O mistério dos episódios desaparecidos de Chaves e Chapolin

Os seriados Chaves e Chapolin, produzidos durante a década de 1970 pelo escritor mexicano Roberto Gómez Bolaños “Chespirito” dispensam maiores apresentações. São parte da cultura da América Latina, tendo conquistado milhões de fãs ao longo dos mais de 40 anos em que vem sendo ininterruptamente exibidos em diversos países do continente — 30 anos apenas no Brasil.

A morte de Bolaños, ocorrida no último novembro, cobriu a América de luto. Milhões de fãs choraram a partida de um dos maiores nomes da comédia em todos os tempos. Suas obras, reconhecidas pelo caráter atemporal e universal, continuam conquistando novos seguidores a cada ano, mesmo tendo sido produzidas há tantas décadas. Um sucesso que já foi alvo de análises, teses e que ainda intriga muita gente.

No entanto, por trás das divertidas histórias do Chaves, Chapolin, Quico, Seu Madruga e Chiquinha, há um pano de intrigas, invejas e discussões, os quais são até hoje alimentados pela mídia — e, às vezes, pelos próprios protagonistas, os atores dos seriados. Mas há um outro plano nebuloso nessa trajetória de mais de 40 anos de sucesso. Uma história de episódios que misteriosamente desapareceram e que, nos fóruns de fãs, provoca muitas dúvidas e incredulidade.

Em algum momento, talvez você já tenha ouvido falar deles: os episódios perdidos. Mas o que muitos não conhecem são os episódios perdidos “mundiais” de Chaves e Chapolin.

“Os Farofeiros — Parte 2 (1977)”. Um dos maiores clássicos de Chaves. (foto: reprodução/Televisa)

O episódio da imagem acima você já conhece. Todos conhecemos. Assim como dezenas de clássicos que estão todo dia na tela do SBT, do TBS, Boomerang, Netflix ou mesmo no Youtube. São aqueles capítulos dos quais muita gente sabe cada frase de cabeça. E como dizem, riem mesmo sabendo o que vai acontecer.

Bom, agora veja as imagens abaixo:

Episódio “O Encontro do Século”, do Chapolin, que teve duas versões: 1973 e 1975.
Episódio “O Vampiro”, do Chapolin Colorado, de 1974.

Alguma vez você viu essas cenas? Não se preocupe, você não é o único. Nas últimas décadas, provavelmente ninguém viu esses episódios na TV. Apesar de terem sido gravados e exibidos durante a transmissão original, na década de 1970, esses capítulos não são mais distribuídos pela Televisa.

Antes de discorrermos sobre esse assunto, é importante voltarmos para 1970 para entender como isso começou.

Um pouco da história de “CH” no México

“Los Supergenios de la Mesa Cuadrada”.

No ano de 1970, Roberto Gómez Bolaños já era um êxito na televisão mexicana. Depois de escrever filmes de sucesso, Chespirito começou sua carreira na TV, no Telessistema Mexicano, conhecido como Canal 2. Lá, roteirizou programas como El Estúdio de Pedro Vargas e Cómicos y Canciones. Em 1969, é contratado pela TIM (Televisión Independente de México), o Canal 8. Na nova emissora, realiza quadros que seriam os embriões de suas famosas criações, como El Ciudadano Gómez e Los Supergenios de la Mesa Cuadrada, este parte do programa Sábados de la Fortuna.

Já tendo criado personagens como o Doutor Chapatin, em 1970 nasce o herói Chapolin Colorado, que então protagonizava um quadro em Supergenios. Pouco tempo depois, Bolaños ganha um programa próprio, com o nome de Supergenios — posteriormente, Chespirito. Nele, já atuavam Ramón Valdés, Maria Antonieta de las Nieves e Rubén Aguirre, que mais tarde se tornariam Seu Madruga, Chiquinha e Professor Girafales. Logo depois, os demais atores foram entrando para o elenco do programa, como Carlos Villagrán (Quico) e Florinda Meza (Dona Florinda).

Em 1972, Aguirre deixa o Canal 8 para ir trabalhar no Canal 2. Para suprir o espaço vago em seu programa — Rubén protagonizava com Bolaños o quadro Los Chifladitos — é criado um novo personagem: Chaves. Este se junta aos demais, como Chapolin e Dr. Chapatin.

No ano seguinte, em 1973, os canais 2 e 8 se fundem, formando o que hoje é o conglomerado Televisa. O programa Chespirito deixa de existir e Chaves e Chapolin se tornam séries independentes. Aqui, então, começava de fato a trajetória de sucesso dos personagens de Bolaños.

Carlos Villagrán deixa as séries em 1978 e Ramón Valdés, em 1979 — voltando em 1981 para um único ano de atuação. Chapolin sai do ar em 1979 e Chaves, em 1980, para serem esquetes do novo Programa Chespirito, que unia ainda os personagens Dr. Chapatin, Chaparrón Bonaparte e Chompiras. A série foi produzida por mais quinze anos. Chaves e Chapolin ficaram até 1992 no ar e os demais quadros, até 25 de setembro de 1995, quando foi exibida a última edição do Programa Chespirito.

As reprises e regravações

Durante o período em que foram produzidas, as séries não eram reprisadas na íntegra, como ocorre atualmente. Alguns poucos episódios eram eventualmente retransmitidos, geralmente entre uma temporada e outra — caso da famosa saga de Acapulco, exibida originalmente em 1977 e reprisada no começo de 1979.

Assim, a imensa maioria dos episódios só pode ser vista, à época, apenas uma vez pelos espectadores mexicanos. Entretanto, a cada ano os fãs eram brindados com muitas “reprises” dos episódios: as regravações.

Uma mesma história, três versões diferentes: a saga das novas vizinhas.

Chespirito se notabilizou por ter feito muitas versões de uma mesma história. Somente durante a série clássica de Chaves, por exemplo, a série de episódios em que as “novas vizinhas” se mudam para a vila teve três versões: uma produzida em 1972, outra em 1975 e a última, em 1978, cada uma com uma dupla de atrizes diferentes.

O mesmo ocorreu a dezenas de histórias. Na maioria dos casos, essas regravações contavam com atores diferentes. É o que aconteceu com boa parte das tramas produzidas em 1974 em Chaves, as quais não contavam com Maria Antonieta de las Nieves, a Chiquinha, que nesse ano foi atuar em um canal concorrente. Após a sua volta, em 1975, Chespirito regravou diversos episódios, como O Disco Voador, O Calo do Senhor Barriga e Os Espíritos Zombeteiros, já com a participação da Chiquinha. Essa rotina de regravações seguiu até o último ano, 1995.

O mistério dos episódios desaparecidos

A partir de meados da década de 1970, a Televisa começou a exportar Chaves e Chapolin para outros países da América Latina. No Brasil, as séries chegaram em 1984 — cuja história será desenvolvida adiante. Durante as duas décadas seguintes, foram comercializados para todo o continente, do Chile a Porto Rico.

A quantidade exata de episódios comercializados é desconhecida. Porém, alguns deles foram desaparecendo dos canais estrangeiros — assim como das reprises no México — a partir da década de 1990. Como o catálogo de episódios era renovado pelos canais junto à Televisa, alguns capítulos simplesmente pararam de ser exibidos — à exceção do Brasil, onde nenhum episódio desapareceu dessa maneira (os perdidos brasileiros serão abordados logo mais).

O exemplo mais claro desse “sumiço” é de Um Astro Cai na Vila, a famosa história com o ator Hector Bonilla, de 1979.

Originalmente, esse episódio tem duas partes. Ambas eram distribuídas normalmente pela Televisa durante um bom tempo, até que, subitamente, a primeira parte desapareceu. Por aqui, até onde se sabe, apenas a segunda parte foi exibida pelo SBT.

Em 2011, o porto-riquenho Reniet Ramirez, autor do site Chespirito.org, vasculhou seus arquivos de VHSs, gravados durante a década de 1990. Ele, então, encontrou a gravação da primeira parte do episódio, a qual foi disponibilizada no Youtube:

Outro caso muito famoso nas redes é a terceira parte de Os Piratas, do Chapolin Colorado, de 1975. Ele foi exibido na íntegra duas vezes, na década de 1970. Depois disso, a parte final deixou de ser distribuída. Até o começo dos anos 2000, a segunda parte da história era exibida com o final onde Florinda Meza anunciava a sequência do episódio, além dos créditos finais. A partir dos anos de 2000, a Televisa passou a distribuir o episódio sem o anúncio e com créditos diferentes, que provavelmente são da terceira parte. Veja:

Em nenhum outro país esses capítulos são exibidos, quer seja no México, na Argentina, Colômbia, Brasil, onde for.

E o mesmo aconteceu a outras dezenas de episódios.

A arqueologia de “CH”

Os fanáticos pela série, sobretudo do Brasil, têm protagonizado uma verdadeira expedição arqueológica em busca de episódios perdidos de Chaves e Chapolin. Vasculhando especiais exibidos pela Televisa, adquirindo revistas antigas, os fãs têm descoberto que há muitos mais episódios perdidos do que se poderia imaginar.

Reprodução de uma revista Tele Guía, de 1974, que anuncia a sinopse do episódio perdido “Aristocratas vemos, gatunos não sabemos” (a versão exibida normalmente pela Televisa é de 1978). (reprodução/Blog La Chicharra)

Através de antigos exemplares da revista Tele Guía, do México, que publicava as sinopses dos episódios, os fãs encontraram evidências de muitos capítulos então desconhecidos.

É o exemplo de histórias tão curiosas como surpreendentes, como O Papagaio do Quico (1975), Goteiras na Casa do Seu Madruga (1973) e O Encontro do Século (1973 e 1975).

Mais de trinta episódios já foram descobertos através de Tele Guías, de trechos transmitidos por especiais ou mesmo dentro de episódios — caso de Uma Conferência Sobre o Chapolin, que mostra quatro perdidos do herói.

A esses capítulos, os fãs deram o nome de “episódios perdidos mundiais”, por não serem transmitidos em nenhuma parte do mundo.

Além dessa caçada por capítulos, os fãs ordenaram as exibições das séries de acordo com suas temporadas, em um trabalho iniciado pelo fã Thomas Henrique Velloso, já falecido, na “Lista de Episódios CH”.

Brasil: a salvação de alguns perdidos

Por aqui, Chaves e Chapolin são exibidos desde 1984 pelo SBT. Inicialmente vindo como um “bônus” no pacote de novelas mexicanas contratadas junto à Televisa, as séries eram desacreditadas até mesmo por Sílvio Santos, que foi convencido pelo diretor do núcleo de dublagem, José Salathiel Lage.

Entre 1984 e 1992, o SBT foi adquirindo diversos lotes de episódios — as séries nunca foram compradas em sua totalidade. Ao longo desse período, vários episódios foram indo e voltando na programação, o que originou a história dos episódios perdidos — que serão abordados logo mais.

Ao contrário do que fizeram as emissoras estrangeiras, o SBT nunca renovou seu acervo com a Televisa. Ou seja, não parou de exibir certos episódios que a cadeia mexicana não distribuía mais. Dessa forma, o Brasil é o único país que ainda assiste a alguns capítulos das séries.

Chaves recita o poema do “cão arrependido” em “Um Festival de Vizinhos” (1976).

Você se lembra do “cão arrependido”? Ou então das aventuras do Jeca Valente? São sequências clássicas do episódio Um Festival de Vizinhos, que integra a clássica saga do Festival da Boa Vizinhança, de 1976. Esse episódio, entretanto, é exibido, hoje, apenas no Brasil.

Assim como ocorre aos capítulos Ser pintor é uma questão de talento (1976), Errar é humano (1978) e Muitas Marteladas — parte 2 (1974). Apesar de serem transmitidos normalmente no Brasil, nenhum outro país possui tais episódios atualmente. Isso porque o SBT não renovou seu catálogo, o que acabou por “salvar” esses episódios do arquivo.

E por que sumiram?

As razões para o sumiço de tantos episódios é algo que intriga a todos os fãs. Diversas teorias são ventiladas e quanto mais os fanáticos avançam em sua arqueologia, mais essa história fica confusa.

Um dos motivos possíveis seria a perda definitiva de algumas das fitas originais nos arquivos da Televisa. A hipótese foi aventada em 2011 pelo ator Rubén Aguirre, o Professor Girafales, quando questionado por um fã durante uma twitcam. Aguirre alegou que, no começo, não se imaginava que as séries teriam um sucesso tão grande e, portanto, alguns episódios eram simplesmente gravados por cima de outros. Na última quarta-feira (25), durante o Programa do Ratinho, a atriz Florinda Meza contou que boa parte da novela que protagonizou, Milagro y Magía, perdeu-se ao longo do tempo.

Cena de “A Troca de Cérebros”, de 1971, exibida no especial sobre Bolaños no Biography Channel.

É uma hipótese com alguma plausibilidade. Mas não explica porque alguns trechos de episódios perdidos têm sido utilizados pela própria Televisa. É o caso de um esquete de Los Chifladitos, de 1971, que surgiu em um site de vendas de DVDs das séries, em uma espécie de “extra”. O mesmo ocorre com cenas de episódios como A Troca de Cérebros, de 1971, e A Pichorra, de 1972, que foram vistos no especial sobre Chespirito no Biography Channel, em 2012.

Outra alegação seria a censura, o que poderia explicar o desaparecimento do episódio O Encontro do Século, que teve duas versões, em 1973 e 1975, onde Chespirito interpreta Adolf Hitler. Todavia, uma mesma versão é distribuída normalmente pela Televisa, esta datando de 1980. De acordo com teorias dos fãs, essa é uma possibilidade mais plausível para A bela adormecida era um senhor muito feio, do Chapolin Colorado. O episódio teve três versões, em 1974, 1976 e 1982. E nas três, a primeira parte não é distribuída pela Televisa, sendo o único caso do tipo conhecido até então.

Uma alegação mais provável é a simples remoção de algumas versões de episódios. Praticamente todos os perdidos são capítulos que possuem alguma regravação anterior ou posterior, a exemplo de Animais Proibidos (1973, regravado em 1977), O Curto Circuito (1974, regravado em 1977) e O Banho do Chaves (1973, regravado em 1975, 1978 e 1979).

Outra possibilidade é que vários dos episódios mais antigos, produzidos entre 1971 e 1973, fazem parte do programa Chespirito que, como explicado antes, deu origem às séries Chaves e Chapolin. Quando se tornaram programas independentes, a Televisa organizou compilações de algumas esquetes realizadas no antigo programa Chespirito, formando episódios de meia hora. É o exemplo de O Mendigo Ladrão/Remédio Duro de Engolir/A Moeda Perdida, do Chaves, e Arruaceiros/Jantar Executivo 2/Os Prisioneiros, do Chapolin. Como essa série não é mais comercializada pela Televisa, seus quadros seguem em arquivo.

Tudo isso, no entanto, resume-se a meras especulações dos fãs. A Televisa jamais se pronunciou sobre o assunto de forma oficial. Nem mesmo os atores têm conhecimento exato sobre o tema.

Idas e vindas: os episódios perdidos no Brasil

Se da Televisa os fãs não têm nenhuma informação sobre a “perda” dos episódios, os motivos para o SBT simplesmente desaparecer com outros tantos são bem claros.

Como citado anteriormente, o canal paulista foi adquirindo as séries em lotes, datados de 1984, 1988, 1990 e 1992. Os anos marcam as estreias de um novo lote de episódios no Brasil — e a consequente saída de vários outros.

“Os Espíritos Zombeteiros”. Um clássico que por muitos anos ficou de fora da programação do SBT.

Graças às anotações e gravações de diversos fãs brasileiros, foi possível traçar a história das séries por aqui. No ano da estreia, 1984, o SBT exibiu 72 episódios de Chaves e outros 26 do Chapolin, os quais foram sendo seguidamente reprisados. Nos anos seguintes, novos capítulos foram ingressando no catálogo. Mas, ao mesmo tempo, outros tantos deixavam de ser exibidos pelo canal. Em 1984, por exemplo, os episódios Os Refrescos do Chaves (1974) e Pedintes em Família (1975) tiveram uma única exibição, voltando ao ar somente depois de 20 anos. Se por um lado novos episódios eram adquiridos, muitos eram simplesmente arquivados. Ao todo, mais de 70 episódios apenas de Chaves ficaram sem ser exibidos.

Com o advento da internet, os fãs começaram a se reunir em comunidades virtuais e a compartilhar seus conhecimentos e anotações. Graças às gravações de vários fãs, alguns capítulos que foram exibidos entre 1984 e 1992, mas que não eram mais transmitidos, foram sendo compartilhados por download, por venda de fitas e, posteriormente, no Youtube.

Pelo meio virtual, também começaram os movimentos de fãs pela volta dos “episódios perdidos” de Chaves e Chapolin. Quando questionado, o SBT dizia não haver nada escondido. Eventualmente, alegava que alguns capítulos se perderam por deterioração ou falhas na imagem e áudio. Justificativas que nunca foram engolidas pelos fãs. E isso piorou quando, em 2003, o programa Falando Francamente, apresentado por Sônia Abrão, começou a exibir trechos de episódios “raros” das séries.

Nesse mesmo ano, o canal realizou uma remasterização de seu conteúdo de Chaves e Chapolin. E a partir de então, foram surgindo algumas novidades. Em setembro, a emissora exibiu oito episódios de Chaves, que estavam perdidos há mais de dez anos.

Além disso, o Chapolin trouxe boas notícias a partir de 2006. Depois de um longo período fora do ar, o “Polegar Vermelho” voltou a ser exibido, apenas aos sábados. E com surpresas: entre aquele ano e 2008, 43 episódios da série foram transmitidos pela primeira vez no canal, ou então voltaram ao ar. Casos de Cyrano de Bergerac (1978), Nós e os Fantasmas (1978) e Buffalo Bill (1976). Praticamente um lote inteiro estreava no SBT, o que fez com que os fãs ficassem grudados à TV a cada sábado, ansiosos pelas novidades. Mas havia muito mais por aparecer.

TV paga: a grande virada

Em 2010, vem a notícia de que o SBT não seria mais o único lugar a exibir Chaves e Chapolin. O canal TLN, de propriedade da Televisa, iniciou suas atividades no Brasil e transmitia novelas mexicanas dubladas, além das séries de Chespirito — incluindo o Clube do Chaves, nome dado ao Programa Chespirito quando de sua exibição no SBT. No final do ano, Chaves e Chapolin também passaram a ir ao ar no Cartoon Network.

“As Apostas/Ladrões Espertos/Brincando de Escolinha”, de 1973. Estreou no Brasil em 2010, no Cartoon Network.

E nesses canais, os fãs tiveram uma grande surpresa. Começou no dia 31 de outubro, quando a TLN transmitiu o episódio Dando Sorte com Muito Azar, do Chaves, de 1979, que não era exibido no SBT desde 1992. No Cartoon Network, os “chavesmaníacos” foram surpreendidos já na estreia, em 1º de novembro, quando o canal exibiu a compilação As Apostas/Ladrões Espertos/Brincando de Escolinha (1973), que era então inédita no SBT.

E muito mais veio depois disso. Clássicos como Os Espíritos Zombeteiros, A Pichorra, Assistindo ao Jogo e Chapolin vemos, cérebro não sabemos foram exibidos pelos canais pagos. Ou seja: um conteúdo que o SBT tinha, mas não transmitia, estava indo ao ar em outro canal. Um movimento que gerou grande repercussão entre os fãs. E fez o SBT se mexer.

Os episódios “semelhantes”

No dia 2 de julho de 2011, o SBT transmitiu mais uma parte do seu Festival SBT 30 Anos, que comemorava as três décadas do canal. Naquele dia, o tema do especial eram as séries de Chespirito. Além da história de sucesso, os personagens e episódios marcantes, a emissora resolveu acabar com o mistério que há tanto tempo pairava sobre “CH”. O que eram esses episódios perdidos?

Murilo Fraga, o homem por trás das decisões sobre Chaves no SBT, durante o Festival SBT 30 Anos.

Depois de um teatro que envolveu até mesmo Ivo Holanda e Bozo, veio a resposta. O diretor de planejamento de programação do SBT, Murilo Fraga, afirmou que o canal simplesmente havia retirado vários episódios do ar porque eram semelhantes a outros episódios.

Ou seja: apenas uma versão de cada episódio estava autorizada a ir ao ar, o que reduziu em muito o número de capítulos transmitidos pela emissora. Dos cerca de 280 episódios que o SBT havia recebido, 40% deles eram “semelhantes”, segundo Fraga. Até aquele dia 2 de julho, o canal exibia apenas 153 episódios de Chaves, enquanto outros 52 capítulos conhecidos estavam simplesmente arquivados.

Poucos dias depois do especial, o SBT anunciava que havia encontrado episódios perdidos em seu catálogo. E em agosto, nove capítulos da série foram exibidos, dos quais sete eram perdidos e dois inéditos. Dos nove, apenas um não tinha sido transmitido pelo Cartoon Network: Panquecas pra Dentro, Barriga pra Fora, de 1977.

Com a grande divulgação feita pelo canal, a audiência foi satisfatória. Mas era pouco. Onde estavam as outras dezenas de episódios? A resposta veio em janeiro de 2012. O SBT tirou Chaves do horário noturno, substituindo-o por um especial infantil com os palhaços Patati e Patatá. O resultado foi queda no Ibope. Em poucos dias, o canal anunciava a volta da série, dessa vez com os episódios semelhantes.

“Remédio Duro de Engolir” (1972). O episódio mais antigo do Chaves que o SBT possui, e que voltou ao ar em 2012.

No dia 16 de janeiro, veio a grande estreia dos semelhantes. Em uma tacada, quatro episódios que há mais de vinte anos não eram exibidos no SBT. E assim foi até fevereiro, quando o canal transmitiu um total de 59 episódios. Muitos clássicos como O Primo do Seu Madruga, O Disco Voador (1974) e Remédio Duro de Engolir (1972), o mais antigo capítulo que a emissora possui, voltaram a ser exibidos. E mais: diversos episódios que nenhum fã imaginava que o SBT tivesse também apareceram na tela. Caso de Os Espíritos Zombeteiros — Parte 3 (1977), A Fonte dos Desejos (1979) e O Terno do Tio Jacinto, com a Louca da Escadaria (1973), além de Muitas Marteladas — Parte 2 (1974), que não era distribuído pela Televisa — ou seja, um perdido mundial. O número de episódios disponíveis para exibição pulava para 220.

Chapolin também teve seus semelhantes. É o caso de “Um Bairro Muito Tranquilo”, de 1976.

No ano seguinte, foi a vez do Chapolin ter episódios semelhantes em exibição. No curto período em que esteve no ar, entre 18 de fevereiro e 9 de março, foram transmitidos 29 episódios, dos quais 16 eram inéditos na emissora paulista. Assim como ocorreu ao Chaves, o “Vermelhinho” também passou por uma divisão por semelhança.

Por fim, em 2014 o SBT transmitiu 14 episódios inéditos de Chaves, os quais foram dublados em 2012, com novas vozes para Chaves, Seu Madruga, Quico, entre outros personagens. Entre esses episódios, estão partes de sagas que, até então, estavam incompletas por aqui, como a quarta parte de O Festival da Boa Vizinhança ou o final de A Venda da Vila.

Um modelo único

Entre todas as emissoras conhecidas que exibiram as séries de Chespirito, apenas o SBT fez essa divisão por episódios semelhantes, deixando de exibir certas versões em favor de outras. Nos demais países, tudo é transmitido em ordem cronológica, ou seja, de acordo com as temporadas produzidas. Por aqui, não há qualquer tipo de organização nesse sentido. A única ordem que o canal costuma seguir é uma lista interna. Essa lista foi descoberta em 2011 por fãs no site da Ancine — Agência Nacional do Cinema. Por ela, foi possível inclusive encontrar outros episódios que o SBT possui, como A Despedida do Chapolin (exibido em 2012 na TLN) e Quer apostar que nunca mais entro numa aposta? (exibido em 2014 pela internet, durante o horário eleitoral e, incrivelmente, sem seus sete minutos finais, que teriam sido perdidos).

O modelo adotado pelo SBT provocou situações esdrúxulas. Por exemplo, os episódios dos espíritos zombeteiros. A versão clássica de 1974 ficou fora do ar entre 1992 e 2011 no canal, por motivos desconhecidos. Enquanto isso, sua versão semelhante, de 1977, veio a estrear apenas em 2012. Resumindo: um episódio foi arquivado porque era semelhante a outro… que estava igualmente “perdido”. Isso aconteceu também com Dando Sorte com Muito Azar, de 1979, que ficou fora do ar com sua versão anterior, O Bilhete de Loteria, de 1974.

Mais mistérios

Com tantos episódios indo ao ar no SBT ou aparecendo através da Televisa em outras mídias, surgiram mais mistérios. Além do Cartoon Network, os capítulos foram distribuídos pela cadeia mexicana para outros canais: TLN (próprio), TBS e Boomerang (ambos da Turner), além do serviço de streaming Netflix e de um canal oficial no Youtube.

Parecia tudo muito bom, não fosse por um detalhe: nenhum desses serviços está transmitindo todos os episódios dublados. Apenas os “perdidos” exibidos em 2011 pelo SBT e poucas exceções dos semelhantes como Jogando Bola, Um Triângulo Amoroso, A Máquina Fotográfica — parte 2, O Piquenique Voador/O Boxeador/O Despejo e O Despejo do Grande Campeão são exibidos nesses canais. Todos os outros “semelhantes” ficaram de fora. Além disso, a Televisa não distribui os “perdidos mundiais” que o SBT possui, como Um Festival de Vizinhos, nem outros tantos que são comuns por aqui, como O Vendedor de Balões e Vamos Todos a Acapulco!

Para piorar, TBS e Boomerang têm deixado vários episódios de fora da programação — e que, no Cartoon Network, eram transmitidos normalmente. Isso tem afetado capítulos como O Futebol Americano (1976) e, para tornar tudo ainda mais estranho, todos os episódios de Chaves que tiveram uma parte dublada em 2012.

Poderíamos questionar: a Televisa possui todos os episódios dublados? Provavelmente sim. Há várias evidências disso: por exemplo, o episódio Seu Madruga Sapateiro, de 1973, não foi distribuído para os canais da Turner, mas foi liberado no Netflix. O episódio A Despedida do Chapolin, exibido na TLN, não foi transmitido pelos canais da Turner por conter clipes em espanhol (outros episódios do tipo também não passaram no Cartoon, TBS ou Boomerang). Além disso, a Televisa possui até mesmo redublagens de episódios — vários capítulos das séries foram dublados mais de uma vez no Brasil. Em 2010, uma outra dublagem de Pintando o Sete foi disponibilizada no site oficial de Chespirito. No mesmo ano, uma redublagem de Ser Professor É Padecer no Inferno apareceu em um especial em homenagem a Carlos Villagrán no canal colombiano RCN.

Mas se a Televisa tem tudo, porque não está distribuindo a outras emissoras, ao Netflix e ao seu próprio canal no Youtube? É um mistério. Alguns fãs apontam que o conglomerado mexicano e o SBT possuem algum tipo de acordo que limita o número de episódios a serem transmitidos para outras mídias.

Mais perdidos e mais saturação

Apesar de ser um “curinga” na programação do SBT, quase sempre levantando a audiência de diferentes horários — no ano passado, a série chegou a picos de 12 pontos na faixa noturna — o canal mostra um descaso com Chaves e Chapolin.

No ar atualmente em quatro horários diferentes (segunda a sábado, 18h, sábados, 6h e domingo, 9h), Chaves é reprisado à exaustão. Somente aos domingos, são seis episódios diferentes. Na faixa noturna, são outros cinco. No total, são cerca de 38 episódios por semana. E para piorar, o SBT têm diminuído a frequência das exibições dos “semelhantes”, o que reduz o número de capítulos que vão ao ar frequentemente. Há casos de capítulos como O Primo do Seu Madruga e O Velho do Saco (versão semelhante, de 1975), que não são exibidos desde 2012 ou 2013. Enquanto isso, somente o episódio Nas Pontas dos Pés (1979) foi ao ar quatro vezes em janeiro e fevereiro.

“Como Pegar um Touro à Unha”. Perdido no SBT, perdido no mundo todo.

E mesmo tendo exibido 68 “perdidos” e “semelhantes” desde 2011, ainda há episódios que não dão as caras no SBT há muitos anos, como As Novas Vizinhas — Partes 1 e 2 (1972), Seu Madruga Pintor (1973) e Como Pegar um Touro à Unha (1973). Este último, além de estar “perdido” no SBT, também não é mais distribuído pela Televisa. O mesmo ocorre com Gente Sim, Animal Não, de 1977. Sem contar que outros episódios que os fãs sequer conhecem podem estar nos arquivos do canal.

O mesmo acontece com o Chapolin. Exibido entre janeiro e fevereiro pelo SBT — a série sai do ar mais uma vez esta segunda-feira (2), o “Polegar” tem vários episódios que há muito tempo não aparecem na programação — o que inclui um “perdido mundial”, O Planeta Vênus (1973). Indo e voltando na grade da emissora, Chapolin não tem transmissão nacional desde o começo dos anos 2000. Desde então, vem ocupando espaços que são preenchidos por programação local nas afiliadas do SBT.

As grandes questões

É uma história com tons surrealistas. Por quase trinta anos, o SBT manteve muitos episódios guardados em seus arquivos. Capítulos que foram dublados entre 1984 e 1992, mas que só foram ao ar depois de 2011, por conta da classificação por semelhança que privilegiou uma versão — ou, às vezes, nenhuma.

Já a Televisa mantém alguns desses episódios também em seus arquivos. Não são mais distribuídos, mas eventualmente aparecem em trechos de programas e especiais.

O quadro suscita muitas questões:

  1. Por que o SBT ainda mantém vários episódios arquivados?
  2. Por que a Televisa não distribui mais tantos episódios?
  3. Por que a Televisa não lança esses episódios em versões especiais, como raridades?

De parte do SBT, há duas possíveis justificativas: primeiro, alguns desses episódios estariam em condições irrecuperáveis de áudio e vídeo. Porém, considerando que o mesmo artifício foi usado para justificar a ausência de dezenas de capítulos, permite a dúvida. Segundo, por questões de audiência: nos últimos anos, as raridades de Chaves do arquivo do canal voltaram ao ar sob forte campanha de divulgação, valorizando seu ineditismo. Logo, não seria surpreendente imaginar que o SBT esteja reservando esses episódios para uma nova ocasião para tentar levantar o Ibope da série.

Já sobre a Televisa, só resta aos fãs especular. O conglomerado, ao deixar tantos capítulos de fora, perde dinheiro. Com mais episódios no pacote, teria mais conteúdo a oferecer às emissoras de todo o continente e aos canais pagos. Além disso, esses episódios poderiam ser explorados como raridades a serem lançadas em DVDs ou outros formatos especiais — por exemplo, um box com o programa Chespirito, produzido entre 1971 e 1973. Uma possibilidade que, infelizmente, perde força, considerando que até hoje Chaves e Chapolin não foram lançados integralmente em mídias físicas, bem como o maior interesse na versão animada do Chaves, a qual gera um retorno muito mais expressivo em licenciamentos.

Depois de Chespirito

Após a morte de Roberto Gómez Bolaños, vários fãs esperavam que essa fosse a deixa para que Televisa e SBT explorassem o material raro que possuem em seus arquivos. Até agora, não há nenhum indicativo nesse sentido. Os mesmos episódios continuam sendo exibidos à exaustão por aqui e na América Latina, enquanto raridades que milhões de fãs jamais viram, seguem encostadas em algum lugar dentro das emissoras.

Resta a pergunta: algum dia esses episódios perdidos verão a luz? Passadas várias décadas de sua produção, Chaves e Chapolin seguem como um fenômeno de público e audiência por onde passam, conquistando novos fãs a cada dia. Mesmo assim, uma parte expressiva das séries permanece na escuridão. E os fãs, sem qualquer tipo de resposta, seguem em sua expedição arqueológica, tentando descobrir novos episódios e alimentando alguma expectativa de vê-los no ar. Para esses fãs, a esperança, assim como a juventude, não tem data para morrer.

Por Antonio Felipe Purcino — Estudante de jornalismo e administrador do Fórum Chaves, principal comunidade brasileira de fãs de Chaves e Chapolin.

Para informações adicionais: