li.ber.da.de
ousadia. franqueza. licença. desassombro. demasiada familiaridade.
durante um tempo quase eterno acumularam-se layers de medos diversos
medo do vizinho, medo do amigo, medo do moço da esquina, medo do barbeiro, medo da senhora do peixe, medo do professor, medo do doutor, medo imenso dos ativos servos do senhor que ditava os destinos.
medos mesquinhos alimentaram a intriga, a pobreza de carácter tratou do resto, um vasto exercito de civis, munidos de cérebros condenados à clausura perpétua, foram adquirindo intolerância crónica em relação aos soldados foragidos, os nobres protagonistas de ousadias tamanhas.
a vida queria-se simples. cada um ocupava sem dúvida o papel que lhe coubera em jeito de destino. as mentes condenadas consumiam-se tentando abafar a brisa que soprava anunciando outras possibilidades, carregadas de liberdades. assim crescia e se fortalecia a tropa, onde não cabia atrevimento, pois “ se eu estou condenado a viver calado, quero ainda que à força, ter-te por companhia”.
os fiéis servidores ampararam com dedicação os caprichos do ditador, cumpriram os desígnios, teceram uma rede fina, forte e resistente que atribuiu firmeza às edificações macabras de um homem só, simplório, bacoco e pequenino.
na surdina do anonimato, bem lá no fundo da clandestinidade, os desertores ousavam prevaricar, resistiam estoicamente à domesticação dos raciocínios. na penumbra, debaixo da escada, na cave profunda, debaixo da pedra, em papel fino e delicado gravaram as coordenadas, construíram um outro caminho.
não eram muitos, seguiam desgastados, acossados, longos os estágios em lugares ermos e despidos. os tormentos apareciam em várias curvas do caminho.
o ditador era bulímico, tinha uma fome insaciável, a tirania era o seu sustento preferido. cada vez mais exigente na qualidade dos cozinhados, empreendeu um caminho de voraz e monstruosa criatividade. nunca lhe faltaram chefs dedicados, alimentaram o monstro com uma imensidão de pratos sanguinários.
certo dia, depois de muitos dias, já o ditador havia caído (por descuido sentou-se numa cadeira apodrecida) surgiu a liberdade. na memória coletiva foram semeados os ícones do dia de festa. a flor, o soldado, a espingarda convertida numa jarra, o veículo pesado de guerra revestido de gente, mais umas quantas cenas pacíficas, ternas e amorosas pintam de vermelho quente o 1º dia.
hoje, tantos dias transcorridos, com os ícones envoltos numa névoa consistente, festeja-se a memória despida de glória. faltou a inscrição, falhou a atribuição de responsabilidade, lá longe em 74, na euforia dos festejos, diluíram-se as figuras, apagaram-se os vestígios e muita gente má partiu.
os regressos não tardaram a acontecer, o regresso da gente má, o regresso dos medos mesquinhos, o regresso das vontades tiranas, o regresso dos homens bacocos e pequeninos.
ontem , 42 anos depois, festejou-se o dia em que tudo parecia novo. ontem, uma vez mais, foi lembrado o dia que anunciou a liberdade. hoje e nos próximos amanhãs a liberdade continuará a ser uma promessa adiada, por muitos desconhecida e por outros tantos odiada!
eu aceitei o desafio de 74, não festejo a liberdade, vivo a /em liberdade!