Planta

Aquarela de Yao Cheng (via Pinterest)

Eu não consigo ver o sol. Não consigo saber se o sol nasceu. Aliás, às vezes até consigo ver, mas nessas ocasiões minha única reação é duvidar de mim mesma e da minha própria percepção. “Você só pode estar inventando”, diz a minha consciência. “Não existe sol. Como você pode ser tonta a ponto de pensar que existe?”. Devo estar delirando, pobre de mim. Não existe sol. Existem apenas as trevas desse vazio em que me encontro. Poeira e solidão.

Minha visão está constantemente embaçada. As teias nos meus olhos não me deixam ver muita coisa, mas não devo reclamar. Ruim mesmo é quando as aranhas passam por elas, me fazendo quase morrer de pavor. Mas, apesar dessa situação desconfortável, não posso me mover. Por ironia do destino ou por descuido, acabei deixando que minhas raízes buscassem água nas profundezas do solo e me prendessem aqui. Estou fincada na terra, não consigo sair.

E sei que aqui, sozinha nessa mata fechada, estou indefesa. Sei que algo pode acontecer comigo a qualquer momento. O perigo pode vir de todas as direções. Não dá pra evitar, uma hora vai acontecer algo muito ruim e eu vou lamentar eternamente o fato de ter me deixado plantar. Mas nem é que eu queira sair daqui, ser removida para um vaso numa área urbana bem iluminada, ser regada todos os dias ou algo do tipo.

Eu só queria que me tirassem as teias dos olhos. Que podassem alguns galhos das árvores que bloqueiam a luz. Que me deixassem, enfim, desfrutar do sol e me sentir feliz por estar aqui.

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