Precisamos falar sobre Simonal

Minha experiência com a obra daquele que foi, talvez, o grande astro pop da música brasileira


Eu até tentei adiar, confesso. Planejava deixar para fazer isso ao publicar o próximo Albumlist (que agora passará a ser bimestral, para evitar a produção de textões que demandam 17 minutos de leitura). Mas resolvi escrever logo, movida pelo meu fascínio e admiração. Pois é, este é um texto sobre Wilson Simonal de Castro, aquele que talvez tenha sido o primeiro grande pop star brasileiro.

Já havia assistido ao documentário “Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei”, de Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel, numa aula de uma disciplina da faculdade, no ano passado. O filme me causou um misto de sensações que caminhavam entre o encanto e a tristeza, conforme descrevi neste texto no blog da disciplina em questão.

Quase um ano depois, após assinar o Spotify (bendito seja, inclusive), quis dar continuidade ao meu projeto iniciado em janeiro de 2015, aquele mesmo de ouvir um álbum por semana, aquele mesmo que estava atrasado havia semanas. E escolhi um álbum do Simonal pra escutar. Ou melhor, dois, porque estavam juntos numa compilação: “Alegria, Alegria”, de 1967, e “Alegria, Alegria Volume 2 ou Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga”, de 1968. Somando 77 minutos, os dois álbuns foram trilha das minhas demoradas voltas pra casa de toda tarde/noite.

Preciso dizer que a decisão de escutá-los foi tomada a partir da lembrança súbita de uma canção do Simonal que veio à minha mente enquanto eu estava em devaneios alcoolizados numa noite de sexta-feira. Era “Sá Marina” (Antônio Adolfo/Tibério Gaspar), uma cativante música cantada por ele numa das cenas finais do documentário, num contexto decadente e triste. Depois de ouvir a música por umas cinco vezes (e mais quinze vezes na segunda-feira seguinte), decidi conhecer os álbuns. Admito que fiquei repetindo “Sá Marina” algumas vezes durante o processo.

A experiência foi muito prazerosa, no geral. Percebi alguns aspectos que, aparentemente, são marcas registradas da carreira do artista, e que me fizeram lamentar profundamente, mais uma vez, os rumos ingratos da história. Simonal conseguia fazer uma música palatável, acessível ao grande público, sem que isso significasse um trabalho sem qualidade. Há requinte e bom gosto nos arranjos (assinados por ele mesmo, Cesar Camargo Mariano, de quem eu já sou fã graças aos seus trabalhos posteriores com Elis Regina e na carreira solo), as interpretações vocais são impecáveis.

Também são notáveis a grande picardia e a ironia presentes em vários momentos dos álbuns, típicas da “pilantragem”, movimento fundado por Simonal. Não parecia haver uma pretensão de seriedade, pelo contrário: há letras baseadas em cantigas de roda e canções infantis, e ainda que algumas sejam um tanto bobas, o trabalho não soa vazio ou descartável.

Além disso, há versões bastante criativas de músicas que eu não imaginaria ouvir na voz de Simonal, a exemplo de “Paraíba” (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga) e “Namoradinha de Um Amigo Meu” (Roberto Carlos), bem como “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso (cujo título, inclusive, remete ao bordão que Simonal costumava usar nos programas de TV que apresentava). Tem até uma canção escrita por Pelé. Sim, ele mesmo, Edson Arantes do Nascimento, que assina “Gosto Tanto de Você”. Clássicos como “Nem Vem Que Não Tem” (Carlos Imperial) e “Vesti Azul” (Nonato Buzar) também estão presentes.

É pura música pop. Uma música pop mais “interessante” do que o som da Jovem Guarda, que dividia os holofotes da época com Simonal. Enquanto a Jovem Guarda carrega a pecha de música simples, ingênua, feita pros brotinhos de minissaia dançarem nas matinês, Simonal subverte tudo isso com sua “pilantragem”, fazendo um som requintado, jazzístico, irônico e ainda assim popular, que, ao contrário da obra de Roberto, Erasmo & cia. naquela época, não soa datado nem caricato (pelo menos pra mim). Isso pra não falar do impressionante domínio de palco que Simonal tinha, entre tantas outras coisas.

Talvez seja possível dizer que estou virando fã. Seria maravilhoso se mais pessoas (re)descobrissem a obra desse grande artista. Afinal, a MPB não é só Chico, Gil e Caetano: há verdadeiras pérolas para além da música engajada.

O primeiro “Alegria, Alegria”, que conta com os registros de “Nem Vem Que Não Tem”, “Vesti Azul”, da canção homônima escrita por Caetano e de uma curiosa versão para “Pata Pata”, de Miriam Makeba.
O volume 2 traz o clássico “Sá Marina”, além das surpreendentes versões de “Paraíba” e “Namoradinha de Um Amigo Meu”.

(Em busca de imagens pra ilustrar esse post, recorri ao blog “Velhidade”, um espaço que é referência em scans de reportagens de época sobre diversos artistas da música brasileira e internacional. Para minha surpresa, não encontrei imagem ou matéria alguma sobre Simonal por lá. Lacuna no acervo ou reflexo do ostracismo no qual o artista foi jogado a partir dos anos 1970? Espero que seja a primeira opção…)

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