Na “Atenas da América”

Sete Dias em Boston

─ O impressionante aqui é a educação das pessoas. Mas dureza, mesmo, é aguentar o gelo do inverno.

Assim falava o garçom brasileiro − mineiro de Belo Horizonte. Ao saber que éramos do Brasil, o dono do restaurante fez questão de nos apresentar o rapaz, que vive há algum tempo nos Estados Unidos e já conseguiu matrícula num curso que assegura permanência mais longa.

A boa educação, nós podemos confirmar; por sinal, foi Boston que criou a primeira escola pública do país, em 1635. Quanto ao inverno, felizmente não era época.

Embora uma das cidades mais ricas e influentes dos Estados Unidos, dizem que Boston não é motivada por dinheiro nem política, mas pela aquisição de conhecimentos. Escreveu Mark Twain que para saber o perfil de alguém, o bostoniano pergunta “quanto ele sabe?”, o novaiorquino, “quanto ele vale?”, e em Filadélfia, se indagaria “é filho de quem?”.

A cidade tem forte presença da história. Foi cenário de vários recomeços de vida − o dos pioneiros da Nova Inglaterra, que deixaram sua terra natal premidos por divergências religiosas; o dos que no século XVIII desencadearam o movimento pela Independência (décadas antes de qualquer outro país da América); o do movimento abolicionista, que em 1831 teve ali o primeiro jornal em solo americano, The Liberator; e também o dos imigrantes de várias levas. A toda hora, víamos na rua grupos de estudantes ou de turistas percorrendo lugares históricos, por vezes com guias trajados a caráter. Perto de nossa estação de metrô, um bar anunciava estar servindo ostras desde 1795, e os concorrentes vizinhos também exibiam credenciais antigas. Por sorte, essa ancianidade toda não impediu as ostras que comemos de estarem bem fresquinhas.

Embora fundada com base na liberdade de crença, a Nova Inglaterra se pautava por códigos rigorosos de comportamento − tratava-se dos Puritanos. No North End, bairro onde ficamos, conta-se que por ter beijado sua mulher em público ao voltar de viagem, certo cidadão foi condenado a chicotadas em plena praça. Por via das dúvidas, Odete e eu cuidamos de andar na linha.

Esses contrastes foram detectados pelo jovem Alexis de Tocqueville, jurista francês de família nobre que visitou o país em 1831/32 e escreveu o clássico A Democracia na América. Para ele, a sociedade americana amalgamava o espírito religioso com a ideia de liberdade: tanto que ao atuar na política, o crente sectário frequentemente atuava desprovido de preconceitos. Outro contraste que registrou foi o existente entre o resoluto individualismo e a participação ativa em entidades comunitárias. Encontram-se aí elementos do modelo fundador da cultura americana, alguns em certa medida presentes nos dias atuais

Mas é fato que hoje se vêem atitudes de clara abertura e de tolerância aos comportamentos pessoais. Numa igreja da United Church of Christ que visitamos, um folheto expressava receptividade às pessoas, fosse qual fosse a orientação sexual.

Na porta de outra igreja, vimos um cartaz oferecendo acolhida a imigrantes, em firme contraposição à xenofobia acirrada por Donald Trump. Boston, aliás, é a cidade americana que mais se destaca nas iniciativas filantrópicas.

O North End acompanhou a história da cidade. Nos tempos coloniais, era habitado por ingleses de posses. Mais tarde, no século XIX, tornou-se bairro de trabalhadores imigrantes: primeiro irlandeses, depois judeus e italianos. Estes últimos imprimiram sua marca, e hoje há uma profusão de cantinas e pizzarias, algumas com filas à porta − e também padarias que oferecem ciabatta e outras delícias… Na rua, sempre escutávamos pessoas falando italiano.

Ao sair e voltar de casa, passávamos na Hanover Street, a mais movimentada e talvez mais antiga do bairro. Ainda bem que já não vigora o decreto de 1656 estipulando ser aquele o único lugar da cidade em que açougueiros podiam descartar sobras. Também naquela rua, funcionou a Funerária Langone, onde em 1927 foram velados os corpos de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti. Anarquistas nascidos na Itália, os dois foram executados na cadeira elétrica, sob uma controvertida acusação de crime. Uma placa assinala a sede do comitê da luta por sua libertação.

Placa à entrada do prédio onde funcionou o Comitê pela Defesa de Sacco e Vanzetti.

Na caminhada pelo North End, acham-se vários marcos da Independência Americana. Entre eles, a casa de um dos líderes, o ourives Paul Revere, hoje transformada em pequeno museu. Outro destaque é a North Church, de onde o sacristão, seguindo instruções de Revere, espreitou a chegada das tropas inglesas − se viessem por terra, avisaria acendendo uma lanterna; se por mar, acenderia duas.

Da torre da igreja, realmente se avista o mar, ali bem perto. Na orla, estende-se um agradável calçadão, e barcos de turismo estão sempre saindo, especialmente nos fins de semana.

A orla e seu calçadão.
A escultura moderna e o mar servem de cenário para o casal romântico.

Nos anos 50, a implantação de uma via elevada deixou o bairro meio isolado. Em 2007, porém, demoliu-se o minhocão bostoniano, na sequência da construção do Big Dig, rede de vias expressas subterrâneas. Onde antes havia um mostrengo de concreto, as pessoas hoje desfrutam de um parque. Com a mudança, prédios vizinhos deram novo uso à antiga face “cega” e abriram janelas para o jardim.

A caminhada pelo centro de Boston evoca cenas do período colonial (como cemitérios do século XVII) e também do movimento da Independência. Estivemos no marco que assinala o lugar em que oito revolucionários foram mortos. Fica em frente à sacada de onde em 1776 a Independência foi publicamente anunciada.

Da sacada, proclamou-se a Independência; no chão, à direita, o marco do lugar onde tombaram oito revolucionários.

Também há parques amplos e aprazíveis, como o Boston Common, de 200 mil metros quadrados. Datado de meados do século XVII, é o mais antigo parque urbano dos Estados Unidos. Ao passarmos, sempre víamos muita gente usufruindo o belo espaço. Na Nova Inglaterra, parques e bosques ganham cores belíssimas no outono, e muita gente viaja para lá a fim de contemplar as tonalidades das folhagens; mas estávamos na primavera...

Boston Common.

De frente para o Common, em rua adjacente, um majestoso prédio de 1798 sedia o governo estadual. As linhas e cúpula serviram de inspiração para o Capitólio, em Washington. Chama a atenção que pouco depois da Independência já houvesse recursos para uma construção desse porte − sinal da riqueza da região de Massachusetts.

Sede do Governo Estadual de Massachusetts.

Ainda na área central, um monumento relembra o drama dos irlandeses que para lá imigraram devido à Grande Fome de 1845/1850, decorrente de praga nas plantações de batata. Muitos morreram na viagem, que costumava ser feita em condições subumanas. O memorial tem dois conjuntos de estátuas, um representando a tragédia da fome, e o outro, a esperança de uma vida nova.

Monumento aos imigrantes irlandeses.

Certa manhã de domingo, admiramos a vista do Rio Charles, em cuja foz surgiu a cidade. Bem perto, está a elegante Charles Street, com prédios do século XIX, quando a elite local residia ali e em ruas vizinhas. Era na Charles Street que morava a aristocrática Olive Chancellor, uma das personagens centrais do romance Os Bostonianos (1886), em que Henry Miller satiriza a atuação das sufragistas americanas.

À margem do Rio Charles.

Era o primeiro domingo de junho, dia em que anualmente o bairro tem sua feira de arte. Pintores e outros artesãos expõem trabalhos ao ar livre, em espaços cedidos pelos moradores − passagens entre prédios, quintais… Enquanto xeretávamos, um conjunto tocava música clássica.

Na área da Charles Street, a feirinha de artesanato.

Em outro dia, visitamos o Museum of Fine Arts, que expõe um acervo extraordinário − contemplá-lo inteiro seria impraticável. Fizemos duas escolhas: primeiro, a mostra temporária de obras de Henri Matisse; depois, a seção de arte egípcia, considerada a maior existente fora da África. Ambas valeram a pena. De passagem, vimos algo da arte americana contemporânea, e Odete fotografou instalações.

Instalação de arte contemporânea no Museum of Fine Arts.

Nas imediações, conhecemos outro museu de arte, o Isabella Stewart Gardner, proveniente da doação de uma colecionadora milionária. Mulheres com o nome Isabella têm ingresso gratuito; quem souber de um museu em que os Antônios entrem de graça, peço avisar-me.

De metrô, fomos a Cambridge, cidade vizinha onde fica a prestigiosa Universidade de Harvard. Por seus bancos escolares passaram vários Presidentes (como Obama e Kennedy) e um respeitável número de premiados com o Nobel. Particular, a universidade foi criada em 1636 e se estabeleceu em terreno doado por John Harvard.

Graduar-se em Harvard é antigo sonho de muitos. Ao percorrer o campus, guiado pela moça que cortejava, Basil Ramson, protagonista de Os Bostonianos, lamenta não ter sido aluno. “Este é o lugar onde eu deveria ter estado”, diz. “Viveria um tempo feliz, se pudesse estudar aqui”. O que talvez lhe faltou foi acariciar o pé esquerdo da estátua do fundador. Diz a lenda que isso garante o futuro em Harvard − e o sapato continua brilhando…

Primeiro passo para a Pós em Harvard.

Cambridge também tem um magnífico parque central, o Common, que como seu xará de Boston segue verdejando desde o século XVII. E excelentes museus, que teríamos visitado se dispuséssemos de mais dias.

De ônibus, esticamos até Lexington, palco de momentos cruciais na Revolução Americana, inclusive a primeira batalha. Visitamos o pequeno museu da Buckman Tavern, local onde se reuniam os minute men, milícias privadas que tiveram importante papel na mobilização pela Independência.

Em mais um passeio, fomos de trem à cidadezinha de Manchester-by-the-Sea. Meses antes, Odete e eu assistíramos ao comovente filme com esse nome, ambientado lá; sua fotografia primorosa nos motivou para conhecermos o lugar.

Existente desde o século XVII, Manchester é habitada por apenas 5.000 pessoas. Mas tem lojas, restaurantes e outros serviços, e até uma biblioteca pública com mais de 100 anos. Na chegada, fomos tomar um cafezinho no bar e pedimos informações. A senhora da mesa vizinha puxou conversa:

─ Vocês vieram aqui por causa do filme, não é? Uma porção de gente anda fazendo a mesma coisa − riu.
─ Manchester − prosseguiu − não tem nada de especial, só paisagens. A história do filme é ficção, e as casas que aparecem não são daqui.

Vimos paisagens de real beleza, embora diferentes do filme, que se passa no inverno. Andando pela Beach Street, chegamos à praia. Alguns banhistas ao sol, ninguém na água − devia estar gelada. Demos uma caminhada pela areia, ao som do marulho das ondas.

Recanto da praia em Manchester-by-the-Sea.

Os Estados Unidos costumam ser mencionados como o país do automóvel e do transporte individual. Registro, porém, que é muito bom o transporte público de várias cidades americanas que conheci. Em Boston, sempre tomávamos o metrô, que funciona com eficiência. A aparência é meio envelhecida e soturna, mas ele tem idade realmente avançada: inaugurado em 1897, é o mais antigo da América − mais uma, na coleção de primazias da cidade. Decorando uma estação, vimos anúncios antigos: tratamentos dentários “sem dor”, agências de turismo etc.

Extração de dentes sem dor…

Usar o transporte coletivo significa andar pelas ruas, com olhares sobre a cidade que o passageiro de carro dificilmente terá; na experiência do pedestre, são diferentes os ângulos e ritmos. Aliás, nos Estados Unidos, como em outros países, o respeito ao pedestre é levado a sério. Nisso, a exceção é mesmo o Brasil.

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Antonio Carlos Boa Nova

Written by

Sociólogo. Autor do livro “Fora da Ordem: do claustro ao mundo secular”.

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