A cultura do estupro e como eu tive que brigar para provar que não tive culpa de ser estuprada aos 18 anos

Foram essa comoção e essa discussão sobre a violência contra a mulher que me levaram a escrever este texto. Espero que todos entendam que quis preservar minha identidade por dois motivos: não quero despertar a pena de ninguém, nem fazer minha família sofrer novamente com essa história.

Sou uma mulher muito bem resolvida e considero o episódio superado. Fui vítima de um crime, mas isso já passou. Foi há quinze anos. Apesar das marcas, não gosto da vitimização. Quero apenas compartilhar o meu lado nessa discussão sobre violência e cultura do estupro — o lado de quem foi estuprada.

Foi por um desconhecido. Na rua. Eu voltava da aula de inglês por volta das dez da noite. Tinha 18 anos recém completados. Geralmente meu pai ia me buscar na escola de idiomas, mas neste dia ele viajava a trabalho. Contrariando minha mãe, eu resolvi ir a pé.

Era uma noite quente, mas chovia. Há três quadras de casa um rapaz com uma bicicleta parou para pedir informações sobre um endereço e começou a me acompanhar pela rua. Meus instintos devem ter falhado, pois eu não quis sair correndo. Fiquei apreensiva, mas continuei andando. Pensei até que ele podia estar me acompanhando pelo risco de uma jovem andar na rua àquela hora da noite sozinha. Era mesmo um risco.

Eu usava uma calça jeans e uma camiseta de fio. A uma quadra de casa ele me agarrou pelos cabelos molhados e começou a fazer ameaças. Disse que se eu gritasse, me matava. Sim. Foi violento mesmo. Nem adiantou porque o terror fez minha voz desaparecer. Meus gritos seriam inaudíveis para alguém a poucos metros dali.

Fui estuprada em um terreno baldio, às costas de um muro, a poucos metros da minha casa. Eu era virgem. Ele era violento e eu temi pela minha vida. Queria muito sobreviver, muito mesmo.

Tentei fugir. Não consegui. Ele me parou e me levantou pelo pescoço, me ameaçando.

Segundo a advogada que me atendeu depois (já vamos chegar lá) ele poderia ter me matado porque não gozou.

Só que uma inspiração, que considero ser algo de Deus, me livrou da morte. De repente eu disse ao estuprador, no meio do ato, que ele poderia me ligar e nos encontraríamos outro dia. Ele acreditou. Passei meu telefone. Não tive tempo de pensar em inventar um número e nem sei como tive coragem ou criatividade para inventar aquilo e ainda ser convincente. Ele me deixou ir embora, dizendo que se eu contasse a alguém, me mataria, pois sabia onde eu morava.

Foi a experiência mais dolorosa e horrível da minha vida. Acho que idioma nenhum tem palavras para descrever o terror e a sensação de nojo de uma mulher estuprada.

Cheguei em casa chorando, tomei um banho e minha mãe pediu aos vizinhos que nos levassem à polícia. Prestei queixa, fui ao IML para o exame de corpo de delito e no dia seguinte fui com minha mãe até a delegacia da mulher. Lá fui muito bem atendida por delegados atenciosos que queriam pegar o desgraçado e colocá-lo na cadeia.

No mesmo dia o estuprador ligou. Foi aterrorizante. Com ajuda da polícia instalamos um identificador de chamadas e monitoramos as ligações do estuprador por duas semanas. Até que os policiais conseguiram armar uma arapuca e prendê-lo em flagrante enquanto estava ao telefone comigo.

Passamos o dia na delegacia, fiz o reconhecimento do criminoso por uma porta com olho mágico. Assinei uns papeis. Achei que o pesadelo estava acabado. Ele estava preso, agora não era mais problema meu.

Nem meu, nem da minha família. Nunca vi meus pais sofrerem tanto. Talvez ver a dor deles tenha sido até mais difícil do que sentir a minha própria dor.

Foi então que descobri que a cultura do estupro está mais viva em nossa sociedade do que nunca. É como se a mulher merecesse ser estuprada, não sei como explicar. E isso é tão forte, que meses depois do estupro eu me sentia culpada por me recuperar. Contei com o apoio absoluto da minha família e dos meus amigos, mas sentia que algumas pessoas ainda me olhavam esperando que eu começasse a chorar a qualquer momento, ou então, que nunca mais sorrisse. Precisei de uma força interior gigantesca, pra rebater essa sensação e seguir minha vida sem traumas. Descobri que muito maior do que a violência física e psicológica que sofri, é a violência da sociedade que defende o homem creditando seus crimes a instintos idiotas e recrimina a mulher.

Meses depois do estupro, recebi uma intimação judicial em minha casa me convocando a depor. Desesperada, pedi orientação à mãe de uma amiga, advogada. Ela sugeriu que eu fosse até o fórum para olhar o processo e fizesse uma cópia.

Um advogado, contratado pelo estuprador, fez o acusado dizer que eu havia inventado a história do estupro para justificar aos meus pais meu atraso. Que era tudo mentira e o ato sexual aconteceu por minha livre e espontânea vontade.

Eu queria vomitar sobre aquelas páginas.

Descobri que o defensor público designado para o caso, pouco podia fazer. O advogado tinha várias testemunhas, até a esposa do estuprador (que na delegacia dizia não ser casado) dava um depoimento sobre a idoneidade dele.

Contratamos uma advogada, eu e meu pai. Eu não tinha na época, nem tenho hoje, sentimento algum de vingança. Nunca desejei que ele apodrecesse na cadeia. Meu único desejo era que aquela farsa fosse desmascarada e que ficasse claro que ele era um estuprador. Que me ameaçou de morte, me violentou e que tudo foi contra a minha vontade.

A novela se estendeu por pelo menos mais dois anos.

A família dele chegou ao ponto de bater na porta da minha casa e implorar a minha mãe que eu retirasse a queixa, pois ele estava preso temporariamente. Meu Deus, eu fui estuprada, violentada, ameaçada de morte e eles queriam que eu retirasse a queixa? Esta foi, depois do ato em sim, uma das maiores violências que sofri.

Aqui ainda cabe outra consideração sobre a cultura do estupro. Nós mulheres, somos criadas sob essas regras e tabus religiosos e preconceituosos. E por mais que eu soubesse o tamanho da violência que havia sofrido, muitas e muitas vezes, me perguntei se não era minha culpa. Diversas vezes me peguei pensando, se, durante o percurso daquelas quadras em que o estuprador fingia pedir informações, eu dei algum sinal, mesmo que inconsciente, que desejava o sexo. Sim, eu pensei isso. E posso garantir, como os psicólogos afirmam também, que a mulher estuprada sente tanta vergonha que chega a se culpar. Por isso milhares de mulheres que são vítimas de violência sexual todos os dias, seja por um desconhecido, seja por um amigo ou parceiro, não denunciam.

No momento em que cheguei em casa, meu único pensamento era ir até a delegacia. Mas depois de todo o sofrimento que o processo judicial causou a mim e a minha família, preciso admitir que entendo as mulheres que se calam. Mesmo não concordando com o silêncio, eu as entendo. E mesmo tendo sofrido, nunca me arrependi de ter lutado pela minha inocência. Jamais poderia colocar minha cabeça no travesseiro em paz novamente se não tivesse ido até o fim naquele caso.

Minha advogada levou às audiências minha chefe, meus pais, alguns colegas e até vizinhos. E sabe porque isso foi necessário? Para provar ao juiz que eu era uma moça direita. Sim, mais uma violência, afinal, o que é ser um moça direita? Ou como isso pode justificar um crime bárbaro como o estupro? Quer dizer que se eu fosse uma adolescente rebelde, que se saísse à noite com frequência ou tivesse vários namorados, era possível que estivesse mesmo mentindo sobre o estupro? Para a sociedade, provavelmente sim.

Por isso eu entendo as mulheres que não denunciam, mas preciso dizer a elas: se vocês não enfrentarem essa sociedade, ela vai continuar massacrando cada vez mais e mais mulheres. Vai continuar transformado as vítimas em réus e os criminosos em vítimas. Não importa se houve sexo ou se o homem assediou moralmente, ou se passou a mão. Se foi sem o seu consentimento, denuncie. Homem nenhum tem instintos animais incapazes de serem controlados. Isso não é instinto, é crime.

Depois de várias audiências e de confrontar os depoimentos do estuprador, a justiça percebeu que ele se contradisse em praticamente todo o processo, afinal, estava mentindo. A sentença o condenou por estupro, atentado violento ao pudor, na verdade. Não me recordo qual o tempo de pena e nem me interessava saber. Eu queria apenas o veredicto de que ele estava mentindo.

Anos depois fiquei sabendo que o estuprador fugiu e nunca cumpriu a pena. Embora seja triste saber que não houve punição, também não me interessava vê-lo ou não na cadeia. Ele passou mais de 100 dias preso e a julgar por tudo o que os delegados me disseram, ele não voltaria a violentar uma mulher.

E é por isso que nós mulheres, precisamos lutar. Se um homem não é punido por violentar uma mulher, ele vai voltar a fazê-lo, seja com a mesma vítima, seja com outras.

E pra você, que acha que o feminismo ou qualquer discurso sobre a violência contra a mulher é apenas uma corrente política, ou uma reclamação qualquer, fica o convite a ler este relato novamente e imaginar que, em meu lugar, poderiam estar sua esposa, sua filha, sua namorada, sua irmã, sua mãe. Espero, de todo o coração, que elas nunca sofram um tipo de violência semelhante ao que eu sofri. E para que isso aconteça, é preciso mudar o pensamento comum e lutar pelo respeito integral à mulher.

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