Dia da história

Ser professor significa muitas coisas. Quando se ensina crianças, então, significa um universo de coisas a mais. Crianças ainda são inocentes, a maioria delas ainda desconhece as desgraças e as maldades da vida, do universo e de tudo mais. E é lindo, é tão lindo, ver aqueles pequenos humanos aprendendo, fazendo seus pequenos cérebros se desenvolverem, guardarem coisas noivas. É incrível ver o rosto de uma criança se iluminar ao conseguir fazer algo pela primeira vez, seja amarrar os próprios cadarços, seja somar dois e dois. A inocência de uma criança é tão linda que chega a doer. E dói ainda mais porque elas não percebem quando estão prestes a morrer.

Naquela quinta-feira eu estava com os pequeninos. Cinco anos. Primeiro ano de escola para muitos. Primeiras amizades da vida, primeiras interações com outras crianças para outros tantos. As quintas-feiras eram um dia especial. A gente sentava no chão e eu contava histórias a manhã quase toda. Os olhinhos das crianças brilhavam e eu contava e contava e contava. Não ouvi o primeiro tiro.

O que ouvi foram os gritos, fracos, que vinham do outro lado da escola. E quando parei pra prestar atenção o outro tiro veio. E junto com o tiro veio a onda de silêncio, atravessando sala depois de sala. Uma escola infantil em silêncio significa duas coisas: ou ela está vazia ou algo muito errado está acontecendo. Bom, adivinha só.

Mas como pedir para crianças de cinco anos ficarem quietas? Não conseguia ouvir direito. Parei a história e, sob gritos de protesto, fui até a porta. No corredor, ninguém. Nenhuma criança indo ao banheiro, nenhum professor correndo pra todos os lados tentando controlar a excitação infantil. Nada. E é estranho como a compreensão vem muitas vezes do nada. Meu estômago embrulhou e senti vontade de vomitar. Alguém estava matando pessoas dentro da escola.

Fechei a porta, engoli a bola na minha garganta e coloquei o sorriso mais alegre que consegui no rosto. ‘Hora do jogo!’ E as crianças gritaram, animadas. ‘Mas a gente tem que ficar em silêncio, esse é um jogo secreto!’ Minha voz tremia. A cabeça trabalhando a mil por hora. A porta do prédio estava longe, no andar de baixo. Tirar as crianças pela janela estava fora de cogitação. ‘Vamos brincar de espião agora!’ Novos gritos. Nova bola gelada escorregando até o meu estômago.

‘Lembrem das regras, precisa ser em silêncio!’ Os gritos viraram murmúrios animados, mas o silêncio não vinha. ‘ Tem um espião muito malvado na escola, e nossa missão é encontrar ele!’ ‘Mas como a gente vai encontrar ele?’ ‘A gente vai procurar, ué.’

Organizei as crianças em fila e falei que ia até a porta receber instruções do chefe. Olhei pelo vidro e vi uma sombra correndo a toda pelo corredor, seguida pelo tiro. Os passos pararam, substituídos por um barulho de algo caindo no chão. E vários gritos.

Meus pequenos, assustados, começaram a fazer MUITO barulho de novo. ‘SHHHHHHHHHHHHHHHH, o chefe pediu silêncio!’ Eu tinha voz de choro, e sentia lágrimas escorrendo pelo rosto. Limpei de qualquer jeito. Uma porta abriu. Mais gritos. Tiros. ‘Temos que ir agora, em silêncio!’ Eu sussurrava, e recebia olhares estranhos de volta. ‘Peguem a mão de um coleguinha e vamos!’

Saí, correndo pro outro lado. Virei um corredor e vi a porta da biblioteca aberta, escancarada. Enfiei todos ali e fechei a porta devagar. Ela tinha chave. Bendito medo pelos computadores. ‘O chefe mandou a gente vir até aqui e se esconder… naquele canto!’ Apontei para o lugar mais escondido que encontrei, atrás do balcão de revistas. Um grupo de crianças passou correndo pela porta naquela hora, seguidos pela professora, chorosa. Mais tiros. As minhas crianças gritaram. Pedi silêncio mais uma vez. ‘Profe, o que tá acontecendo?’ ‘A gente precisa ficar quieto, meu amor, ou o espião vai encontrar a gente.’ ‘Profe, por que tá todo mundo correndo?’ ‘Todo mundo tá fugindo do espião, que nem a gente. Quem ficar escondido em silêncio mais tempo ganha.’ Mais um tiro. Passos correndo pela porta. A porta do outro lado da biblioteca abriu com violência. Alguns alunos mais velhos entraram, chorando. Se arrastaram para baixo da mesa. Eu conseguia ver, mas estava escondido deles. Vi dois pés pararem na porta. Silêncio. E tiros.

Ali, na minha frente, vi crianças morrendo. Minhas crianças viram crianças morrendo. E gritaram. O pânico já estava além do controle. Os pés vieram em minha direção.

O rosto que vi não me era familiar. Um moço jovem me encarava por trás da arma. O que havia acontecido com ele pra fazer algo assim? Que mente doente entraria em uma escola e faria isso? Quem faria isso sorrindo?

‘As… as c-crianças não’ murmurei. Fechei os olhos e abri meus braços.

Ser professor significa muitas coisas. Significa amar filhos que não são seus. E significa mais ainda morrer por filhos que não são seus.

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