Promovendo encontros, trançando saberes e compartilhando afetos

Foto: Alex Ratts

Nos dias oito e nove de maio, a comunidade negra da Universidade Federal de Goiás, sociedade em geral, em especial, nós mulheres negras, pudemos desfrutar e compartilhar momentos intensos de muita aprendizagem, de compartilha de afetos e debate sobre a construção de redes de solidariedade entre nós. Foram momentos significativos que se fortaleceram com a presença da professora Drª Nilma Lino Gomes da Universidade Federal de Minas Gerais — UFMG e Ministra do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, que veio participar da roda de conversa: “Universidade Pública, diversidade e antirracismo e da banca de defesa da dissertação de mestrado intitulada “(Re)significações das tranças e outros penteados em Angola: as moças das tranças na “Praça Nova” da cidade de Lubango”; da aluna intercambista angolana, Eufrásia Nahako Songa que também fez sua graduação aqui na UFG em Jornalismo na Faculdade de Informação e Comunicação — FIC.

Antes de falar sobre as maravilhas compartilhadas nesses dois dias e, já que optei abordar aqui neste texto, questões que perpassam nossas afetividades e subjetividades, não posso perder a oportunidade de falar da minha “kamba”- (amiga em Lubango), pois, a Eufrásia é muito mais que uma amiga; é uma irmã que a vida me presenteou e a quem tenho muito apreço, carinho e admiração!

É importante falar da nossa amizade que se iniciou no primeiro dia que nos conhecemos, e que, coincidentemente foi no primeiro dia do encontro do curso de Formação feminista: tramas e redes para mudar o mundo em 2012, promovido pelo grupo Transa do Corpo e o grupo de teatro dos oprimidos Ocupa Madalenas, onde tivemos também a oportunidade de conhecer e aprender muito com as professoras queridas Eliane Gonçalves, Joana Plaza Pinto e Lenise Santana; e as amadas Jordana Barbosa, Elcimar Pereira, Elismenia e o Douglinha e tantas outras.

No momento encontrávamos muito empolgadas e afetadas com os debates e as teorias feministas e às vezes falávamos para alguns rapazes do nosso ciclo de amizade dos nossos novos pensamentos, então eles imediatamente contra-argumentavam nos aconselhando larga essa ‘’coisa de feminismo” porque isso nos traria problemas terríveis; pois, se nos tornássemos feministas, não conseguiríamos arrumar namorados; não casaríamos! Ora, vejam vocês, uma afirmação desta faz algum sentido para duas “filhas do vento”? Digo assim porque não cabe aqui apontar os “ismos” que tal afirmação expressa.

Quero falar sobre a Eusia porque este momento da defesa de sua dissertação me trouxe um misto de sentimentos. Ao mesmo, tempo que me encontro muito feliz pela conquista e sucesso da minha kamba e pelo aprendizado e empoderamento que veio a partir dessa escuta que pude fazer nesses dois dias, por outro lado, encontro-me flutuando no meu pesar porque isso significa dizer também que a hora da despedida está chegando na fronteira do horizonte a qual posso enxergar.

Neste momento, encontro-me tentando achar as respostas para os: “e se a Eusia…”? Que se antecipam nas correntes prematuras dos insights da ansiedade. Nesses, perguntas vêm e algumas delas são: “e quando a Eufrásia se for, quem fará a assessoria de comunicação dos possíveis recitais que farei futuramente? Quem vai recepcionar o meu público? Quem receberá e entregará as flores no palco, se acaso eu resolver homenagear, agradecer e presentear alguém em minhas performances? E quando eu ficar doente, quem vai cuidar de mim e fazer aquela sopa angolana gostosa que eu adoro? E se por acaso eu der a louca e sentir a mesma vontade estranha que tive no dia da minha colação de grau e quiser usar unhas postiças maiores que as da sambista Alcione, no dia da minha qualificação ou defesa da minha dissertação do mestrado, quem vai encabeçar comigo nessa doidice?

Esses questionamentos parecem bobos, mas são preocupantes para mim, mas, antes de tudo, quero “enegrecer” dizendo que, não se trata aqui, de ressaltar uma amizade abusiva, pelo contrário, a solidariedade entre nós duas é recíproca. O que quero ressaltar são as qualidades e humanidades que a ela sobra e falta à muitas pessoas, inclusive a mim muitas vezes! Quero expressar o meu lamento por ver que não é apenas um ombro amigo que vai se distanciar de mim, e sim, uma alma e um coração que admiro e prezo incondicionalmente. É uma amizade sincera que fugirá da percepção sensível dos meus ombros, olhos e coração. Ela é uma das minhas fontes de aprendizagens, de refúgio e fortalecimento. É com quem me sinto plenamente à vontade para desabafar, falar das minhas conquistas, perdas, amores, desamores, alegrias, tristezas, gargalhadas, choros e tudo que necessito compartilhar!

Eu e a Eufrásia esbanjando beleza e simpatia na V Semana da África 2015-IESA/UFG Foto: Arquivo pessoal

Não vou afundar no meu egoísmo e tecer aqui um pronunciamento de aprisionamento da minha kamba, pois, as verdadeiras amigas são aquelas que deixam as amigas alçarem vôos cada vez mais ousados e estar sempre de coração aberto para apoiá-las e acolhê-las sempre que precisarem. Por isso, eu quero é mais é que a minha “black sister” consiga voar na companhia e direção de bons ventos para que seus pousos se realizem em terrenos férteis para que possa colher os bons frutos de todo essa amor, carinho, solidariedade e generosidade que doa à mim e semeia nos lugares por onde passa. Sei que vou sentir muita falta dos momentos maravilhosos e daqueles não tão felizes que compartilhamos, mas, espero em um futuro próximo ir à Lubango visitar minha mãe e o meu pai angolanxs: a rainha e o rei Songa! E, que lá nós duas possamos fazer luluzinhas e virarmos a noite e rompermos a aurora do dia gargalhando sobre as nossas atrapalhadas e meninices, como costumamos fazer sempre que temos a possibilidade.

Trançando saberes e compartilhando afetos

No dia oito, segunda feira, na defesa da dissertação da Nahako Songa orientada pelo professor Dr. Alecsandro (Alex) J. P. Ratts cuja banca foi formada pelas professoras Drªs (membros). Maria Luiza Rodrigues — FCS/UFG e Nilma Lino Gomes — FAE/UFMG e xs Suplentes, a Professora Drª Luciene de Oliveira Dias-FIC/UFG e o professor Dr. Luis Felipe Kojima Hirano-FCS/UFG, quem esteve presente, pode presenciar o contrário daquilo que poderia ser só mais uma defesa; uma grande oportunidade de aprender não somente sobre o conteúdo da pesquisa, mas, principalmente de humanidades, cuidado e que é possível sim, fazer ciência fora desse modelo cartesiano, frio e arrogante!

Eu aqui, só posso mesmo trazer meu testemunho, através do olhar de quem está na condição de amiga tanto da orientanda, quanto do orientados e de quem acompanhou essa relação orientanda — orientador de perto. Posso dizer o que os meus olhos viram, e o que vi foi uma relação onde o cuidado e o zelo era uma preocupação de ambos. E sobre isso, não há pessoas mais legítimas para falar sobre esse enredo os protagonistas dessa trama. Então, exponho aqui o relato da própria Eufrásia que me concedeu uma entrevista. Pedi a ela que falasse sobre a sua condição de mulher negra, angolana diaspórica e a compartilha de saberes dentro desse trânsito, Angola — Brasil e a motivação pela escolha do tema de sua dissertação e as marcas e afetividades que ficam desse processo tudo. Segunda a Eufrásia:

Ser mulher negra africana na diáspora, para mim, tem sido um desafio. Entre encontros e confrontos no contato com o Outro, de alteridade maior ou menor — afinal estamos falando de um Brasil plural -, na maioria das vezes você precisa desconstruir-se de sua visão de mundo e adotar estratégias para “sobrevivência” no dia a dia e nos diversos espaços. Na minha trajetória como estudante, por exemplo, o tempo todo opto por pesquisar temáticas que se relacionem ao continente africano, especificamente Angola, sob a pretensão de apresentar e compartilhar informações que a grande mídia oculta e/ou a escassez bibliográfica não atenda. Minha expectativa sempre foi de que as noções pejorativas em torno de questões relacionadas a Angola/África perdurassem até que trabalhos que desconstroem estereótipos viessem a público e, mais do que isso, fossem talvez lidos e compreendidos. Além disso, que nas trocas diárias outras imagens de Angola/África fossem acionadas. De acordo com a escritora moçambicana Paulina Chiziane (2013, p. 202–203), “se as próprias mulheres não gritam quando algo lhes dá amargura da forma como pensam e sentem, ninguém o fará da forma como elas desejam”. É assim que, com esta dissertação de mestrado, onde falo da ressignificação das tranças angolanas, apresento o meu grito, sob a pretensão de contribuir para a descolonização mental e o reconhecimento da pluralidade da imagem da mulher negra, colaborando para o fim da adesão a um modelo único de beleza, padrão imposto pelo opressor, que sempre condicionou os biótipo e fenótipo considerados negros à inferioridade estética.
O interesse pela temática da dissertação nasceu a partir da minha trajetória entre os continentes africano e latino-americano, a par de uma leitura experiencial do vivido, enquanto mulher negra africana, justamente no Brasil, comparativamente a Angola, onde as discussões sobre cabelo estão há muito afloradas, o que me permitiu (re)pensar as narrativas existentes e apresentar reflexões de outras realidades, que no presente estudo foi a do sul de Angola. Cabe citar o contato próximo e complexo com pessoas de outras categorias raciais, onde inúmeras vezes o racismo se manifestou por meio de palavras, toques e olhares estranhos aos penteados feitos ao cabelo, com destaque às tranças que até fevereiro de 2017 usava frequentemente, e ao corpo de forma geral. Tais manifestações em relação ao cabelo, tranças e outros penteados, principalmente aqueles considerados “típicos”, ou seja, próprios de uma pessoa negra angolana/africana, apenas impulsionaram a busca por autoconhecimento e a (re)significações de padrões estéticos e identitários, por meio de uma reflexão e (des)construção de práticas e saberes nativos que, apesar de terem sido motivadas(os) pelo contato com o Outro, na diáspora, só puderem ser compreendidas partindo da particularidade local/nativa, com a riqueza de detalhes que merecem.
O aprendizado das técnicas de corpo e modalidades de trançado, desde o processo de ensino de minha mãe até o das interlocutoras da pesquisa, demarcam um antes e um depois na minha percepção de tranças, cabelo, mulher, negritude, Angola e África. Não me refiro a uma mulher negra, pesquisadora de tranças, que antes do trabalho de campo pouco interessava-se em trançar cabelo e depois e passou a trançar amigas, leia-se a cuidar de amigas, e a conversar mais sobre o assunto com outras mulheres. Refiro-me ao aprendizado de novas epistemes, outras categorias relacionadas a esse objeto identitário — o cabelo -, às novas concepções sobre estética, corpo, mulher, tempo, espaço e à intimidade, nada metafórica, entre eu, enquanto pesquisadora, e as moças das tranças, na condição de interlocutoras da pesquisa.
Foi uma das experiências mais significativas desse mestrado conturbado. Passei um pedaço do meu ano em Angola, na “Praça Nova”, e foi inevitável não me acostumar a elas. Voltei ao Brasil com aperto no coração. A despedida não foi fácil. Até hoje sinto saudades delas e do lugar. Pelas redes sociais comunico-me com uma delas, Nguevinha, que me passa informações atuais sobre elas e os meninos — os barbeiros — que trabalham na mesma sessão da praça. Elas dizem estar me esperando, que aquele também é “meu lugar”. A “Praça Nova” foi um lugar onde, ao lado delas, construí e desconstruí conceitos e preceitos. Aprendi vários “truques” sobre tranças e como trançar cabelos. Aprendi sobre cabelo. Sobre o meu cabelo e o que fazer com ele. O tempo de campo foi um momento de reflexão e decisão. Voltei consciente das minhas escolhas e pensando na História do meu cabelo e de várias outras mulheres que acessei durante a pesquisa e continuo acessando entre os becos da vida.
Eufrásia na defesa da sua dissertação de mestrado. Foto: Mariza Fernandes

Conversei também com o professor Alex Ratts para falar dessa experiência e da rede de compartilhamento de saberes e solidariedade existente entre ele as participantes da branca e os grupos de pesquisas promovedor desses encontros. Ele diz:

A minha relação com a Eufrásia é marcada por muita sensibilidade, muito respeito e hoje, especialmente hoje, no arremate do processo final, eu lembrei muito da minha relação com o meu orientador africano, congolês Kabengele Munanga porque dentro de um trabalho formal, ele foi muito sensível. Eu dizia nos meus agradecimentos: ele trazia essa fala cuidadosa! E a Eufrásia e eu tentamos aprender com essa relação assimétrica, até conseguimos rir; coisa que às vezes a vida acadêmica não nos permite. A minha relação com a Eufrásia assim como outrxs orientandxs, foi marcada por muito afeto e essa sensibilidade continua a flui porque ela não cabe na vida acadêmica e ela tem transitado entre eu e outras pessoas que orientei; que a gente fez militância junto e entre algumas professoras.
Estamos tentando fazer coisa juntos para enfrentarmos esse momento de tão implosão que está tendo a sociedade brasileira, essa agressividade, essa sustentação de direita. A gente consegue fazer porque quando a gente era estudante, a gente fazia; eu e a Nilma. Hoje lembrei, quantas vezes ela se preocupou com meus problemas de saúde e a gente tenta manter isso há mais de quinze anos, morando em cidades diferentes.
Esse momento que está acontecendo, para mim é uma momento novo. Eu pensava em uma certa estabilidade, mas, esse nosso mundo é muito móvel. Eu, não sei para onde vai a Eufrásia; para aonde estão indo meus orientandos. Acho que sei, mas, eu não sei! Acho que estão fazendo várias coisas e algumas delas, são de qualidade, com respeito e sensibilidade. Vale destacar que alguns estão em outros Estados, países e aqui mesmo na cidade, e eu sei que tem algo de nós que ficou, que não é só meu. Então, acho que deve nascer essas redes de compartilha e solidariedade. Eu fico muito sensível vendo as pessoas saírem, mas, assim, outros vêm chegando e tenho que aprender com esse movimento. Chega uma hora que vêm outras pessoas e novos contextos. Só que, essa universidade moderna é muito dura e afeta a nossa sensibilidade um com o outro.
Banca defesa dissertação de mestrado: Nilma Lino Gomes, Alex Ratts e Maria Luiza Rodrigues. Foto: Mariza Fernandes

Há muita resistência dentro da academia quando nós assumidamente ativistas de movimentos sociais, como por exemplo, o movimento negro, feminista, dentre outros; propomos projetos de pesquisa que tratam das alteridades próximas; de questões que nos atravessam. E uma das justificativas que nos chega, é que a nossa condição de militante não nos permitirá desenvolver um trabalho científico respeitável porque não somos capazes de conter nossas emoções, pois, estaremos envolvidos demais com a causa. Porém, na temática que tanto a dissertação da Eufrásia, quanto de outrxs pesquisadorxs como, por exemplo, a doutoranda Mariza Fernandes aborda em sua dissertação de mestrado “Movimento negro e relações raciais no espaço acadêmico: trajetórias socioespaciais de estudantes negros e negras na Universidade Federal de Goiás”; podemos ver que isso não é uma verdade. Sobre essa quebra de paradigma epistemológico, a antropóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Maria Luiza Rodrigues expressa sua opinião diante um questionamento que a fiz.

Professora, relacionando esse modelo cartesiano de produção de conhecimento científico imposto pela universidade com a temática da dissertação defendida hoje que, mesmo a autora não visa construir uma narrativa de si, mas trata de questões que lhes atravessam o que você pode inferir sobre esse dilema? A professora Maria Luiza pondera:

Eu acho que é fundamental que em qualquer pesquisa, mesmo nas das áreas exatas e biológicas, o pesquisador fale senão na primeira pessoa; fale de si, porque ele está falando de um contexto epistemológico; de um contexto político e de um contexto filosófico e social. E, se sendo das humanidades, é primordial que se fale se possível, na primeira pessoa, pois, não existe construção de conhecimento que não seja politicamente situada.
E, sobre o pensamento dicotômico cartesiano que separa o pesquisador do seu objeto de estudo, é algo que não se sustenta nesse processo, uma vez que a produção de conhecimento e ciência acontece sempre de forma conjunta. A gente constrói a partir de determinações coloniais; o que a gente ler é imposto pela nossa condição sócio-histórica. Não há ciência que não seja feita com uma pergunta cuja elaboração não seja historicamente determinada. São políticas!

A escuta da dádiva

Toda vez que nós alunas negras, que ainda estamos em processo de formação intelectual acadêmica, temos a oportunidade de ouvir mulheres negras que são nossas referências tanto na esfera intelectual acadêmica quanto na militância e humanidades, vivenciamos uma espécie de “escuta da dádiva”. Pois as palavras que essas mulheres verbalizam e reverberam em nossos ouvidos, mente, alma e coração, vêm carregadas de significados que ultrapassam o sentido denotativo dos termos. Não é o sentido etimológico das palavras que nos inspira e nos faz querer ouvir apaixonadamente essas mulheres, pois, se fosse, nós não largaríamos o dicionário nem para dormir!

Para nós, alunas negras que estamos incorporadas em um ambiente extremamente hostil, como por exemplo, a Universidade, e que precisamos de motivações e referenciais para não abandonarmos o barco em alto mar; as vozes delas nos chegam e adentram no campo das nossas subjetividades de uma forma muito poderosa. Estas vêm carregadas de sentidos que não somos capazes de mensurar a interferência dessas vozes e significados no nosso processo de formação, principalmente humana.

A maior expressão de poder na escuta é a afetividades, que mesmo indiretamente se estabelecem, pois, por mais que não tenhamos contatos diretos, nós gostamos delas, queremos ouvi-las, queremos de qualquer modo em algum momento ter um contato mais próximo. É essa afetividade que nos fortalece. Nos empodera, pois, quando lhes ouvimos é como se elas nos dissessem: vocês podem; futuramente vocês estarão no lugar que sonham está assim como sonhei!

Quando vemos que temos a possibilidade de realizar nossos sonhos também, isso é libertador! Nossa auto-estima vem, nossa coragem rompe o peito, e o nosso querer “correr atrás” domina nossos pensamentos, e só aí o mundo muda e a vida nunca mais será a mesma, porque estamos prontas para “transgredir”, como diz a bell hooks. Para nós, mulheres negras que estamos na universidade; a educação como prática libertadora só acontece de fato, quando algumas professoras negras se propõem a essa experiência ou quando podemos fazer uma “escuta da dádiva”, pois, é quando podemos parar e olharmos umas nos olhos das outras e nos reconhecermos; como diz a professora Luciene Dias: “o reconhecer-se na outra é importante para a construção da nossa dignidade humana”. É a constatação de que a representatividade importa muito! Fora disso, o que temos constantemente são ações tuteladoras que não estão distantes das estratégias de controle intelectual e do epistemicídio que não considera as outras formas de saberes não hegemônicas.

Desenvolver pesquisas e estudos que falam sobre nossas práticas como o ato de trançar, do cabelo em geral e de outras práticas que nos atravessam, para nós, é também uma forma de compartilharmos afeto e nos fortalecermos dentro da academia, porém, dentro desse modelo cartesiano de produção de saber que as universidades brasileiras adotam; qualquer estudo que buscam construir um olhar para as humanidades e afetividades na produção de conhecimento, com o intuito de fugir desse modelo duro, para uma produção de saber humanizado, quem propõe esbarra com muita resistência, mas, embora com todas as barreiras postas, muitos trabalhos foram e estão sendo desenvolvidos como por exemplo, a tese de doutorado da professora Nilma Lino Gomes, que através de um estudo etnográfico em salões étnicos de Belo Horizonte, reflete sobre as representações e as concepções sobre o corpo negro e o cabelo crespo, e nessa mesma perspectiva segue a dissertação da Eufrásia.

Para incitar reflexões sobre as possibilidades e estratégias para continuarmos com essa quebra de paradigma epistemológico, mais uma vez, aproveitei a oportunidade e conversei agora sobre essa questão com a Ministra e que vale ressaltar, continua afetuosa, amável, sensível, acolhedora e inspiradora, igualzinha à primeira vez que conversei com ela em 2008, no V Congresso de Pesquisadores Negros — COPENE, realizado pela Universidade Federal de Goiás aqui em Goiânia, quando ainda era aluna caloura da Universidade Federal do Maranhão e integrante do NEAB-UFMA, coordenado pelo querido professor Carlão. Sobre a nossa conversa ela expressou sua opinião por meio de dois questionamentos que fiz a ela.

Quais aspectos você acha relevante à nós comunidade negra universitária priorizar em nossas pautas e agendas para que possamos transgredir fronteiras arquitetadas para a promoção do epistemicídio que nos aprisiona na condição do não-ser e o não-lugar dentro das universidades? Resposta da professora Nilma Lino Gomes:
Essa visão que chamo de emancipatória de ciência não é hegemônica e nós estamos no campo acadêmico em um momento de disputas por hegemonia. Então, todas as nossas ações e iniciativas são dadas em campos de muita tensão e de muito conflito, e como os corpos falam, é no corpo também que a gente vai sentir os impactos disso. Não é só no confronto do debate das ideias, não é só no debate teórico. Isso mexe com as nossas subjetividades, emoções e fragilidades e, ao mesmo tempo ajuda criar casca para sabermos lidar com determinadas questões. Engana-se, quem quiser trabalhar com temática do campo da emancipação social, que esse é o lugar onde só terá acolhida, pois, pode ter acolhida entre os seus, mas há também discordância e divergência entre os seus.
Nós temos o histórico da universidade clássica que foi pensada para as elites e não para nós. Então, vai ser sempre um nadar contra a correnteza e também situações que nós internalizamos e, que é difícil de superar. Temos que lutar contra isso de colocarem sobre nós a responsabilidade de sermos os mais competentes do mundo. E, isso vem da história do próprio campo da ciência e quando nós chegamos nessa história, nós vamos lidar com isso que está sedimentado.
Agora, construir outra trajetória, outra forma de lidar com esse conhecimento, de lidar com esses corpos. Nós estamos vivendo o momento de confluência, principalmente os alunos cotistas. Nesse momento estarmos em um espaço que não foi pensado para nós, a gente precisa na luta cotidiana fazer nossas articulações, ir ressignificando, transformando, emancipando e lutando para democratizar esse espaço que é nosso por direito. Porém, isso não é uma tarefa fácil!
Certas angústias que nós vivemos, são próprias desse momento, podemos até não ter respostas para elas, mas nós vamos ter que construir formas pequenas de articulação, apoio e rede de solidariedade. Isso tudo temos que trazer para dentro da universidade; pensarmos formas de furar bloqueios, fazer agrupamentos com grupos de pesquisas, fazer o conhecimento circular promovendo os nossos corpos e sujeitos políticos acadêmicos dentro desse ambiente. São estratégias que a gente vai ter que ir construindo. Há grupos; nichos dentro da universidade que produzem nas formas de conhecimento e eventos no campo dos saberes como os indígenas, quilombolas, saber do campo, rural, etc. e como isso dialoga com o saber científico. Tudo isso, são fraturas que mexem na estrutura.
Temos os nossos espaços de produção. Todos nós que estamos nessa luta por emancipação do conhecimento, fazemos parte desse bloco de pesquisadoras e pesquisadores e cientistas que indagam o positivismo da ciência e nós lidamos com as estruturas acadêmicas pensadas por essa ciência positivista. Isso não deixa de ser um desafio para furar bloqueios nessa estrutura, mas eu acho que falta para nós, construirmos mais redes de solidariedade acadêmica entre nós, para que a gente consiga chegar nesses espaços não sozinhxs, mas juntxs!
O que você acha necessário e prioritário no processo de construção das nossas “comunidades de aprendizagens”- como propõe a bell hooks, e para o desenvolvimento de pesquisas que fazemos sobre nossos dilemas, sem perdermos o afeto, a ternura e o amor? Resposta da Ministra Nilma Lino:
Nessa disputa por hegemonia, uma das formas para garantirmos nossas sobrevivência e levar para esse espaço outras reflexões e outras problematizações que nós construímos ao longo das nossas trajetórias; como a gente pode fazer isso sem cair na malha do próprio positivismo?
São grandes as perguntas que a gente tem que fazer e que eu acho, que não é que não tenham respostas, mas talvez a gente precisa construir essas respostas de forma mais compartilhada, mais solidária porque a tendência é a carreira solo, né? Tudo que é conhecimento ancestral, conhecimento africano, conhecimento indígena e quilombola; tudo que a gente aprende não é coletivo? Não é junto? Não é em grupo? Por isso, a tensão é muito forte. Pois, na hora que você chega onde está o conhecimento, no espaço hard do conhecimento; é essa a lógica, é essa dureza e isso é o normal.
Nós estamos fora do normal, do regular; fora daquele campo. Então, nós temos várias dimensões nessa luta: a entrada, a permanência, as condições de ficar e outras, e inclusive a permanência acadêmica naquelas exigências que são as do campo da produção do conhecimento. Então, a gente fica junto com quem indaga essa forma de produzir conhecimento, mas, não necessariamente as pessoas que indagam esse conhecimento estão abertas para as questões da diversidade; aí encontramos outro grupo com o qual temos que dialogar; negociar e às vezes, inclusive confrontar!
A dureza que entra nessa frente de batalha agora, é que somos nós que estamos entrando, sendo sujeitos nessa emancipação e ao mesmo tempo quebrando com estruturas internas e, simultaneamente, reeducando e descolonizando essa universidade. É muito pesado! É isso que a nossa geração está vivendo.
Precisamos entender que o campo não está dado; é um passo! Temos que criar o fato político; temos que fazer disso questão social e temos que fazer disso questão social da instituição. Isso que vocês alunos fazem de denunciar, falar, articular, só é possível porque nós construímos conjuntamente as possibilidades desta entrada.
Precisamos ser criativos, emancipatórios e prudentes. Se não criarmos as nossas estratégias, se não diminuirmos essa distância entre nós e construirmos falas mais honestas entre nós nessa luta emancipatória, vamos ficar sempre no lugar da denúncia. Porém, nós temos que superar a denúncia e passarmos para esses momentos de ações práticas.
Isso é a vivência nossa nesse contexto de luta por hegemonia, de outro discurso, de outra prática acadêmica e política. E, se nós não criarmos redes de solidariedade acadêmica entre nós, vamos ficar muito vulneráveis porque é um campo muito fechado e difícil. Temos vários colegas que acabam endurecendo e eu fiquei pensando no Che: não podemos perder a ternura!
Mesa da roda de conversa: Luciene de Oliveira Dias, Nilma Lino Gomes e Zanza Gomes. Foto: Ana Fortunato — ASCOM-UFG

Se tratando sobre esse poder e possibilidade real de transformação que uma escuta da dádiva nos proporciona, não posso deixar de falar da minha experiência que se estabeleceu e estabelece com a querida professora Luciene de Oliveira Dias nessa relação de aluna e professora negras, dentro de uma proposta da construção de uma comunidade de aprendizagem, embasada no acolhimento e reconhecimento. Quando escolhi nomear esse tópico de “escuta da dádiva” foi pensando no bônus que desfruto dessa nossa relação que se constrói espontaneamente, com muito zelo, carinho e admiração ao longo desses meus cinco anos de aluna da UFG. Se Tratando da luta diária que temos nesse espaço e as “comunidades de aprendizagens” que se constrói para que possamos nos manter dentro da universidade enquanto pessoas negras; conversei um pouco mais com a Luciene Dias que nos ressalta:

Me sinto muito feliz de poder estar nesse lugar que é o lugar que eu gostaria de estar. Eu sempre repito na sala de aula uma experiência pessoal que tive com a professora Nilma Lino, quando ela veio para uma aula inaugural aqui na UFG e eu fui buscá-la no aeroporto, e ao me ver, ela saiu da sala de desembarque, ela me olhou e deu um largo sorriso, um forte abraço e disse: a gente só precisa se ver! E, aí, eu acrescento que, nos vendo, nós nos reconhecemos e, nos reconhecendo nós passamos a acreditar que outro mundo é possível.
A grande novidade desses tempos é que nesses espaços tem novos vozes, novos corpos. É muito recente a observação de que as vozes estão se pluralizando e a pluralidade de vozes complexifica o próprio espaço. É confortante, reconfortante falar da nossa presença e de fato se sentir parte dessa universidade porque somos mulheres, somos negras, somos lésbicas, somos pobres. Nós somos engajadas, nós estamos disputando e construindo efetivamente uma agenda antirracista a partir das nossas ações cotidianas, dos nossos enfrentamentos cotidianos que não são fáceis.
O cotidiano não é simples, mas a gente entra dessa forma; a partir dos nossos corpos. Não são só as vozes. Eu não preciso dizer nada para que eu exista co o meu corpo negro. Quando eu entro e aposto em uma presença afirmada, eu acredito que o que a gente está fazendo é contribuindo, oferecendo uma pequena parcela de contribuição para a construção das nossas comunidades de aprendizagens. Queremos ocupar todos os espaços para que estejamos na nossa especificidade. O que nossas vozes dizem é que não! Não aceitamos um modelo de universidade que não representa a diferença. Não aceitamos atitudes racistas!

Sobre essa escuta, compartilha de afeto e construção das comunidades de aprendizagens, exponho aqui a opinião da Zanza Gomes, professora substituta do curso de Biblioteconomia e mestranda em Comunicação e orientanda da professora Luciene. Ela pondera:

Estamos na academia ocupando um lugar que é nosso por direito, queremos existir nesses espaços a partir do que somos, da nossa trajetória que contatou outros saberes que são considerados empíricos no campo acadêmico, que entretanto compõem nosso processo identitário. Somos permeados pela oralidade, presentes no preparo de um alimento para o cotidiano ou para o santo. O afeto e o tato no cuidado com os cabelos, o trançado que entrecruza fios e histórias de gerações, o respeito aos velhos, aos nossos griots e nossas griottes que já no processo diaspórico não contam histórias do atlântico, mas de um processo de resiliência em terras brasileiras, de um processo de (re)sistir não individual, mas em comunidade, com princípios e fundamentos de partilha e não de disputa.
Educados com esse saber ancestral e por diversas gerações é que ingressamos na universidade, com outros valores, com nossos próprios valores, e assim, procuramos nos integrar com os nossos, na busca pelo diálogo, respeito e alteridade. Buscamos espelhos, não apenas para nos mirar e contemplar, mas para construir redes de produção de saberes e também redes de cuidado e afeto, pois escolhemos a academia, a pesquisa e acreditamos no potencial das nossas escritas e no poder do nosso conhecimento, estamos aqui e permaneceremos, não como objetos de pesquisa, mas como sujeitos da nossa história.
Queremos transgredir as práticas cristalizadas por um saber hegemônico, ainda perpetuado por muitos docentes e promover a aproximação entre nossas experiências e os teóricos de diversas áreas de conhecimento. Queremos atualizar as referências, não abrindo mão do que já temos de conhecimento sobre os grandes escritores do ocidente, mas queremos lançar mão de outros teóricos e pensadores para apresentar um contraponto, uma outra leitura dos processos históricos e de construção social. Incluindo atores historicamente excluídos, mas agora resgatados e tomando a palavra reescrevendo a trajetória estudantil de negros e negras que se reconhecem e que lutam por espaços de protagonismos e auto representação.

Para finalizar, registro aqui a presença dos coletivos negros e de outros movimentos sociais. Além dos grupos que promoveram o evento:

Pindoba — Grupo de Trabalho em Ações Afirmativas da FIC/UFG coordenado pela professora Luciene Oliveira Dias, Laboratório de Estudos de Gênero, Étnico-Raciais e Espacialidades — LaGENTE/UFG coordenado pelo professora Alex Ratts, e o Programa de Pós — graduação em Antropologia Social (PPGAS) — UFG e O Coletivo e Laboratório Magnífica Mundi — FIC/UFG que faz a transmissão ao vivo; estavam presentes: Atlânticas — Coletivo de Mulheres Negras — UFG, Coletivo Rosa Parks — UFG coordenado pela professora Luciana de Oliveira Dias, Corpos Negros — UFG, O Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas — NEADI/UFG coordenado pela professora Mariana Pereira, Proafro — PUC/Goiás coordenado pela professora Janira Sodré Miranda, Coletiva Feminista Nonô — FIC/UFG, Coletiva Feminista — UFG, União dos Estudantes indígenas e quilombolas — UFG, LPEQI — Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão, Coletivo Negro do Instituto de Química — UFG e a Associação Brasileira de Pesquisadores Negras/os na presença da Presidenta Anita Canavarro; e outros que não foi possível fazer a identificação