Saciei!

Por Zé Helder

Vou falar do afro-brasileirinho portador de deficiência mais politicamente incorreto do Brasil. Ser de uma banda só sempre trajado de certo barrete vermelho (Talvez remeta a alguma crença ou se pareça mais medieval, denunciando sua origem remota) o Saci povoa o imaginário brasileiro desde os tempos coloniais. Câmara Cascudo, em seu Geografia dos mitos brasileiros, segue a pista do negrinho de uma perna só tão frequentemente visto no Brasil até suas origens na Europa medieval. Monteiro Lobato descreve o Saci de uma forma tão lúdica, colhidas in loco na narrativa popular do Vale do Paraíba. Seu Saci personagem é aprisionado por Pedrinho, neto de Dona Benta, no tradicional método ensinado por Tio Barnabé: sair num dia seco de ventania com uma peneira de cruzeta e garrafa, onde na rolha se fazia uma cruz. “É isso que prende o saci, não a garrafa”, diria tio Barnabé. Então, o Saci prisioneiro conquista a amizade de Pedrinho e tem com ele discussões inacreditáveis onde o negrinho põe seu pensamento totalmente à mostra e ensina muitos segredos da natureza, na obra lobatiana. Esse foi o segundo saci que pude conhecer na minha vida.

O primeiro era uma tal de sacizim, com o qual minha vó ou meus tios costumavam por medo em mim e na garotada de minha geração. Bastava fazer arte ou malcriação e lá vinha o “óia o sacizim tentano ocê”. Eu imaginava um verdadeiro capetinha, pronto para os piores sortilégios. Depois, aprendi que Saci não faz maldades, faz malinezas. Como na canção “Pecadinhos”, de Zeca Baleiro e Tata Fernandes, tão linda na voz de Ceumar. E esses pecadinhos vão longe: embaraçar crina ou chupar sangue de cavalos e outros animais domésticos, rezar leite pra azedar ou pipoca pra virar piruá, roubar brasa ou fumo encontrados no fogão de lenha. Pra levar a brasa, o saci passa ela pelos buracos de suas duas palmas da mão. Enfim, ele faz umas coisinhas que não prejudicam, mas também enchem o saco! Por isso, também existem estórias deliciosas onde o saci leva a pior.

É isso que faz o Saci. Talvez ele seja um morador do reino astral, onde vivem fadas e outros seres de luz frequentemente vistos por crianças, seres que tem, como em nosso mundo diferentes níveis de evolução, que, às vezes, podem surgir dependendo da clarividência de quem vê. Ou depende da janela particular de cada ser, que pode criá-lo à sua maneira, até mais rechonchudinho e boa praça, pra não assustar as crianças.

Em tempos tão tecnológicos, como o nosso, nenhuma assombração tem mais seu devido respeito. Acho mesmo que deve ter até Saci mendigando por aí. Vestindo uma máscara de abóbora desdentada e intimando quem passa: “Doce ou travessura!”. A vida não tá fácil pra ninguém! Mas feliz 31 de outubro pra todo mundo!

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