. O crescimento de gastos em relação ao PIB cresceu nos últimos 100 anos e nós nos libertamos sobre sexo, mas as tendências para níveis de impostos, pagamento a CEOs, renda média e densidade de sindicatos, sugerem que qualquer tipo de “influência advinda da esquerda” não é tão simples quanto parece.

Posto isto de lado, a política de Land não é simplesmente o desvario lunático de um redditer que tomou a pílula vermelha; mesmo que você odeie eles, eles podem ser uma descrição razoavelmente realista de o que deveria acontecer para o capitalismo laissez-faire voltar. O aspecto mais intrigante do trabalho de Land, no entanto, não é sua filosofia política, mas o futurismo obscuro no qual ele é desenhado. Ainda que suas políticas mudaram consideravelmente, e ele hoje é mais propenso a citar economistas austríacos do que niilistas frances, Land na verdade nunca abandonou sua visão do capitalismo como fim do jogo. Se outros neorreacionários estão preocupados com a ordem ou a preservação da raça branca, Land ainda vê o capitalismo como uma máquina desumana nos carregando a um futuro distópico — e seu projeto é para nos prevenir de destruir esta máquina.

Capitalismo, nesta visão, é menos algo que nós fazemos do que algo que fazem conosco. Contra a classe empresarial sobre o mercado enquanto locus de expressão criativa, para Land, assim como para Marx, capitalismo é fundamentalmente uma instituição externa na qual “os meios de produção socialmente impõem-se como um imperativo efetivo.” Isso simplesmente significa que a dinâmica competitiva do capitalismo leva o progresso técnico como uma lei de ferro. Se um capitalista não quer construir máquinas melhores e mais espertas, ele será destruído pela concorrência por quem o faça. Se a Apple não faz de você um babaca, o Google o fará. Se os EUA não gera super-bebês geneticamente modificados, a China irá. O mercado não funciona com base na “ganância,” ou qualquer outra intencionalidade de seu tipo. Sua beleza — ou horror — é sua impersonalidade. Ou você adapta, ou você morre.

Acelerando o crescimento tecnológico, então, está escrito no DNA do capitalismo. Máquinas inteligentes nos fazem mais inteligentes permitindo-nos fazer máquinas ainda mais inteligentes, em um loop de feedback que rapidamente começa a se aproximar o infinito, melhor conhecido neste contexto como “singularidade.” Claro, como por definição você não pode alcançar o infinito, o que esta singularidade realmente representa é a destruição no processo de extrapolação; alguma coisa acontece — uma “mudança de fase,” no patois cibernético — que muda a dinâmica de todo o sistema. Este pode ser um colapso de sistema, e de fato, loops de feedbacks positivos se destroem de maneira costumeira uma vez que eles consomem todos os insumos que fizeram eles possível em primeiro lugar. Outra opção, no entanto, é a emergência de algo totalmente novo em um nível mais alto de organização. Um exemplo seria a mudança de organismos unicelulares para multicelulares, ou, mais diretamente ao ponto, da inteligência biológica à inteligência artificial.

Land crê que essa mudança para a Inteligência Artificial é para onde estamos sendo guiados. Para alguém como Kurzweil, essa intuição é construída com um misticismo levemente new-age e a promessa de vida eterna. Para Land, ela basicamente significa a morte das espécies. Land ridiculariza a ideia de que uma IA muito mais inteligente do que nós poderia ser feita para servir nossos objetivos — afinal de contas, é improvável que nós pudéssemos programá-la de maneira mais completa do que a evolução já nos “programou” com drives biológicos, os quais nós regularmente desafiamos. Tentativas de parar o surgimento da IA, ao fim, será fútil. Os imperativos da competição, seja entre firmas ou estados, significa que qualquer coisa que seja possível tecnologicamente provavelmente será utilizada mais cedo ou mais tarde, independente das intenções políticas ou preocupações morais. Estas são menos decisões que são feitas do que coisas que acontecem graças a uma dinâmica estrutural irresistível, além do bem e do mal. Land compara esta campanha de acabar com a IA a Assembleia Laterana de 1139 que tentara banir o uso de bestas contra cristãos, mas ele poderia muito bem ter citado a bomba atômica; os EUA fizeram porque nós pensamos que se nós não fizéssemos, os alemães o fariam.

É claro, reconhecendo estas tendências, humanos poderiam razoavelmente tentar para-las. E, de acordo com Land, isso é tudo que a política significa. “A Catedral,” tipicamente identificada por neorreacionários como o aparato de controle da mente da mídia e academia, é para ele mais que a soma total de todos os esforços políticos de governar esta máquina. Ele escreve:

A Catedral adquire sua definição teleológica de sua função emergente como cancelação do capitalismo… ‘Progresso’ em sua totalidade, madura, e ideológica encarnação é a anti-tendência necessitada para fazer a história parar. Considere o que é necessário para prevenir a aceleração em uma singularidade tecno-comercial, e a Catedral é o que ela será.

A meta-narrativa Landiana é assim: em um mundo pré-moderno, a humanidade foi presa por limites Malthusianos — crescimento leva a crescimento populacional, destruindo a oferta de comida, e colapsando ao ponto anterior via praga ou fome. “Escapatória” desta armadilha se tornou possível uma vez que capitalismo gerou um loop de feedbacks de crescimento produtivo e tecnológico forte o suficiente para se libertar tanto dos limites ambientais quanto das estruturas religiosas pré-modernas e as políticas estruturas que mantiveram o mercado de engolir a sociedade. Esta escapada, no entando, produziu crise e deslocamentos junto do progresso material — o horror Dickensiano da Manchester do século XIX. Eventualmente no Ocidente ao menos, a sociedade foi capaz de se “reescrever” no mercado na forma de capitalismo social-democrático, de bem-estar, controlando as rédeas do mercado subordinando-a as vontades humanas. Isto é para Land o que significa “progresso,” e para ele, é um desastre histórico-mundial.

Libertários como F.A. Hayek tipicamente argumentaram que este tipo de intervenção estatal destrói os sinais de preço necessários para fazer as decisões econômicas, produzindo distorções e maus investimentos como um resultado inevitável. Land dá a isso um twist cibernético — em seu ponto de vista, a gerência de economias motivada politicamente nega o feedback necessário do mercado para sustentar um crescimento acelerativo, levando o sistema como um todo a um equilíbrio, onde nós podemos uma vez mais encontrar aqueles limites Malthusianos. Neste ponto de vista, para onde quer que seja que o capitalismo esteja nos levando, “a Catedral” é o que nos está impedindo de chegar lá.

No longo prazo, no entanto, o capitalismo é difícil de controlar. Por um lado, a social democracia não parece ser um conserto sustentável. A era dourada do Estado de Bem Estar Social Ocidental — aproximadamente de 1945 a 1973 — parece ter sido uma espécie de acidente bizarro da história. Dado isto, como Thomas Piketty argumentou, ocorreu diante de um número de condições especiais que são improváveis de se repetir. Além disto, o capital é elusivo, global e descentralizado, enquanto a soberania política se mantém ligada a unidades territoriais. Provavelmente o mais mortal de tudo é que o capitalismo é veloz, enquanto a deliberação democrática é lenta. O mercado gera novas realidades antes que nós tenhamos tido tempo de chegar a um acordo sobre o que fazer sobre o velho, e esta tendência se intensifica exponencialmente (ou hiperbolicamente) a níveis mais altos de desenvolvimento tecnológico. Como Land escreve sobre um salto recente na tecnologia de interface cérebro-máquina:

O passo da lunática especulação da ficção científica para procedimentos tecnocientíficos estabelecidos é cada vez mais feito antes de qualquer tipo de discussão engajada, sem um intervalo para uma reflexão social séria. Isto é aceleração como ela realmente ocorre. Não é um novo tópico para pensamento prolongado, é o fato de que o tempo para o pensamento prolongado — e o seu espaço associado para considerações ético-políticas coletivas — não vai jamais estar de volta a disposição.

Assim como todo futurismo, é difícil saber o que tem relação com isto ou isto tem com a realidade. Previsões são difícieis. E mesmo que estes cenários sci-fi são toda esta fúria entre experts, o ônus da prova desta recai sobre aqueles que felicitam a chegada da SkyNet.

Ainda assim, todos os sinais apontam para nós vivendo na beira de algumas grandes mudanças na humanidade, Slavoj Zizek, o filósofo comunista popular, identificou uma quantidade de tensões do século XXI que ele crê serem insolúveis dentro da moldura democrático-capitalista, incluindo catástrofe ecológica e as mudanças trazidas pela biogenética e toda sorte de avanços tecnológicos. À parte de pequenas rusgas sobre detalhes, a proposição de que a democracia liberal ocidental pode estar sendo levada a seu ponto de ruptura parece correta. Se, como economistas do trabalho argumentam, 47% dos empregos americanos possam ser, em breve, automatizados, o autoritarismo de Land parece mais um relato convincente de o que será necessário para preservar o capitalismo ao invés daqueles bondosos olhos pensadores da economia colaborativa.

De maneira mais geral, críticos do capitalismo argumentaram de maneira costumeira que é um sistema desumano, e que nossa tarefa é de alguma maneira sujeitá-lo a nossa vontade política coletiva. Se nós não o fizermos, ele nos destruirá. Land concorda que este é o ponto em questão, mas se alinha ao capitalismo mesmo assim. E se “a Catedral” é um nome para tentativas de puxar o freio de mão na máquina capitalista, a neorreação de Land é uma espécie de Satanismo secular, sugerindo efetivamente que talvez seja melhor a gente acabar com isso mesmo assim. Ou — talvez ainda mais assustador — que talvez sequer tenhamos mais uma chance. Como o autor e artista sci-fi Doug Coupland recentemente escreveu no FT:

O pensamento mais escuro de todos talvez seja este: não importa quanta política é aplicada na internet e suas tecnologias, talvez seja apenas tarde demais no jogo para mudar o futuro. A internet vai fazer conosco o que ela desejar fazer, e o mesmo fim dos tempos será alcançado não-importando a vontade humana. Gulp.

Isto é uma conclusão assustadora, com certeza. É também altamente especulativa e pode muito bem ser insana. Mas o presente nos oferece alguns flashes dos tentáculos proto-reacionários que pode terminar no monstro polvo do Iluminismo das Trevas. Por exemplo, ideias próximas já estão começando a entrar no Partido Republicano: Como Evan Osnos recentemente detalhou no New Yorker, a campanha de Trump é — querendo ou não — um conduíte para políticas nacionalistas brancas entrarem no mainstream cultural, e autores abertamente afiliados com o NRx começaram a aparecer em programas e locais de direita grassroots como o Daily Caller. Além disto, enquanto a direita estabelecida aceitou as derrotas na guerra cultural com graça, fúria com esta rendição está obviamente borbulhando além da superfície. Em um talvez menos perigoso, mas relacionado fenômeno, Gamergate e o recente Hugo Awards drama — assim como as subculturas Pick-Up Artists e red-pill (conhecida como manosphere) — todos levam a um contingente cada vez mais explícito de principalmente brancos, bem educados e homens com simpatias iliberais próprias.

O Vale [do Silício] é famoso por sua impaciência com a política formal. Raramente, no entanto, isto é tão brutamente articulado como no discurso de Peter Thiel em 2009 — alegremente citado por Land — que ele “não acredita mais que liberdade e democracia possam ser mais compatíveis.” Isto é um discurso incrível para uma pessoa de sua posição, e fala muito sobre. Mesmo que Thiel seja o único titã do Vale bravo ou estúpido o suficiente para expor sua opinião em público, um pode ter certeza que muitos outros concordam de maneira privada. Anti-democracia, no entanto, não precisa ser explícita assim para ser efetiva. Oligarcas do Vale não precisam ser convencidos de que a democracia é a raiz de todo mal, eles só precisam pensar que nossas instituições democráticas são ilegítimas ou simplesmente não otimizadas o suficiente. Uber, em sua campanha contra o prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, foi capaz de argumentar de maneira bem sucedida de que eles eram os verdades guardiões da vontade popular contra um governo preso a interesses especiais e incapaz de entregar serviços. Uber pode dar o que o povo quer, rápido e melhor que o estado. Se deve existir um voto, os consumidores podem fazê-lo com suas carteiras.

Nick Land, como Moldbug e outros muitos neorreacionários, tipicamente rejeitam o termo “fascista.” De fato eles tem boas razões para tal: apesar do racismo e autoritarismo do NRx, sua política econômica é mais próxima da Singapura de Lee Kuan Yew do que do Reich de Hitler. Mesmo assim, há um problema. Land é um elitista, mais leal ao QI do que à etnicidade, e com um desgosto marcado pelos “proletários desarticulados” da ala nacionalista branca reacionária. Mas Land nota que é principalmente estes “proletários” que fazem a maior parte da atual “reactosfera,” e que “se a reação em algum momento virar um movimento popular, suas pequenas linhas finas burguesas (ou, talvez de maneira sonhadora, aristocráticas) a civilidade não seguraria a besta por muito tempo.” É totalmente possível que a reação nunca realmente vire um movimento popular — um novo boom econômico, por exemplo, faria muito pra acalmar a raiva da qual eles se alimentam — mas se ele tivesse que crescer, a aliança proposta de conveniência entre a rica elite tecnológica e uma política identitária branca intransigente começa a parecer bastante com a coalizão Nazista de industrialistas alemães e a classe média cada vez mais empobrecida. Isto não significa que isto seja “fascismo,” uma terminologia tão ampla e tão particular que quer dizer tudo e ao mesmo tempo nada nos dias de hoje, per se. Mas no século XXI, pode ser o Iluminismo das Trevas que nós teremos, no entanto.