“Plagiar é algo asqueroso, fazer releituras é divino”

Uma conversa com Adão Iturrusgarai sobre as influências das ilustrações em O Médico e o Monstro

por Hana Luzia*

Mariana Villa Real / Divulgação

Adão Iturrusgarai é cartunista, artista plástico, humorista e escritor brasileiro. Desde meados dos anos 90 publica tira diária na Folha de São Paulo. Foi roteirista de diversos programas de humor, como Casseta & Planeta e TV Colosso. Teve trabalhos publicados em revistas do Brasil e do mundo. Possui livros e quadrinhos traduzidos para o inglês, espanhol, francês, italiano e alemão. Algumas de suas principais obras foram adaptadas para TV, como a série Aline (Globo, 2009) e a animação Rocky & Hudson (Canal Brasil, 2020).

Entre os extremos de uma América do Sul sitiada pela pandemia, eu em Recife (Brasil) e Adão em Villa Carlos Paz (Argentina), conversamos sobre suas ilustrações para O Médico e o Monstro — clássico de Robert Louis Stevenson –, e suas influências nas artes, cinema, design e música.

Em seu posfácio “É tudo culpa do editor…e de Hyde” você diz “o Jekyll dos quadrinhos de humor foi possuído por um sombrio Hyde” ao relatar a busca por um tom mais macabro no seu trabalho. Como se deu essa busca? Eu notei alguns diálogos com outras obras e acontecimentos “monstruosos”, como as palavras cruzadas do filme O bebê de Rosemary (1968). Outro exemplo é a icônica capa da banda Sonic Youth, Goo (1990), que já é uma referência constante do seu trabalho, mas que, coincidentemente ou não, possui uma história de terror por trás — os “assassinos do pântano” na Inglaterra nos anos 1960.

Foi um pouco como esses mergulhos que atores fazem para entrar em um personagem. Mas também foi uma busca inconsciente. Às vezes o trabalho te busca, e não o contrário. Eu precisava fazer algo diferente do meu trabalho mais habitual, o de cartum, humor. O livro é sombrio, preto e branco, nebuloso. Para ser mais exato, preto, branco e vermelho sangue. Quando passei pelo sebo de revistas, encontrei a coleção de revistas Paris Match e comprei um lote. Chegando no meu ateliê, comecei a recortar e experimentar. Pintar por cima, etc. A referência das palavras cruzadas de O Bebê de Rosemary foi só uma coincidência, nem lembrava disso. E me arrepiei todo quando você me contou dessa coincidência.

Já no caso da capa de Goo, não foi coincidência. Eu já sabia da história por trás da capa e a usei de propósito. O Daniel tinha me pedido algo “entre meu trabalho de quadrinhos e a pintura”. E foi daí que eu parti. Acho que depois extrapolei, mas o resultado me agrada bastante No caminho, claro, fui encontrando as referências constantes do meu trabalho.

Você parece ter influências de diferentes movimentos e vanguardas artísticas ocidentais do século XX. Algumas técnicas contemporâneas, como a apropriação, releitura, subversão de obras clássicas e ícones (Mona Lisa e Mickey figurados como monstros, por exemplo), além da interferência em objetos do cotidiano, não só encontramos em O médico e o monstro, mas em suas demais obras. Quais artistas/obras que mais te inspiram?

Sou muito influenciado pelo pop. Infância, anos 70, interior do Rio Grande do Sul, era o que mais a gente tinha contato. Walt Disney, Mauricio de Sousa, Asterix e Tintim foram minhas primeiras leituras. Depois veio o Pasquim, Robert Crumb, Angeli, Wolinsky, Andy Warhol — e todos os pops — , Philip Guston, os desenhos animados do Norman Mclaren, David Shrigley… A lista não tem fim. E sempre fui cinéfilo. Via tudo: cinema mudo, mímicos, expressionismo alemão (acho que tem isso neste livro), Nouvelle Vague, Hollywood, cinema brasileiro e argentino. Em suma, tudo me inspira.

Adão, ainda sobre releituras e subversão de obras & ícones. Existe um limite ou algum tipo de critério no uso das imagens? Como você tem lidado com essa questão? Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares que todo artista, designer e ilustrador quer saber. Com as redes sociais, a patrulha e o politicamente correto, fica cada vez mais complicado saber o que podemos ou não fazer e até que ponto usar a lei de direito autoral ao nosso favor. Você inclusive tem uma série chamada Adãoporu com mais de 15 releituras do Abaporu de Tarsila do Amaral.

Nas minhas releituras sempre procuro acrescentar algo, atualizar, dar o meu toque ou fazer uma piada. Criar é diferente de copiar. Tem que ter algo novo senão não interessa. Paródias e releituras estão livres de direito autoral. A arte vive dessa antropofagia. Uso Abaporu assim como uso Mickey, Tintim, Asterix, Munch, Mona Lisa, etc. E não fui eu quem começou isso. A história da arte contemporânea tem muito disso. Um colega de faculdade sempre me dizia: “só copia quem tem referências”. Acho que é isso mesmo. Plagiar é algo asqueroso, fazer releituras é divino.

“Plagiar é algo asqueroso, fazer releituras é divino.”

Os quadrinhos e o humor são pilares do seu trabalho. Você poderia falar um pouco mais sobre a inserção dessa linguagem nas ilustrações? Como se deu a ideia do flipbook por exemplo? Foi algo em conjunto com a edição e a designer Giovanna Cianelli?

A ideia do flipbook foi minha — já fiz curso de desenho animado. As outras ideias também foram minhas. O pessoal da editora respeitou muito o meu trabalho. Eu fiz um primeiro lote e enviei, com um certo receio, para o Daniel Lameira. Fiquei achando que ele ia pensar que eu era um demente. A primeira reação dele foi bastante positiva e empolgante. No meio do processo, fui incorporando tudo que estava ao meu alcance no ateliê: madeira, peças de jogos de mesa, fotografias, rabiscos de canto de papel. Então, produzi, produzi e produzi. Entreguei para a editora: “toma, o filho é de vocês”. Façam o que quiserem com ele. Eu confiei no trabalho da Antofágica porque eles fazem um ótimo trabalho. A gente chegou a bater uma bola no final do processo, sobre diagramação, tipo de papel. Mas essa parte ficou com eles.

“O livro é sombrio, preto e branco, nebuloso. Para ser mais exato, preto, branco e vermelho sangue.”

A música é claramente uma influência no seu trabalho. Você tem várias releituras de capas de discos e homenagens a ícones da música. No livro, como já falamos, você até usou uma referência ao Sonic Youth. O que você tem escutado? Qual foi a principal trilha sonora na produção O médico e o monstro?

Eu tenho uma playlist no Spotify (1). Gosto basicamente de rock, mas não só desse gênero. Pode incluir jazz e algo de música brasileira. Até música clássica, algumas sinfonias mais sombrias. Para a produção deste livro, preferi escutar coisas como Joy Division, Jesus & Mary Chain, punk rock, Tom Waits, Paul Weller e… bossa nova. Não existe nada mais sombrio que a bossa nova e suas letras de dor de cotovelo, depressão, amores desfeitos, desencontros e fim de linha.

Adão, você é bastante prolífico. Em seu posfácio, você relata que produziu para o O médico e o monstro mais de 60 ilustrações em menos de um mês. Além das redes sociais (@iturrusgarai instagram; @aiturrusgarai twitter), das suas tirinhas diárias na Folha de São Paulo, e da animação de Rocky & Hudson que estreou recentemente no Canal Brasil, em quais outros veículos você está publicando seu trabalho atualmente? Existe alguma novidade vindo por aí?

Sou prolífico. Essa é uma característica minha. Se você me encomendar vinte cartuns de um determinado tema, sou capaz de te entregar no dia seguinte. E no meio da tira diária para a Folha de São Paulo, capas e cartuns para a Piauí, escrevo minhas memórias, pinto quadros e faço ilustrações para livros. Estou preparando quatro livros com minhas memórias que são publicadas toda semana no Correio Elegante, minha newsletter semanal. 1.Primeiras Memórias; 2. Viagem ao Nordeste e Rio de Janeiro; 3. Morrendo um pouco em NYC (de uma viagem para lá); e, finalmente, 4. As memórias de Paris (onde vivi entre 1990 e 1991). Estou adorando escrever e quem sabe continue depois dessa sequência de Paris.

(1) Adão criou uma playlist com “músicas para escutar lendo um livro de horror” especialmente para esta entrevista. Ele incluiu as principais músicas que escutou durante seu processo de produção das ilustrações.

*HANA LUZIA é mestre em Design pela Universidade Federal de Pernambuco. Designer e ilustradora do jornal de literatura & questões do contemporâneo Suplemento Pernambuco. É também diretora de arte do selo e estúdio audiovisual Xica Records.

clássicos para novos tempos