Uma semana sem café no trabalho: estive lá (e voltei para contar)

Foi na terceira pausa do dia para pegar um café que tudo começou:

— Ei, vem cá — me chamou um numa roda com 3 colegas — Sabia que, em média, o consumo de café por pessoa por dia aqui na empresa é de 800 mL?

Eu não sabia.

Usei o que ainda me restava de energia (afinal, eu precisava desesperadamente de um café) para forjar minha melhor expressão de choque.

O cálculo até poderia estar superestimado. Baseava-se na produção de 90 litros no período de uma manhã de um dia qualquer para projetar o volume sorvido da infusão negra e cheia de cafeína que move a locomotiva do poeta menor

Mas a matemática poderia estar subestimando o potencial dos compulsivos tomadores de café: nem todos os funcionários estavam na empresa naquela manhã — ausências eventuais por falta, reuniões externas, férias — e nem todos os presentes tomam café (chás, refrigerantes, sucos e água são preferidos por uns tantos).

Depois, com faro investigativo, averiguei que são 20 pacotes e 500g de pó de café todos os dias para as térmicas (10 kg/dia), o que não inclui eventuais máquinas de expresso espalhadas aqui e ali por iniciativa de um ou outro time da firrrma. Segundo a revista CaféiCultura, cada quilo proporciona 10 litros de café como nós o conhecemos.

A Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café) usa uma proporção diferente, de 16,5 L/kg. Segundo a entidade, no Brasil, em 2015, a média per capita ficou na casa dos 81 litros por ano, o que equivale a 4,9 quilos de pó por ano por brasileiro e brasileira. Posso dizer que andei ajudando a elevar o nível dos 220 mL por dia.

Coados pela média das medias e considerando eventuais perdas, digamos que cada um dos 10 quilos lá do escritório produza seus, digamos, 16 litros, chegamos perto dos 180 L/dia do cálculo da turma.

É, taí… E daí?

Médias, medianas, modas e desvios padrão importam pouco para além deste ponto.

Importa uma conta bem mais simples: minha terceira xícara no trabalho (sem contabilizar o café da manhã, em casa) provavelmente representaria que eu ultrapassava a média geral e isso me parecia muito, mas muito café.

Quanto de café por dia ainda é “moderação”?

O aviso “Beba com moderação” e seus derivados é um alerta que nos acostumamos a ver em anúncios de bebidas alcoólicas. Mas, em se tratando de saúde, o consumo de provavelmente qualquer tipo de bebida ou comida deva ser feito, idealmente, com base em quantidades adequadas… Mas a tal moderação pode ser subjetiva.

No caso do café, moderação seria menos de 600 mL da versão coada, segundo o livro “Cérebro, Café & Drogas” , de. Darcy Roberto Lima. Só que essa quantidade levaria a média per capita nacional a 219 litros anuais, 2,5 vezes o patamar atual. Parece uma conta de alguém interessado em promover a bebida quente, de origem nas terras altas da Etiópia no século IX.

Tomando pela quantidade de cafeína, cada xícara de 50 mL tem 25 mg de cafeína, 500 mg por litro, portanto.

Fontes não isentas e insuspeitas falam de 400 mg de cafeína por dia como um patamar saudável (fazendo as contas, são os nossos 800 mL/dia?). Mas 17 g poderia ser uma dose até letal. Melhor evitar ir tão longe.

De 0 a 100: ou de 800 mL a 80 mL

Num exercício de gamificação da vida, propus a mim mesmo um desafio:

Uma semana sem tomar café no serviço.

A hipótese:

Minha produtividade não seria abalada e isso é tudo.

Melhorias digestivas e de qualidade do sono eram esperadas, mas não estavam ali para serem testadas, até porque faltariam indicadores (minutos com azia qualificada; horas de sono recorrentes e novas… é, não funciona). A métrica da produtividade? O resultado do trabalho daquela semana.

Na autonegociação de mim para comigo mesmo (papo de louco), foi fácil de me convencer a liberar o cafézinho durante o café da manhã, fora do expediente, bem como chá (preto ou mate, se fosse o caso) durante o horário de trabalho. Em contrapartida, nada de mudar a rotina. Ou seja, eu teria de manter pausas periódicas no trabalho, bem como os demais hábitos alimentares e a média de horas de sono. Tudo para que o experimento agregasse alguma conclusão não óbvia.

Ah, também optei por fazer essa onda toda sem alarde, sem compartilhar com os colegas de trabalho. Para não “contaminar” o ambiente e nem me cercar de conversas repetidas sobre como a Internet transforma café em bytes e código, ou dissertações sobre a “vida sem café”. Até porque não era um compromisso eterno nem uma posição ideológica. Só um teste.

Café preto, na xícara. Foto:Julius Schorzman/ Commons Wikimedia CC 2.0

Uma semana sem café: o que vi quando estava lá

A seguir, um resumo em forma de diário, em série de tweets que nunca publiquei antes:

Segunda-feira
- Sono intenso nas reuniões matinais. 
- Usei muita força de concentração para driblar o arrependimento de ter encarado essa ideia de jerico de ficar sem café. 
- Durante o dia, tudo normal, exceto por um ou outro momento de vontade (ou seria puro hábito, reflexo condicionado?) durante pausas.

Terça-feira
- Duas reuniões de “vamos tomar um café e conversar?” passaram bem, só na água. 
- Bateu uma sensação de “motorista da vez” em mesa de bar, só que ao contrário. 
- Gás total, em um dia intenso, exaustivo. Mais um dia ganho.

Quarta-feira
- Mais momentos críticos. Também o mais disperso. 
- Curiosamente, o que teve mais finalizações de entregas e desobstruções de impedimentos. Difícil explicar.
- Foram 2,5 L de água durante o dia. Compensação?

Quinta-feira
- Sonolência esparsa no decorrer do período com vista nebulosa a qualquer hora do dia ou da noite. 
- Por 3 vezes, bateu a certeza de que não valia a pena, que era sem propósito, que ninguém sabia mesmo. Mas Deus tá vendo.
- Dureza de segurar, mas alcancei o fim do dia.

Sexta-feira
- Em clima de “ladeira abaixo”… a sexta foi repleta de reuniões.
- Duas xícaras de chá e um monte de água. 
- Semana quase acabando, e eu me segurando na base do “foca no experimento”
- Sucesso total. E uma cerveja, por favor.

Conclusão: o que aprendi, afinal?

O óbvio não conta como aprendizado, porque todo mundo já sabia, certo?

Mas só pra lembrar: 
- Senti mais sono, sim, embora isso não possa ser medido.
- Dormi melhor.
- O cheiro de café recém-passado despertou muito mais vontade do que em qualquer dia das semanas anteriores
- Digestão melhor, mas nenhum paraíso da “fritura à vontade” nem molho de tomate de baciada (só pra citar dois dos arqui-inimigos do meu esôfago).

E a produtividade?

Todas as entregas a que me propus na semana foram completadas. No fim do dia de sexta, perguntei a duas pessoas que trabalham por perto se, por acaso, elas haviam percebido alguma diferença de comportamento, tempo de reação ou coisa que o valha. Ambos disseram alguma coisa como:

— Não… mas… agora que você falou…

Aparentemente estive um pouco mais aéreo e disperso.

Na semana seguinte, voltei à baila, ou melhor, às xícaras, só um pouquinho menos do que antes.

Café preto e amargo, para mim, por favor.

Gráos de café torrado. Foto: MarkSweep/Commons Wikimedia domínio público
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