Hora da homofobia sair de campo

Torcedores do Whitehawk exibem uma bandeira de apoio à população LGBT em um jogo na FA Cup (foto via SkySports)

O 17 de maio é marcado como o Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia. Data para renovar as lutas contra o preconceito e celebrar os avanços em favor da população LGBT. E hoje, se na sociedade temos uma conscientização crescente em relação ao tema, o meio do futebol ainda nos traz pouco a comemorar.

Vários acontecimentos recentes expuseram como a homofobia segue presente dentro e fora de campo. Na Arena Corinthians, o grito de “bicha” da torcida contra o goleiro adversário foi o fato lamentável da vitória do Brasil sobre o Paraguai — o que gerou mais uma multa da Fifa para a CBF. Depois de um jogo contra o Palmeiras, o goleiro Aranha, da Ponte Preta, fez insinuações sobre a orientação sexual de jornalistas, após ser questionado sobre sua forma física.

Na última semana, o jogador Richarlyson foi apresentado pelo Guarani. O atleta, perseguido há anos por supostamente ser gay, mais uma vez foi alvo do ódio. Torcedores atiraram bombas no estádio Brinco de Ouro. Nas redes sociais, vários comentaristas fizeram troça sobre a contratação.

Para cada ação do tipo, muitos relativizam o ódio. Reclamam do “politicamente correto”, afirmam que o grito de “bicha” é parte da cultura do futebol — pretexto que a própria CBF usou. Outros dizem que o futebol é “para homem”, um esporte viril, varonil — mesmo argumento de alguns para excluir as mulheres.

Enquanto isso, diariamente LGBTs morrem, são agredidos, vivem uma rotina de medo e segregação por serem quem são. Somos o país em que mais se matam transexuais e travestis. Considerando também gays, lésbicas e bissexuais, foram 343 mortes em 2016.

É urgente que o futebol rompa o tabu sobre a homofobia. O esporte tem grande poder transformador, por seu potencial de envolver milhões. Clubes, atletas, mídia, CBF, todos devem agir para combater o ódio.

Infelizmente, as ações do futebol contra a LGBTfobia são mínimas. Há alguns anos, tivemos uma ação isolada do Corinthians, pedindo o fim do grito de “bicha” em seu estádio. Este ano, o Rio Claro, do interior de São Paulo, fez campanha contra esse apupo e convidou os LGBTs a frequentarem o estádio.

E fica por aqui. A homofobia segue um assunto intocado, tratado de forma marginal. Mesmo iniciativas pioneiras como a Coligay, primeira torcida homossexual do Brasil, permanecem nas sombras. O Grêmio, que conta com esse marco da diversidade em sua história, não dedicou uma linha sequer neste ano em que o grupo liderado por Volmar Santos completou 40 anos.

O vácuo deixado pelo silêncio é preenchido pelo ódio. LGBTs seguem isolados no futebol, segregados se revelam sua orientação sexual, quando profissionais, deixados de lado enquanto torcedores. E sendo usados por outrem como se fossem motivo de troça.

Faz diferença se o jogador do seu time for hetero ou gay? Ele é menos profissional por isso?

Você acha certo usar uma orientação sexual como piada ou para tentar ofender alguém?

Acha correto que essa população sofra violência por ser quem é? E, por favor, não venha falar sobre outras violências. Não se trata aqui de reduzir ou não dar importância pra quem morre no bangue-bangue diário e etc. Estou falando de pessoas que são agredidas e mortas por amarem outras pessoas do mesmo sexo.

O que muda em sua vida se um terceiro for gay, lésbica, bi ou trans? Isso mesmo: nada.

Ser LGBT é ser como qualquer outro. São pessoas que estudam, trabalham e que vibram, torcem, sofrem com um time como todos. E que têm como única “diferença” a forma como expressam seu amor e identidade de gênero. Já passou da hora da homofobia sair de campo e dar lugar à diversidade. No futebol, nas ruas, em todo lugar, em todos os dias.

Estudante de jornalismo

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