Bela, recatada e muito além do lar: crítica da mídia em circulação

Em 18 de abril deste ano — dia seguinte ao que a Câmara Federal aprovou o encaminhamento do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef para o Senado — , a versão online da revista Veja publicou um perfil da esposa do vice-presidente da República. Intitulado “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar”, o texto provocou, nas redes sociais, a reação de incontáveis pessoas, anônimas e famosas, contra seu conteúdo. Embora houvesse referências ao caráter político do texto, o movimento em relação à abordagem considerada sexista suplantou outros aspectos.

Marcela Temer é uma mulher de sorte. Michel Temer, seu marido há treze anos, continua a lhe dar provas de que a paixão não arrefeceu com o tempo nem com a convulsão política que vive o país — e em cujo epicentro ele mesmo se encontra. […] Marcela se casou com Temer quando tinha 20 anos. O vice, então com 62, estava no quinto mandato como deputado federal e foi seu primeiro namorado. […] Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele). […] “Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada”, diz sua irmã mais nova, Fernanda Tedeschi. “Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras”, conta a estilista Martha Medeiros. […] Marcela é o braço digital do vice. Está constantemente de olho nas redes sociais e mantém o marido informado sobre a temperatura ambiente. Um fica longe do outro a maior parte da semana, uma vez que Temer mora de segunda a quinta-feira no Palácio do Jaburu, em Brasília, e Marcela permanece em São Paulo, quase sempre na companhia da mãe. […] Michel Temer é um homem de sorte. (LINHARES, 2016).

A repercussão foi imediata. As críticas sobre o aspecto político da matéria — que buscava fortalecer a figura de Temer, em contraposição à de Dilma — rapidamente foram ultrapassadas pelas reações ao caráter sexista da matéria. A toda hora, surgiam comentários e memes contestando o material publicado por Veja, ou simplesmente fotos de homens e mulheres satirizando a revista. A hashtag “belarecatadaedolar” identificava a sintonia das manifestações. Uma ferramenta para adicionar os dizeres às fotos, um tumblr pelo menos três eventos no Facebook também foram criados.

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De fotos feitas especialmente para o momento às de arquivos pessoais, passando por montagens com referências midiáticas, como os dólares de Cláudia Cunha ou o filme “Ninfomaníaca”, de Lars von Trier, a crítica de atores sociais virou o assunto daquele momento. Tanto que provocou a produção de matérias em diferentes meios sobre o acontecido. Em Zero Hora, Itamar Melo escreveu “Entenda a polêmica após matéria com perfil de Marcela Temer”.

O texto de três páginas, com o título “Bela, recatada e do lar”, teve o poder de desencadear uma onda massiva de reações, mobilizando desde adolescentes até senhoras, e alcançando também consideráveis parcelas do público masculino. O motivo: o texto foi entendido como a suprema celebração da mulher-bibelô — dócil, submissa e sem ambições profissionais. […] A reação demorou um certo tempo para engrenar. Na segunda-feira, apareceram as primeiras postagens. Na terça-feira, começaram a estourar, até viralizar. (MELO, 2016).

A repercussão foi internacional, especialmente pela ironia que marcava os memes que circularam nas redes sociais naqueles dias. Na Forbes eletrônica, o texto de Shannon Sims (2016) tinha como manchete “A divertida reação feminista a sequelas do impeachment no Brasil” e aponta “A ideia implícita é que uma boa mulher deve ficar quieta e simplesmente acompanhar o homem.” (Em Inglês no original, tradução nossa). Na edição brasileira de El País, matéria de Camila Moraes (2016) intitulada “A fúria cômica das redes contra o “bela, recatada e ‘do lar” registra que “um perfil da ‘Veja’ de Marcela Temer, eventual nova primeira dama do país, convulsiona as redes sociais”.

Houve também análises políticas, comunicacionais, sociológicas, semióticas, psicanalíticas, entre outras, sobre a matéria e suas repercussões. Em Carta Capital, Djamila Ribeiro (2016) escreve “fica evidente a tentativa da revista de fazer uma oposição ao que Dilma representa. Uma mulher aguerrida, forte, fora do padrão imposto do que se entende que uma mulher deve se comportar”. O site Sensacionalista (2016) fez uma paródia, intitulada “Bela, recatada e inflável: o perfil da mulher de político perfeita”. Escrita por M. Zorzanelli, diz que “a boneca inflável Michelle é uma boneca de sorte. Seu dono, o deputado federal Tonho do Açougue (PQ-PR) dá provas de que a paixão não arrefeceu nem nos tempos de crise.”

Na sequência, surgiu a crítica da crítica. Análises sociológicas, por exemplo, traziam outros olhares sobre a polêmica provocada pela matéria. Como a entrevista feita por Néli Pereira (2016), da BBC Brasil, com a historiadora Mary Del Priore. “Para uma das principais pesquisadoras da história das mulheres brasileiras, as críticas seriam originárias em sua maioria das capitais e do Sudeste do país e refletem uma visão ‘intolerante’ sobre o modo de vida de uma parcela significativa da população”. Houve, também, quem refutasse as críticas e tenha se manifestado para dar total apoio à Veja. Como informou o jornal O Povo online (2016): “Mulher de Malafaia contra-ataca campanha “Bela, Recatada e do Lar”. No texto, explica que “[…] esposa do pastor Silas Malafaia, lançou campanha nas redes sociais que […] convoca mulheres a divulgarem a hashtag felizPorSerMulherEsposaMãeDoLar”.

O material apresentado até aqui serve de amostra do que circulou naqueles dias a partir do perfil de Marcela Temer publicado em Veja, registrando que houve críticas à matéria feitas por meios de comunicação e também por pessoas e grupos sociais. A reação coletiva chamou a atenção da mídia, inclusive internacional, que, ao falar sobre reações à matéria da revista,faz também acrítica. A situação logo provoca novas vertentes de juízos, fossem análises feitas por especialistas de campos específicos ou manifestações pessoais contra as contestações às ideias presentes no texto inicial. Algumas dessas manifestações pessoais foram também noticiadas por meios de comunicação, ampliando ainda mais a circulação e a produção de sentidos.

Circulação é um conceito histórico em qualquer teoria da comunicação, mas, por décadas, foi vista de forma automática pela tradição funcionalista, que estabeleceu que o produtor gera uma informação e seu sentido, cabendo ao receptor apenas reconhecer a mensagem nos termos em que foi enviada. Mas, ao contrário, o público reage ao que chega a ele conforme seus conhecimentos e informações, sua posição no mundo, sua pessoa. Não deixa de comentar e levar adiante, em conversas cotidianas, suas considerações sobre o que leu, ouviu ou assistiu. Recebe e emite conteúdo.

Oferta e apropriação têm gramáticas e lógicas próprias. Seu encontro se dá num local que não é nem uma, nem outra — é um terceiro, o da circulação. É uma zona de contato em que essas diferenças produzem sentidos. É essa interdiscursividade que faz a comunicação. Na sociedade em midiatização, processos intensos e acelerados de tecnologias convertem-se em meios e suas dinâmicas afetam não apenas a esfera específica dos próprios meios, mas a organização social e a relação dos indivíduos entre si, dos indivíduos com as instituições e todas as práticas sociais. As pessoas passam a ter condições de produzir e difundir largamente conteúdo sobre mensagens recebidas.

A circulação complexifica os papéis ao organizá-los segundo novas dinâmicas de interface, deixando de ser um elemento invisível nessa nova ambiência. É uma zona de contato em que essas assimetrias, esses feixes de relações, produzem sentidos. Não se sabe como cada polo vai reagir, a intercambialidade é uma interrogação quanto aos resultados.

Nessa nova ambiência midiatizada, a crítica às práticas jornalísticas realizada pelo público ganhou novos espaços. Braga (2002, p. 14) defende que se substitua a “percepção de relação mídia/sociedade como um processo binário entre produção e recepção por uma proposta ternária envolvendo três subsistemas com incidências mútuas: processos de produção, de recepção e crítico-interpretativos”. Para esse autor, o feixe de relações gerado a partir da processualidade das críticas pode levar à qualificação do conteúdo da produção midiática.

Sob esse ponto de vista, assemelha-se ao que defende Fontcuberta (2006) quando escreve que, ao interpretar e selecionar o que lhes é ofertado, as pessoas desenvolvem suas próprias identidades, numa interação que pressiona a mídia a ponto de levá-la a modificar a produção. “É difícil imaginar um jornal de qualidade sem um leitor que a exija permanentemente. O bom jornalismo necessita da interação com um receptor competente para que também o seja”. (FONTCUBERTA, 2006, p. 51). (Em Espanhol no original, tradução nossa).

Braga (2002, p. 17–18) é enfático ao argumentar sobre o que vê como o real valor da crítica na qualificação da mídia, focalizando a relação do público com a produção oferecida:

Assumimos assim uma premissa de que o mais relevante no trabalho da crítica não é oferecer afirmações peremptórias que digam o que é e como funciona a mídia; mas sim a possibilidade de contribuir com critérios diversificados, procedimentos e “vocabulário” para que os usuários da mídia exerçam e desenvolvam sua própria competência de seleção e de interpretação do midiático; e para que participem com eficácia do debate social sobre a mídia.

Com a midiatização, não foram apenas as condições do ofício do jornalista que se modificaram, como aponta Fausto Neto (2012). Também os atores sociais ganharam força em suas críticas. Mesmo que o teor destas não tenha mudado, como questiona Marcondes Filho (2002, p. 17) ao perguntar “em que consistem hoje as formas de crítica às atividades mediáticas? Em nada diferente do que sempre consistiram as críticas à dominação, às manobras da manipulação, aos processos de autoimposição de verdades.”

Se os fundamentos das críticas ainda não evoluíram, é possível supor que também a mídia — e a sociedade que ela representa — pouco tenha mudado em seus conteúdos e proposições. O que mudou foi o entendimento que os estudos sobre comunicação têm trazido a respeito de como se dão os fluxos comunicacionais e que a recepção não fica inerte, simplesmente absorvendo o que lhe é entregue.

Os atores sociais saem dos espaços pré-determinados, e sempre mediados, pelos jornais (seção de cartas, conselho de leitores, ombudsman) e ganham condição de determinar suas intervenções. A internet trouxe espaço para comentários em sites e blogs.

Talvez seja o caminho para que o desenvolvimento do que Fontcuberta (2006, p. 52) chama de receptor complexo, aquele que se “aproxima da mídia com a exigência de encontrar não apenas informação, como também significados, é o que não se conforma com a recepção passiva de uma mensagem, mas que indaga, compara, avalia e tira suas próprias conclusões”. (Em Espanhol no original, tradução nossa).

Não se pode esperar que as críticas tenham algum efeito imediato perceptível nos meios, mesmo quando um produto midiático gera tantas repercussões e controvérsias quanto o que foi aqui analisado. Os resultados mais evidentes podem aparecer na visão de mundo de pessoas que percebam que têm condição de tornar público, em grande alcance, o que pensam sobre o que a mídia oferece. O que leva a outros questionamentos: que tipos de mídia estão emergindo na sociedade em midiatização? Que novos tipos de leitores, ouvintes e telespectadores estão se formando?

Referências

BRAGA, José Luiz. Investigação sobre as lógicas do comentário social crítico. XI ENCONTRO NACIONAL DA COMPÓS GT de Comunicação e Sociabilidade. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 11–32. Disponível em:<http://www.compos.org.br/data/biblioteca_741.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2016.

______. A sociedade enfrenta sua mídia: Dispositivos sociais de crítica midiática. São Paulo: Paulus, 2006.

FAUSTO NETO, Antonio. Transformações nos discursos jornalísticos — a atorização do acontecimento. In: MOULLIAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (Org.). O jornal — da forma ao sentido. 3. ed. rev. ampl. Brasília: UnB, 2012. p. 259–288.

FONTCUBERTA, Mar de. El periódico em uma sociedadcompleja. In: FONTCUBERTA, Mar de; BORRAT, Hector. Periódicos: Sistemas Complejos, Narradores enInteracción. Buenos Aires: La CrujíaEdiciones, 2006.

LINHARES, Juliana. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”. Veja.com, [S.l.],18 abr. 2016. Disponível em:< http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar>. Acesso em: 19 abr. 2016.

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MELO, Itamar. Entenda a polêmica após matéria com perfil de Marcela Temer. ZH, [S.l.], 20 abr. 2016. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2016/04/entenda-a-polemica-apos-materia-com-perfil-de-marcela-temer-5783059.html>. Acesso em: 29 jun. 2016.

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